A fúria do messias, por Pedro Carrano

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Eu já estava quase chegando em casa, depois de uma viagem longa que começou lá no Tietê, em São Paulo, aportaria na rodoviária de Curitiba e se estenderia pelo ônibus biarticulado Santa Cândida – Capão Raso, em um final de segunda-feira ao sol. O clima, pra mim, era também de retorno das férias, indo na contramão da maioria das pessoas.

No fluxo de passageiros, alto naquele fim de tarde, ambulantes, jovens cantores e também pedintes surgiam e desapareciam a cada estação. Não só ali, mas era visível desde São Paulo a intensidade de formas que as pessoas encontram pra viver e se virar. Foi quando um dos vendedores tratou de usar talvez uma das melhores metodologias, que é a de distribuir o produto primeiro e depois se apresentar.

Sotaque carioca, vindo de uma comunidade de tratamento, o amigo, por um real, vendia um livreto de histórias bíblicas, com cores fortes e desenho com traço infantil.

Rapidamente, porém, um senhor do meu lado tomou a cartilha da minha mão e praguejou contra aquele abuso, aquela propaganda petista mal disfarçada, segundo ele.

O fascículo de Adão e Eva que caiu no meu colo trazia o casal fundante da humanidade totalmente nu, uma folhinha verde cobrindo as ditas vergonhas, e os dois corpos praticamente juntos. Aquela “ideologia de gênero”, se justificava pro velho também no fato de que o traçado de Adão e Eva não definia direito quem era quem. Revoltado, ele se disse major reformado do exército e passou a insuflar o ônibus contra o vendedor ambulante. A maioria dos passageiros assistiu pasma àquela cena, o próprio vendedor demorou pra entender qual era o problema. A maioria na verdade mastigava uma indiferença gritante, presos na tela do celular, deixando aquela cena apenas pro núcleo de pessoas que estava no fundo do busão.

O vendedor, confuso, tentou amenizar a situação agarrado nas leis do mercado:

– Mas, moço, é só um real! Ele explicou que não tinha nada a ver, que precisava vender e trabalhar pro sustento e pra deixar o vício.

– E vai sair do vício desse jeito? Nada convencia o sujeito raivoso, que conseguiu ao menos arrebanhar algumas pessoas revoltadas pro seu lado. Seus argumentos automáticos, quase um condicionamento canino à Pavlov, chegaram a nos metralhar, fazendo pontes com a Coreia do Norte, prisão do Lula, Cuba, Venezuela, tudo isso se sintetizava naquela imagem brasileira e ingênua de Adão e Eva nus, que agora ganhava ar de conspiração – e nada nos ajudava a criar um antimíssil contra aquela bateria de chavões e tópicos de senso comum disparados contra nós.

O tom era tão alheio à nossa brasilidade, e mais próximo do puritanismo gringo, que ao menos algumas pessoas davam risada daquela situação. Relaxa, é carnaval! Alguém poderia intervir, mas faltou coragem a vários de nós. Outros filmavam, talvez na esperança de que o vídeo viralizasse.

Tentei interceder, explicar pelo lado trabalhista o que ninguém está interessado em escutar, falar da necessidade daquele bom moço frequentador de comunidade terapêutica, mas não teve jeito, tivemos que deixar o ônibus antes que o caldo engrossasse. Os seguidores do novo messias do coletivo já estavam nos ameaçando ou no mínimo olhando feio.

O ônibus enchia de gente, faltava condição e até espaço físico pra qualquer debate sereno e o vendedor desceu. Desci junto, em solidariedade, e porque não havia muita condição de permanecer depois das discussões com os cruzados daquela causa mal explicada. Ameaçaram até chamar a guarda municipal.

Descendo, eu e o vendedor, cada um iria pro seu canto, e não parecia ter muito espaço e contexto pra apresentações. Ele apenas agradeceu meu empenho na defesa, e mostrava que a vida tinha que continuar rápida no giro do próximo ônibus.

Mas não deixou de pedir, aproveitando a empatia gerada:

– E agora vê se me descola um real, chefe. Tu não me defendeu só nos holofotes, né? Eu preciso viver!

Por Pedro Carrano
Terra Sem Males, Mate, Café e Letras – crônicas latinoamericanas

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