A conjuntura do caos e as manifestações estudantis à deriva

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Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

Nessa semana me deparei com uma foto registrada aqui em Curitiba: nela estava enquadrada a fachada de um banco e as frases “morte aos banqueiros”, “poder popular”, “que os ricos paguem a conta”, “rebelar-se é justo”. A foto é do ato contra a PEC 55, do último domingo (11/12/2016), e eu concordo com as frases, à exceção da primeira. O problema é que a fachada da instituição financeira em questão é do Banco do Brasil.

E ao lado da Caixa Econômica Federal e do BNDES, são esses três os bancos que nos restam como última trincheira de fomento aos investimentos públicos em infraestrutura, moradia, agricultura familiar, viabilização de benefícios sociais e muitos outros. Importantes ferramentas de, veja só, poder popular. Ou ao menos deveriam ser.

Ontem (13/12/2016), dia que o Congresso Nacional aprovou definitivamente a famigerada PEC 55 do Fim do Mundo, que congela o investimento público e gastos dos governos por 20 anos, sem dó nem piedade, e já anunciaram a promulgação para esta quinta-feira (15/12/2016), estive numa outra manifestação contra essa Proposta da Emenda à Constituição Cidadã de 1988. E lá estavam poucas pessoas, se compararmos com a dimensão dos retrocessos. E essas algumas dezenas de pessoas, talvez 200, eram em sua maioria estudantes, secundaristas e universitários, de instituições públicas (conforme descrito em mochilas e uniformes), sem lideranças aparentes, sem vinculação ou identificação com movimentos sociais organizados já firmados como referência das lutas populares. O ato foi convocado via fanpage do movimento denominado CWB contra Temer.

Não vi lá as Frentes Brasil Popular, Povo Sem Medo. Nem os Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, dos Atingidos por Barragens, dos Trabalhadores Sem Teto. Também somente representação de dois sindicatos de categorias de trabalhadores podiam ser aparentemente identificadas. Não vi bandeiras de centrais sindicais. Os estudantes pareciam à deriva, largados à própria sorte com apenas um megafone porcas bandeiras de luta. Sei que muitas representações se fizeram presentes em Brasília, de onde chegaram notícias de repressão policial e do não acesso aos prédios de lá, que por organicidade deveriam ser públicos, as casas do povo. Sei também de atos organizados em São Paulo, Minas Gerais. Mas em Curitiba, senti uma profunda tristeza.

Na última segunda-feira (12/12/2016), presenciei a união de representantes sindicais e dos movimentos sociais num ato político em evento de organização do Movimento dos Atingidos por Barragens. E lá ouvi algumas verdades que se aplicam ao conturbado momento político e econômico que vivemos, entre elas que “se os sindicatos de trabalhadores fossem tão organizados quanto o MAB e o MST”, talvez tivéssemos conseguido barrar o golpe e, se houvesse golpe, talvez conseguíssemos barrar os retrocessos, disse José Oliveira, dirigente do Sintracon e da CUT Paraná. E esses retrocessos são a PEC do Fim do Mundo, a Reforma da Previdência, que interessa somente aos planos de previdência complementar particulares (sob responsabilidade, olha só, das instituições financeiras), a MP do Ensino Médio, que continua tramitando em ritmo acelerado na Câmara Federal enquanto o Senado pega fogo com as definições orçamentárias de Michel Temer.

O que estamos vendo na base e nas ruas é a conjuntura do caos. Uma alusão sem qualquer referencial ao significado teórico, mas sim da expressão. Todos querem barrar os retrocessos, mas não se observa uma articulação unitária de mobilização. E as mobilizações desenfreadas e sem lideranças, que não estou aqui para desvalorizar as iniciativas, cometem equívocos, como colocar um banco público no mesmo balaio de banco privado. Estudantes que lutam pela escola pública de qualidade, pelo acesso universal à saúde e aos benefícios sociais, não reconhecem um banco público como uma instituição do mesmo patamar de fomento de poder popular.

E lá, no topo da pirâmide, ao contrário, presenciamos uma profunda organização e unicidade dos políticos, para que todas as medidas impopulares passem como um trator e nos suprimam como insignificantes que somos nesse governo provisório e ilegítimo.

É preciso ter a consciência de defesa de banco público, que proporcione juros acessíveis para a concessão de crédito, que fomente a retomada da economia com medidas anticíclicas, em benefício de toda a população, na contramão do que estamos vendo hoje. Para que as fotos que sejam compartilhadas pelos movimentos populares possam ser sim de pichações de fachadas de bancos, mas dos bancos privados, e também de vidros quebrados, manifestações com sua legitimidade, pois passam um recado muito claro: que como está, não pode ficar.

Eu não consigo imaginar o rumo que o país irá tomar até as eleições de 2018. E quando digo isso, muitos me dizem “se houver eleição em 2018”. Eu nem citei aqui o poder judiciário, pois o leque de elementos do golpe é muito maior do que possamos sintetizar. Mas é preciso, além da indispensável atitude que vemos em todos os atos de rua, todos legítimos, organização e união. Pois as elites, os 10% mais ricos, estão alinhados a ferro e fogo com nosso Congresso Nacional. Que 2017 nos renove a disposição para a luta organizada. E formação de base para esses jovens que estão carregando a militância nas costas.

 

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