A desigualdade como fator de risco

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

Letalidade da COVID-19 aumenta com a exclusão social, o desmonte das políticas públicas e a redução do estado brasileiro.

por Thea Tavares/Terra Sem Males | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Públicas

Dizer isso parece chover no molhado, mas é sempre importante repetir e repetir: a desigualdade social é, sem dúvida, o maior fator de risco para a COVID-19, assim como sempre foi para todas as enfermidades, mazelas e males existentes na nossa sociedade, a exemplo do que acontece com a dengue, malária, com as doenças potencializadas pela aglomeração nos espaços urbanos ou pela falta de saneamento básico e aquelas causadas pela desnutrição. A pandemia do novo coronavírus só vem escancarar essa realidade muitas vezes desapercebida ou negligenciada. É que em vez de jogar para debaixo do tapete, ela exibe o problema em vala comum, a céu aberto, como mostram as imagens que nos chegam do estado do Amazonas ou como vimos os noticiários contarem sobre a realidade em Guayaquil, epicentro da pandemia no Equador.

Historicamente, a população pobre, moradora das periferias das grandes cidades ou das distantes comunidades do interior, é que sempre pagou, inclusive por uma dificuldade maior de acesso a serviços públicos e por falta de garantia de direitos, o preço mais alto das crises de saúde, ambiental, econômica e social do sistema capitalista, o que não é diferente, agora, nessa pandemia. A classe trabalhadora é que tem assumido a maior parcela de prejuízos e dos riscos relacionados à situação inédita que estamos enfrentando, amontoada no transporte coletivo para não morrer de fome ou perder sua pequena fonte de renda. É ela quem tem sustentado dessa forma o pouco de funcionamento da sociedade que ainda resta em meio às necessárias restrições à circulação de pessoas e medidas adotadas para conter o avanço desenfreado na propagação da COVID-19. Isso sem a segurança de que poderá contar com a proteção necessária, com as informações e o adequado atendimento por parte dos poderes públicos e das estruturas existentes, que variam de localidade para localidade. 

Em palestra recente, durante uma videoconferência, o professor e atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Jelson Oliveira, abordou essa temática ao discutir o papel e o princípio da responsabilidade da tecnologia e da produção científica no mundo diante das dívidas social e ambiental que a COVID-19 evidencia. “Todos nós, formadores de opinião e cientistas, somos convidados a agir com responsabilidade, ainda mais em um momento como esse”, disse e chamou a atenção para a exclusão social que amplifica o drama das famílias pobres e das famílias de trabalhadores. “Nada foi feito para preparar a sociedade para enfrentar essa situação inédita, embora já tivesse sido prevista por vários especialistas”, problematizou Jelson.

Endereço da morte

Há menos de duas semanas, uma reportagem do portal UOL destacou justamente o fato de que a classe social, em vez da idade, é que passa a definir quem morre da COVID-19 na capital do Estado de São Paulo. Segundo a reportagem, o bairro com mais mortes pelo novo coronavírus na cidade é Brasilândia (tinha 67 óbitos até aquele momento): quase dez vezes mais do que no Morumbi, zona nobre, que somava 7 mortes, mesmo tendo, até então, 332 casos registrados entre seus moradores. 

A ONG Rede Nossa São Paulo, citada na matéria, aponta “o endereço” como fator de risco e usa o termo na forma de metáfora para chamar a atenção para a influência nesses números de variáveis básicas, como condições dignas de habitação, de saneamento, de alimentação adequada, poder aquisitivo que permita adquirir produtos essenciais de higiene e de proteção individual e o fator aglomeração, além da concentração de leitos hospitalares e a maior dificuldade de acesso a eles pelas populações periféricas. Dois fatos são esclarecedores com relação à letalidade da desigualdade social: o primeiro, dá conta de que, por meio de levantamento feito pela ONG, aumentaram em 45% as mortes nos 20 distritos paulistanos mais pobres. O segundo, dialoga com o perfil do grupo de risco obtido pela análise do mapeamento que se faz da doença apenas com base no aspecto clínico, ou seja, que aponta idosos e pacientes portadores de doenças crônicas como aqueles com mais chance de terem seu quadro agravado em caso de contaminação. Isso só vale até o momento em que as condicionantes sociais entram em ação.

Na mesma cidade de São Paulo, por essa abordagem, a idade ou as doenças pré-existentes não têm o mesmo peso que o endereço ou as condições de vida. Enquanto 90,4% das mortes de moradores dos bairros mais nobres são de pessoas com mais de 60 anos, o risco de morrer da COVID-19 é dez vezes maior entre pessoas de 40 a 44 anos, dependendo de onde elas vivem. Um artigo assinado por integrantes do Centro de Apoio Operacional (CAOP) das Promotorias de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos do Ministério Público do Paraná (MPPR), publicado nesta semana, vai na mesma linha argumentativa e acrescenta a “cor da pele”, ou seja, o racismo estrutural como outro agravante da pandemia do novo coronavírus: de acordo com dados apontados pelo Observatório Covid-19 e município de São Paulo, pretos paulistanos têm 62% mais chances de morrerem pela COVID-19 do que brancos paulistanos. Os pardos, 23% a mais.

Em Curitiba, a Prefeitura Municipal emitiu recentemente um boletim com a distribuição dos casos confirmados pelas áreas de abrangência das administrações regionais da cidade. Mas a diversidade de condições e de realidades dentro de uma única regional é vasta e não permite uma análise imediata. A RPC TV, emissora afiliada da Rede Globo no Paraná, por meio da lei de acesso à informação, obteve os números da distribuição dos casos confirmados da COVID-19 pelos 75 bairros da capital paranaense. No topo dessa lista, está a Cidade Industrial de Curitiba (CIC), com 34 casos confirmados, seguida do Xaxim (33), do Centro (31), do Água Verde (29), do Batel (24) e do Bigorrilho (24). A Secretaria Municipal de Saúde relativiza qualquer análise apressada desse levantamento, lembrando que “as pessoas circulam” e que o fato de haver mais casos em uma localidade não dá a pista do perigo, pois a região em que a pessoa mora não quer dizer que foi onde se contaminou ou nem que ela circule só por ali. Mas mesmo que “as pessoas circulem” – frase que em si já seria inapropriada de se ouvir, saindo da boca da autoridade sanitária maior do município, uma vez que é papel do poder público assegurar condições para elas não “circularem” tanto assim -, as condições de circulação também são muito distintas entre moradores da CIC e do Batel, do Xaxim e do Bigorrilho ou mesmo do Água Verde. O que só reforça a necessidade de um retrato mais fidedigno dessa realidade toda. Sem isso (e a vontade de fazê-lo), não se tem planejamento adequado, ação eficaz e política pública inclusiva e garantidora de direitos.

Esse quadro só confirma o fato de que a letalidade da COVID-19 é diretamente proporcional à exclusão social, ao desmonte das políticas públicas e à redução do estado brasileiro, que nos trouxeram a essa condição atual de abandono e de despreparo para o enfrentamento da doença, agravada aqui pelo fator de risco da desigualdade social. Diante desse contexto é também que o coordenador do programa de pós em Filosofia da PUC-PR, professor Jelson Oliveira, lembrou as palavras do Papa Francisco, quando refletiu sobre a desigualdade e definiu a indiferença egoísta como um vírus ainda pior que o causador da COVID-19. Jelson reforça o convite à comunidade científica e acadêmica para terem toda calma nessa hora de assumir com responsabilidade o papel que cabe à tecnologia e às ciências desempenharem. “Não podemos também nesse momento em que as esperanças da sociedade estão depositadas na ciência e na tecnologia atropelar processos, se apressar em dar respostas ou passar por cima de critérios do bem comum”, disse. “Por ser justamente tão delicado e inédito o momento, é que precisamos prever responsavelmente as consequências das nossas ações. Diante dos riscos que representam a pressa nessa resposta, da necessidade de incluir e não alimentar mecanismos de exclusão e da própria importância da descoberta”, concluiu.

Até lá, vamos aos poucos aprendendo a conviver com essa situação, a fazer readequações e muita avaliação comportamental, sem tirar um olho do gato e o outro do peixe, o que significa cobrar a responsabilidade institucional do estado em ambiente democrático e fiscalizar as ações dos poderes públicos na proteção, amparo e garantia de direitos. Até lá, nos resta também se importar com o outro, com a coletividade e sermos melhores do que fomos até o presente momento.

Clique aqui para ler sobre PAPO RETO.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *