A distribuição do jornal e tentativas de diálogo

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Por Pedro Carrano

Na semana passada, entreguei jornais Brasil de Fato, número especial sobre privatizações, na esquina da Pedro Ivo com a Lourenço Pinto, no centro de Curitiba.
– Brasil de Fato especial?
– Não.
– Não, obrigado
– Não, valeu.
– Sim.
– Sim.
– Não.
– Sim.
Vem a onda de gente saída dos ônibus. Estou falando com trabalhadores, justamente os que mais entravam no debate naquela manhã.
– Gratuito?
– Sim.
– Tem que acabar com essa merda.
– Que merda?
– Essa merda de jornal.
– Bolsonarista, né?
– Com orgulho.
– E o que o Bolsonaro fez de bom pra você até agora?
– É que…
– Uma medida… apenas uma.
– Tem que ter tempo…
– Uma medida, amigo. Me diga um projeto, um benefício para você.
– Estou empregado.
– Doze milhões de desempregados. Cinco milhões já nem saem de casa atrás de emprego. Milhares de pessoas sem carteira. Como assim?
– Depois de tanta corrupção…
O tom engrossa. O clima fica tenso. O sujeito e eu falamos alto na praça. Ele busca reunir uma pequena tropa de bolsonaristas para conseguir público para as suas questões.
– Ele acabou com esse monte de corrupto.
– O governo Bolsonaro não tem corrupção? E o que ele fez em 28 nos como parlamentar? Cadê o Queiroz?
O clima acalma. Sigo distribuindo. Brasil de Fato Especial, todo apoio à greve dos petroleiros, petroquímicos, trabalhadores da Casa da Moeda, Serpro e nossa informação pública, EBC, Correios, o governo Bolsonaro já se livrou de 70 empresas em 2019 e quer se livrar de mais 300 empresas públicas, setores e ativos em 2020.
– Tem que privatizar mesmo.
– E por que isso vai ser bom?
– Recurso que entra.
– 1000 trabalhadores demitidos da Fafen do setor de fertilizantes? Já foram mais de 170 mil no sistema Petrobras. País bom é país sem trabalho? Sem medida pra garantir empregos?
– Onde está escrito isso?
– Leia aqui, neste jornal ó, toma.


– Brasil de Fato Paraná? Edição especial.
– Sim.
– Não.
– Não.
– Sim.
– Sim.
– Sim.
– Quero.
– Quero sim.
Pessoas que recebem o jornal devido à bandeira do Brasil, mas logo percebem que o tema é crítico ao governo. O que emociona é quando alguém está parado ao meu lado e pede os seus dois ou três exemplares. “Para os colegas de trabalho”. Já nos conhecem pela marca.
Outros sequer nos olham. Olho no vidro do celular. Outros recebem em solidariedade a quem entrega debaixo de sol. Guardam distraidamente o material.
Um jornal rasgado voa até mim.
Outros passam e não ficam. Não param para debater. Apenas xingam, bem ao gosto do bolsonarismo, que se prepara para uma tentativa de golpe no dia 15 de março.
– É jornal do PT!
Uma trabalhadora recebe o jornal com gosto, pisca os olhos, olhar cúmplice.
– É isso mesmo. Não dá mais. Tem toda a razão.
– Jornal Brasil de Fato Paraná pessoal, direito do trabalhador em primeiro lugar.
Seguimos distribuindo. Os jornais de certa forma esgotam rápido. César distribuiu na Santos Andrade mais de 1000 em cerca de uma hora.

Mudar a ordem das coisas é exercício de persistência. Marcar espaço, virar referência. Questionar os que vivem da desinformação e dos gritos.

Nossa honrosa equipe de distribuição faz isso toda a semana.

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