Tirem as crianças da praça: Andirá, a cidade sem parquinho

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Vi mães tranquilas ao redor de seus filhos “fazendo exercícios” em equipamentos para adultos. De minha parte, tensão do começo ao fim

Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

Esses tempos, ao roteirizar as férias no Rio de Janeiro, mencionei a quantidade de ótimos parquinhos infantis na maioria de praças e parques com acesso gratuito, às vezes mais de um, como na Lagoa Rodrigo de Freitas. Em Curitiba, com estruturas mais antigas, ainda assim dá pra notar pela cidade uma quantidade considerável de parquinhos para crianças. Até nas praias de São Francisco do Sul (SC), que também estivemos durante essas férias, existem dois parquinhos, mesmo que sem manutenção. Pois em Andirá, cidade no norte do Paraná, não tem. Nenhum parquinho por onde a vista alcança.

Apesar do aviso na placa, as crianças são quem usam os “brinquedos” da Academia da Terceira Idade. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

A praça principal de Andirá foi sede da festa católica do padroeiro municipal São Sebastião, celebrada em 20 de janeiro, em que ruas são fechadas para instalação de barracas para venda de comidas em prol da igreja, são realizadas novenas e procissões durante a semana toda, sendo encerrada no último domingo (22), com um inacreditável número de pessoas reunidas num mesmo local para participar do show de prêmios em forma de bingo.

Povo participa do tradicional bingo. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Nesse dia e nos outros que estivemos lá, um detalhe chamou minha atenção de mãe-super-zelosa: não basta não ter parquinho e as crianças naturalizarem a utilização de equipamentos públicos de ginástica preferencial para idosos; as mães também já naturalizaram a situação. Mais de uma vez puxei papo com outras mães, no meio daquela tensão de permanecer ao lado da filha só esperando ela se estabacar num acidente bobo por uso inapropriado de equipamento. Eu sempre exclamava “mas que absurdo não ter parquinho na cidade, não acha?”. E as respostas foram simples expressões como “as crianças brincam aqui mesmo” ou “antes tinha um parquinho aqui mais estava mal cuidado, quebrado” ou “as crianças brincam aqui”.

Eu também fiquei abismada porque existem vários bancos ao redor e as mães CONSEGUEM SENTAR TRANQUILAMENTE para observar os filhos à distância. Enquanto eu, repito, ficava cercando minha filha temendo o pior.

Paula atenta à Carol na sua “brincadeira”. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

De acordo com os últimos dados do Ipardes, atualizados em janeiro de 2017, que oficialmente registra toda a infraestrutura pública dos municípios do Paraná, Andirá tem 20,8 mil habitantes (IBGE – agosto/2016). O último censo (2010) registrou mais de mil crianças de 1 a 4 anos e mais de 1.300 de 5 a 9 anos, com população equivalente de idosos (o enfoque das academias ao ar livre que substituíram os parquinhos). Já dados de 2015 do mesmo relatório constam 2.400 crianças  menores de dois anos pesadas pelo sistema público de saúde. A demanda por locais públicos de lazer para crianças existe. E as praças poderiam conciliar parquinhos infantis com academias para adultos.

Joka foi criado em Andirá e percorremos a cidade atrás de alguns pontos que ele recordava que existiam parquinhos infantis. Nas praças, centros comunitários. Nada. Nenhum. Mas sempre tinha uma academia para adultos para substituir o lazer das crianças. Não sei se passou a ser uma padronização de cidades pequenas do Paraná, pois Clevelândia ainda tem parquinho na praça, mesmo que menor, mas modernizado. Já no município de Conselheiro Mairink, que também passamos no trajeto e entramos para ver a praça, fizeram o mesmo: não há estrutura de lazer infantil, apenas a academia colorida para adultos.

Procissão de São Sebastião, padroeiro de Andirá-PR. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Mesmo este sendo um olhar de uma turista de feriados, que visita a cidade de duas a três vezes por ano, arrisco dizer que Andirá deve em infraestrutura para sua população. Os eventos públicos de lazer são as festas paroquiais, portanto, supõe-se, sem investimento do município. Existe o ginásio de esportes de porte esplendoroso e de aparência sofrível. Sem pintura, parece estar sempre com portas fechadas. Existe o cinema de rua, desativado há anos. Ao menos é utilizado como espaço de cultura e dança pelos estudantes. A água encanada é cortada todos os finais de semana e feriados, mesmo que a cidade esteja em área de manancial e cercada por três rios. Já narrei aqui um episódio que passei com Carolina numa madrugada no único hospital público da cidade, também um problema de infraestrutura.

Ginásio de Esportes José Elis Feliciano, o “Morcegão”, está abandonado e literalmente caindo aos pedaços. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Rodovia Transbrasiliana

Queria dizer que, para chegar em Andirá, utilizamos o trecho paranaense da rodovia federal denominada “transbrasiliana”, com início no município de Ventania e segue rumo ao norte pioneiro, passando por outros estados até chegar em Brasília. E queria dizer que essa rodovia não é pedagiada e que está um tapete, uma lindeza, com rara exceção entre Ventania e Ibaiti, que ainda tem alguns pontos indicando obras com placas do Dnit. Na transbrasiliana do Paraná, o governo Dilma deixou sim seu legado, de responsável pela infraestrutura do país.

Conduzir por essa rodovia é uma sequência de paisagens verdes, desde Ibaiti, a “rainha das colinas”, minha paisagem de estrada preferida, quando começam os cafezais, passa pelas mangueiras, e ao redor goiabeiras. É muita beleza e satisfação para o meu coração ver um cantinho do Paraná quase sem soja ou pinus.

E para finalizar, queria dizer que das cinco ou seis vezes que estive em Andirá sempre buscamos aventuras, procurando margens de rios, nas estradas de plantações de bananeiras e canaviais, atrás do voo dos carcarás. Mas desta vez a diversão foi urbana e bem peculiar. Passamos o fim de semana no bingo de carne assada da festa da igreja, com rodadas a R$ 1. De primeira, Joka ganhou um frango assado. Chegamos em casa, era porco! Os mais sortudos levaram costela bovina.

Eu gosto muito de conhecer cidades pequenas do Paraná. Tenho raízes em Clevelândia, no Sudoeste, vou me apegando a Andirá, sempre trago a Curitiba um pouco do clima interiorano. Da primeira vez, trouxe uma muda de cactus-palma. Ele já se transformou em três. Dessa vez comi manga que tirei do pé, a manga mais gostosa do mundo. Também trouxe quiabos do quintal da sogra pra fazer uma conserva. E ainda penso em quando verei de novo um cafezal em flor, como da primeira vez. E se lhe parece um texto amargo ou ingrato, que sirva ao menos para trazer luz a esta questão: crianças existem e precisam de infraestrutura de lazer apropriada e sem risco. Nenhum risco.

Crianças brincam nos aparelhos da Academia da Terceira Idade. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

P.S. Gostaria de mencionar que as noites de festa reuniam muitas pessoas na praça mas o que mais de chamou atenção foi um menino jovem que estava lá, o tempo todo no coreto, no meio do seu palco, se acabando de dançar.

 

 

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