A banalidade do Whatsapp

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Vamos supor que certo país passe por eleições. É o país X. Hipotético. Pois bem: vamos fazer de conta que, nessas eleições, um candidato use um slogan de campanha igualzinho ao “Alemanha acima de tudo”. Aquela frase marcante da versão do hino alemão cantada pelos nazistas. Que é mais ou menos como aquele papo de “America first” do atual presidente dos EUA, embora a última frase não tenha sido exatamente seu mote de campanha. Enfim. O ponto é: quem são os “outros”, a quem deveremos ficar por cima? Afinal, já que devemos estar por cima de tudo ou todos, logicamente alguém deve ficar por baixo.

Não dá pra saber ao exato. O que dá é pra rezar pra que EU não faça parte dos “outros”. Meus familiares e amigos, idem. Ou que afinal façamos, dependendo dos casos. Como naquela tirada do Darcy Ribeiro que recebi mil novecentas e sessenta e oito vezes – na verdade foram mil novecentas e oitenta e quatro vezes – no celular. Algo tipo “Eu odiaria estar do lado dos que venceram”.

Bom, acontece que uma vez um cara bem diferente do Darcy Ribeiro disse algo nesse sentido, também. Quero dizer, algo nesse sentido de “nós” contra os “outros” e de perdedores e vencedores. Esse cara era um nazista. O Goebbels, o cara que controlava as mensagens que seguiam pro povo alemão via Whatsapp durante o Terceiro Reich. Não que existisse Whatsapp naquele tempo, exatamente. Eu tenho preguiça de consultar a fonte pra citar direitinho o que esse cara disse, e que deve ter sido replicado por zilhões de robôs e tiozões com celulares na Alemanha dos anos 1930 ou 1940, ou algo equivalente, claro, mas sei que foi algo como: “Nós entraremos para a História como os maiores estadistas; ou como os maiores criminosos”. Nós queremos ser sempre nós, nunca “os outros”.

A gente costuma entender o que aconteceu com os nazistas – e também o que aconteceu por causa e apesar deles – por certos objetos que circulam por aí com relativa facilidade. Eu disse relativa facilidade. São aqueles objetos retangulares, com folhas de papel alinhadas dentro, e letras impressas nessas folhas. Em alguma parte deles, normalmente na superfície onde nossos olhos batam com mais frequência, costuma ter o nome de uma pessoa, não raro louca, além de uma pequena frase ou palavra que dá ideia – ou confunde totalmente – o que vai escrito na parte de dentro, nas chamadas “páginas”. Já ouvi que tais objetos são bons pra ajudar as pessoas a ter “memória”, que é esse troço que faz com que a gente se lembre das paradas sinistras e evite (re)fazer merda.

Me desculpem se eventualmente usei uma palavra chula pra fechar o parágrafo anterior. Na verdade, não usei. É mentira que eu tenha escrito merda logo acima.

Bom. Talvez vocês não se interessem, porque esses objetos paginados são quase sempre caros. Mas tem um desses aí que meio que serve pra tentar entender – e consequentemente ficar cheio de dúvidas – algumas coisas com relação ao “Reich dos Mil Anos, que durou exatamente doze anos e três meses”. É um que tem o nome “Hannah Arendt” escrito. Ela produziu esse objeto do qual estou falando quando foi enviada a Jerusalém, no início dos anos 1960, pra cobrir o julgamento de Otto Adolf Eichmann, um coleguinha de Goebbles responsável por embarcar os judeus em suas viagens derradeiras. Esse objeto foi publicado quase um ano antes da ditadura militar começar aqui no Brasil. “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, o objeto paginado a respeito desse negócio de “nós” e os “outros” a quem devemos pisotear.

A dona Hannah escreveu bem assim, numa página qualquer do objeto, a respeito da Alemanha nazi:

(…) a prática do auto-engano tinha se tornado tão comum, quase um pré-requisito moral para a sobrevivência, que mesmo agora, dezoito anos depois do colapso do regime nazista, quando a maior parte do conteúdo específico de suas mentiras já foi esquecido, ainda é difícil às vezes não acreditar que a hipocrisia passou a ser parte integrante do caráter nacional alemão. Durante a guerra, a mentira que mais funcionou com a totalidade do povo alemão foi o slogan “a batalha pelo destino do povo alemão” [der Schicksalskampf des deutschen Volkes], cunhado por Hitler ou por Goebbels, e que tornou mais fácil o auto-engano sob três aspectos: sugeria, em primeiro lugar, que a guerra não era guerra; em segundo, que fora iniciada pelo destino e não pela Alemanha; e, em terceiro, que era questão de vida ou morte para os alemães, que tinham de aniquilar seus inimigos ou ser aniquilados.

Isso quer dizer que os caras promoviam o auto-engano e a desinformação. Assim, como estratégia. Coisas pequenas quando se tem uma guerra pra ganhar. Não é de estranhar.

Exemplo. O candidato a presidente do país X a que fiz referência lá no cocuruto deste texto. Vamos supor que ele tenha se elegido. Isso posto, digamos que ele afirme que dificultará a presença no país X de médicos de outro país, o Y, que, antes de mais nada, comete a deselegância de ter posicionamento Y, do qual o referido presidente discorda radicalmente. Digamos que tais médicos, que vinham sendo necessários no país X, saiam, de fato, do país X. O presidente em questão, mesmo tentando argumentar a maior parte dos salários desses médicos iam pro regime Y, sacrificou parte da população X por falta de afinidade ideológica, ou por uma simulação de ética. Na verdade pode ser que tenha sido birra, já que o país X continuará negociando com outros países longe de estarem afinados com a ideologia X. Quanto à ética, melhor deixar pra lá. Enfim.

O que aconteceu, no exemplo acima? Atitude de auto-engano focada no ataque ao “outro”? Mistura de irresponsabilidade com pirotecnia, com vistas a capitalizar só com os do grupo “nós”, e não com os “outros”, numa realidade seletiva e, portanto, hipócrita? De certo, do presidente X pode se esperar tudo, menos pragmatismo. Alguns campos são mais suscetíveis a tomadas de posição desumanas ou criminosas, em outros, nem tanto. Se o país Y fosse a China, que é tudo menos um país hipotético, e se ao invés de médicos estivéssemos falando da indústria de produtos manufaturados, provavelmente o presidente X seria outro. Seria como “o outro”. Quem está na fila de emergência do posto de saúde não liga se o médico que vai atender (vai?) tem nacionalidade X ou Y, ou mesmo posicionamento X ou Y.

Melhor voltar pra Alemanha nazista. Ela perdeu a tal da Segunda Guerra Mundial, segundo o objeto paginado a que me referi acima. Ela fez e aconteceu. E perdeu. Otto Adolf Eichmann, esse cara tão contraditório, desmemoriado, incapaz de se enxergar no lugar do “outro” e de ver suas próprias incoerências, movido menos por argumentos do que por frases feitas, ficou triste. Disse que nunca se arrependeria, porque sempre fizera o que fizera oficialmente. Mas ficou triste. “Senti que teria de viver uma vida individual difícil e sem liderança, não receberia diretivas de ninguém, nenhuma ordem, nem comando me seriam mais dados, não haveria mais nenhum regulamento pertinente para consultar — em resumo, havia diante de mim uma vida desconhecida”. Bom, esse desconhecido doloroso, pra mim, sempre cheirou à liberdade. Mesmo assim, a despeito de qualquer foco em certo “regulamento”, segundo a dona Hannah, “Ele não tinha tempo, e muito menos vontade de se informar adequadamente, jamais conheceu o programa do Partido, nunca leu Mein Kampf”.

Incrivelmente, isso não era um fenômeno restrito ao Eichmann.

O programa do Partido nunca foi levado a sério pelos funcionários nazistas; eles se orgulhavam de pertencer a um movimento, que não devia ser confundido com um partido, e um movimento não podia se prender a um programa. Já antes da ascensão dos nazistas ao poder, esses Vinte e Cinco Pontos não passavam de uma concessão ao sistema partidário e a possíveis eleitores antiquados o bastante para querer saber qual o programa do partido a que estavam se filiando. Eichmann, como vimos, estava livre desses hábitos deploráveis, e quando disse à corte de Jerusalém que não conhecia o programa de Hitler é muito provável que estivesse dizendo a verdade.

Taí. O Terceiro Reich não durou mil anos porque deve ter sido governado pelo Whatsapp.

Por Bruno Brasil, jornalista curitibano radicado no Rio de Janeiro, escreve para o Terra Sem Males na coluna “entre aspas”
Foto: Wikimedia Commons

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