24 de janeiro de 2018: O julgamento de LULA 

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Porto Alegre está no mapa histórico de Luiz Inácio. Em 2003, no Fórum Social Mundial, o ex-presidente discursou para mais de 100 mil pessoas, no palco Por do Sol, as margens do Rio Guaíba, com a promessa de uma agenda de esquerda para o Brasil. No mesmo dia, 24 de janeiro, agora em 2018, Lula se viu condenado na capital gaúcha 

Parece que 24 de janeiro é uma data histórica para Lula. Na última quarta-feira (24), o ex-presidente afirmou sua inocência no julgamento que aconteceu no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre. Os três desembargadores confirmaram condenação do líder petista por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Lula assistiu ao julgamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, ao lado de militantes e apoiadores.

O julgamento, em segunda instância, na Justiça Federal (no TRF4, em Porta Alegre), decorreu sem problemas. Nas ruas, um mar de gente clamando por absolvição, lá no tribunal, os desembargadores federais João Pedro Gebran Neto, Leandro Paulsen e Victor Luiz dos Santos Laus aumentaram a pena para 12 anos de reclusão. A defesa do ex-presidente pode recorrer ainda no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Superior Tribunal Federal (STF). 

“Eu tenho muita tranquilidade para enfrentar adversidade, noção dos problemas que estamos vivendo. O que está acontecendo comigo é muito pouco diante daquilo que acontece com milhões de desempregados no país”, discursou Lula para militantes no ABC Paulista, após condenação. 

24 de janeiro

Em 2003, no Fórum Social Mundial, exatamente no dia 24 de janeiro, eu estava em Porto Alegre, já em 2018, não. Porém, o centro das atenções, mesmo após quinze anos, na capital gaúcha, foi Lula. No Fórum, ele fez um breve discurso, dizem que durou menos de uma hora, confesso que não lembro exatamente o tempo, para aproximadamente 120 mil participantes. Não empolgou. 

No início da sua fala ele foi vaiado. Havia, já naquele período, principalmente dentro do Acampamento da Juventude, uma conversa de que uma dívida histórica da Globo seria perdoada pelo governo federal. Além disso, a Carta ao Povo Brasileiro, feita pelo Partido dos Trabalhadores (PT), não agradou, nem de perto, grande parte da esquerda. 

Mesmo assim, lá nas margens do Rio Guaíba, Lula falou como só ele sabe falar.  O objetivo de reduzir a miséria e a desigualdade, mudar a condição social das pessoas, estava presente. Esse sempre foi o carro chefe da narrativa do ex-presidente e naquele dia não foi diferente. No fim, ele foi ovacionado. Situação diferente ao do dia 24 de janeiro de 2018. Dessa vez, Lula não estava lá; já os milhares de militantes sim. 

Lula é um personagem histórico. Seu governo, de fato, deixou um legado de redução da miséria no país, aumentou o Produto Interno Bruto, o Brasil saiu do mapa da extrema pobreza e derrubou-se o mito da pirâmide econômica. Não se pode esquecer que os trabalhadores tiveram aumentos reais, o setor de serviços impulsionou a economia e o Brasil se tornou uma espécie de baú econômico, com a migração de inúmeras famílias para “outra classe social”. 

É verdade também que aumentou o número de milionários. Principalmente impulsionados pelo agronegócio e as ‘super commodities’. Ou seja, o topo do baú, além de mais largo que o da pirâmide, ficou mais disputado. 

Poder pelo poder

Então chegamos ao ponto base dessa estrutura chamada “julgamento de Lula”. Como já foi dito, o topo do baú é mais largo e agrega mais milionários. Logicamente, aumenta a necessidade de dividir as fatia$. E Lula, assim como boa parte dos mandatórios do PT, migraram para o topo do baú. Logo, passaram a disputar o que antes era “inatingível”, consequentemente tornaram-se ‘persona non grata’ na ‘high society’.

Essa aversão à nova tripulação economicamente ativa brasileira também aconteceu na classe média do baú. Houve uma confusão mental na elite conservadora. Eram comuns relatos do tipo: “lugar de pobre não é em aeroporto”, “que horrível o pobre frequentar universidade”, “desde quando pobre compra carro zero?”, “credo, minha manicure viajou pra Europa!”. 

Essa raiva vinda da elite promoveu uma espécie de convulsão social no Brasil. Enquanto os governos do PT fantasiavam uma estabilidade econômica e não disputavam a narrativa da crise na mídia de massa, o projeto ‘antipovo’ venceu na batalha da comunicação. Hoje existe um culto ao ‘ódio do vermelho’. 

Como consequência, aqueles que sempre estiveram no topo da antiga pirâmide e que continuam no topo do atual baú, resolveram retomar a velha política. Esta guinada para a agenda neoliberal, do primitivo anos 90, aconteceu praticamente sem oposição popular. 

Por isso, durante todo o dia 24 de janeiro de 2018, as bolsas de valores pelo mundo se conectavam ao sonolento discurso dos desembargadores de Porto Alegre. O que o mercado quer, para o Brasil, é o resgate das políticas governamentais que favoreceram e favorecem os poucos rentistas extremamente poderosos, além do interesse estrangeiro, que sempre esteve no topo da fênix; a ressuscitada pirâmide econômica.  

De verdade, durante o julgamento de Lula o establishment estava em festa. Acredito que, em termos de raízes hereditárias, a mesma comemoração aconteceu num outro 24 de janeiro, também no Brasil, mas dessa vez em 1967. Foi nessa data que se legalizou e se institucionalizou a ‘constituição do regime militar’. Financiado pelas mesmas famílias que se mantém na elite econômica mundial e que ditam as regras para os países em desenvolvimento.

Lembre-se: o Golpe de Estado no Brasil (31 de março e 1º de abril de 1964) derrubou o governo do presidente democraticamente eleito João Goulart (Jango). Passado um curto período de tempo, no dia 24 de janeiro de 1967, a “Constituição Militar” foi formalizada.  

Agora, em 2018, também no dia 24 de janeiro, Lula, o principal represente popular do Brasil, é condenado. Num julgamento controverso, em que Legalistas defendem que o rito democrático do processo foi corrompido. Poucos anos antes, Dilma Rousseff, presidenta democraticamente eleita sofreu um impeachment deplorável. Parece que tudo gira em torno da máxima: ‘a ordem dos fatores não altera o produto’. Na política soaria como algo do tipo: ‘a ordem do golpe não altera os detentores dos meios de produção’. 

É como disse à imprensa o representante da Comissão de Direitos Humanos da ONU, o advogado britânico Geoffrey Robertson: “os juízes hoje falaram cinco horas lendo em um script. Eles tinham a decisão escrita antes de ouvir qualquer argumento”, ponderou. “Nunca escutaram, então isso não é uma sessão justa, não é uma consideração apropriada do caso”, relatou.

No fim, o 24 de janeiro juridicamente vencedor foi aquele que remete ao autoritarismo de 1967. Nessa data se “comemora” a constituição de um estado autoritário, que julgava unilateralmente. Diferente do 24 de janeiro de 2003, em que se imaginava um mundo mais democrático e livre. 

Bom, resta saber agora quando e como vai acabar o 24 de janeiro de 2018. Lula vem ao lado de uma massa popular, com a narrativa de injustiçado. Já o judiciário brasileiro vive seu período mais inquisitório, num molde autoritário e politiqueiro. Precisamos ter cuidado, pois o lema ‘não tendo prova, mas tenho convicção’ pode atingir todo cidadão. 

Resta saber se isso virou regra ou foi só uma exceção com o objetivo de cumprir a agenda do grande acordo nacional, “com o supremo, com tudo”, como ‘profetizou’ o peemedebista Romero Jucá.

Por Regis Luís Cardoso, jornalista

Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

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