300 famílias do acampamento Quilombo dos Palmares sofrem despejo em Londrina (PR)

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Área está bloqueada pela Justiça Federal por escândalos de corrupção envolvendo o ex-deputado federal José Janene (falecido), esposo da proprietária da fazenda

Redação

Dezenas de viaturas e homens da Polícia Militar e da tropa de Choque do Paraná cumpriram uma ordem de despejo contra cerca de 300 famílias Sem Terra integrantes do acampamento Quilombo dos Palmares, no distrito rural Lerrovile, em Londrina, norte do Paraná. A ação começou às 7h desta terça-feira (30), sem qualquer aviso anterior, e 159 famílias estavam no local. 

Sob forte pressão psicológica, os camponeses e camponesas desmancharam suas casas de madeira e reuniram o que construíram com muito esforço desde 2015, quando ocuparam a área. Ficou para trás a maior parte dos alimentos produzidos naquela terra, sustento para crianças, homens, mulheres e idosos que viviam ali. 

As famílias estão abrigadas no Centro Comunitário do assentamento Eli Vive, localizado a 3 quilômetros do acampamento. No entanto, os objetos e móveis estão a céu aberto, a espera de lona. Apesar das dificuldades em retomar a vida novamente em um pedaço de chão para viver e plantar, as famílias seguem organizadas e mobilizadas para lutar por justiça, dignidade, direitos e reforma agrária. 

O deputado estadual Arilson Chiorato (PT) visitou a área na manhã desta terça-feira e relatou em suas redes sociais o que viu: “Cenas muito tristes de famílias pobres e crianças que ficarão desabrigadas. São 159 famílias tendo interrompido o sonho de ter um teto pra morar”. 

Terra de corrupto

A ordem de despejo foi despachada em outubro de 2018. Os 200 hectares de terra da fazenda Marília estão bloqueados na Justiça Federal por fazerem parte de escândalos de corrupção do Mensalão. A área está registrada em nome de Stael Fernanda, esposa do proprietário e já falecido ex-deputado federal José Janene.

Pivô do caso, o parlamentar recebia uma mesada de 30 mil mês, além de outros acordos com p líder do Partido Progressista (PP). Ele adquiriu a área em 2003, avaliada em R$ 1,6 milhões. Esta foi apenas uma das 11 fazendas compradas por Janene entre os anos de 2003 e 2004 no Norte do Paraná.

Terra de produção e desenvolvimento humano

A área estava ocupada pelas famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desde 28 de novembro de 2015. O acampamento foi batizado de Quilombo dos Palmares para trazer em seu nome a cultura e a luta dos negros pela liberdade, e se tornou espaço de culturas, etnias, produções, debates e conhecimento.

Em quatro anos de muito trabalho e organização coletiva, a terra fruto da corrupção foi se transformando na terra da diversidade. As famílias passaram a cultivar alimentos com suas próprias sementes, preservadas e multiplicadas a cada ano.

Além da grande produção de alimentos para o auto-sustentação, os camponeses colhiam o suficiente também para gerar renda através da comercialização dos excedentes em feiras e mercados do município.

A produção era diversificada: arroz, feijão, mandioca, batata, milho, alho, hortaliças, dentre outras culturas. Também havia criação de porcos, galinhas, bovinos e equinos, e cultivo de plantas medicinais, com fabricação de xaropes, tinturas e outras formas terapêuticas. As crianças tinham acesso à educação na região e o analfabetismo vinha sendo superado por meio do Ensino para Jovens e Adultos (EJA).

Solidariedade

Moradores da área urbana de Londrina iniciaram uma campanha de arrecadação de doações para as famílias Sem Terra. Colchões, roupas, alimentos e utensílios domésticos estão sendo recolhidos no Canto do MARL – Movimento dos Artistas de Rua de Londrina, localizado na rua Avenida Duque de Caxias, 3241, Centro.

Foto: Edna dos Santos

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