A polêmica sobre a “grana curta” e os gastos extras da viagem de férias

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Vamos aos perrengues de uma viagem programada, mas com programação alternativa, livre e sujeita a alterações

Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

Viajar a lazer, para turistar e andar de avião era um sonho antigo e inalcançável, mesmo eu sendo uma funcionária celetista que viveu os 12 anos de crescimento da classe trabalhadora no Brasil. Andei de avião pela primeira vez aos 28 anos. A trabalho. Até então, meu auge na profissão-jornalista foi o recebimento do piso salarial da categoria depois de um começo de carreira sem essa garantia, mesmo sendo jornalista formada-diplomada com colação em 2004.

Nunca fui desprovida de recursos básicos, ao contrário, meus pais sempre me deram acesso a tudo, inclusive ao lazer, mas de uma forma diferente. Conheço bem pouco do Brasil (e o que conheço é das viagens que fiz a trabalho, com raras exceções), porque meu rumo sempre foi curitiba-litoral-curitiba e tudo bem. E tanto que, ao escolher um destino para essa coceira de preciso-viajar-com-minha-filha-de-avião optei pelo Rio de Janeiro, lugar que estive especificamente para cursos de formação vinculados ao meu trabalho em duas oportunidades: nos anos de 2011 e 2015.

PLANEJANDO A VIAGEM

Minha primeira intenção era desembarcar direto numa espreguiçadeira estirada numa praia nordestina, qualquer uma, mesmo tendo fetiches por Fortaleza e Maceió, e torrar no sol-e-mar pelo tempo que durasse a estadia. Mas fiz cotações desde o mês de agosto e, veja só, inviável, de verdade. Ao menos na alta temporada. Somos um casal e uma criança de 4 anos e os custos são de três passagens aéreas ida e volta mais a estadia num hotel (quesito sorte-azar se você não se garante com uma agência de viagens e paga – justissimamente – por isso). Mas eu não podia dispor de cinco, sete mil reais só pra ser feliz na semana do ano novo (e só pagando passagem aérea e estadia).

Pois em setembro, final de expediente, 20 minutos pra ir pra casa, quando eu já nem vislumbrava mais um plano de viagem, uma amiga deu a dica de promoção de passagem aérea. Tinha para poucos destinos partindo de Curitiba mas eu li lá Rio de Janeiro e nem lembro mais das outras opções. Pois a média para três idas e três voltas dava R$ 144 cada passagem. Considerei acessível. Tinha que ficar lá oito dias. Antes de ir direto no site da companhia aérea passar o cartão de crédito, busquei informações sobre o hotel que eu já havia me hospedado no Rio, localizado na Cinelândia. Mas não havia mais reserva disponível. Como considerei o acesso e uso do metrô muito fácil por lá, pensei que seria uma boa procurar um hotel no centro (acreditando que era um ao lado do outro, mas chegando lá haviam três estações de metrô de distância).

E peguei na sorte-azar do mundo virtual o primeiro hotel que apareceu. Li uns comentários e avaliações na internet (nunca tinha feito isso na vida, mas tava rolando adrenalina no sangue) e informei e notifiquei o Joka: vamos passar o ano novo no Rio de Janeiro e você tem dez minutos pra me dizer pra não fazer isso. Antes desse prazo acabar eu comprei as passagens e reservei o hotel. As diárias para o casal davam R$ 110 por pessoa e minha filha não pagava. Me pareceu acessível financeiramente.

E todos os meses que sucederam quase que não falamos mais no assunto, que foi retomado somente em dezembro, com tudo isso aí quase já quitado. Nesse meio tempo, já pensei em garantir as refeições no VR, fui juntando saldo. Na minha cabeça, teria que garantir mais a graninha do metrô. Nem me passou pela cabeça que todos os passeios seriam com valores tecnicamente caros, para turista pagar. Porque se você é morador, provavelmente não se dá a esse luxo. Mas esboçamos uma programação de locais que gostaríamos de conhecer. E foram esses passeios que foram além do orçamento (tudo que gastamos pode ser conferido aqui). Na prática, a gente tinha em mãos R$ 900 para gastar lá, valor destinado ao transporte/água/alimentação, mais o VR e alguns gastos no débito/crédito, essencialmente alimentação e os passeios. Chegou um momento que ainda faltavam algumas diárias no Rio e eu só pensava “ferrou, vai faltar grana pra pagar as contas da rotina”.

PERRENGUES IMPREVISÍVEIS

Chegamos no hotel e a localização “centro” não parecia plausível. Estávamos ao lado do porto. Com funcionários atenciosíssimos em todo o tempo que lá permanecemos, nos deixaram fazer o check in de manhã (é previsto às 14h, mas nosso voo chegou lá pelas 9h no Rio), mas no quarto não havia lugar para a Carol. Era minúsculo e não cabia mais que uma pequena cama de casal (e bem caidinho também). Com uma ligação esclareci que a reserva previa uma cama adicional, mesmo que grátis, que estaria contemplada. E nos colocaram no quarto adequado.

O hotel era, de fato, mais popular. As refeições mais baratas que fizemos no Rio foram os jantares de lá. Recebi críticas sobre minha avaliação de “grana curta” para passar ano novo no Rio, porque de fato não foi pouco o que gastamos se considerarmos nosso padrão de vida em Curitiba, mais modesto, mas relativamente, se compararmos com os valores que gastamos na capital do Paraná quando nos damos o luxo de jantar fora, dá no mesmo. Aliás, em Curitiba a média de gasto numa refeição numa churrascaria ou restaurante para o jantar é de R$ 150 o casal. No Rio era R$ 100. O problema é que a gente tinha que bancar duas refeições por dia e não tinha outro jeito. No final das contas, o gasto maior de turistar no Rio foi com comida. Fato.

Mas fomos beneficiados de diversas maneiras estando hospedados neste hotel: a primeira delas é o acesso fácil aos meios de transporte que nos levaram aos locais mais distantes. A segunda é que fizemos o passeio a Angra dos Reis com os bacanas, os turistas hospedados em Copacabana, maioria estrangeiros, e ainda pagamos um valor menor. Descobri isso porque quando fui acertar o pagamento, a moça da agência não sabia ao certo o valor que eu havia combinado no hotel.

ANGRA DOS REIS

Joka me cobrou um texto mais adequado a tudo de bonito que vimos por lá. Não estendi por motivos de:

Sim, fiquei o trajeto todo de barco impressionadíssima com  a paisagem. Angra era mais um paraíso tropical inacessível na minha memória afetiva ou pretensão para turistar. Mas fomos buscados no hotel do centro por uma van. Nos levaram até um ônibus estacionado em Copacabana. Aguardamos os demais passageiros nível-com-grana daquele bairro. E fomos tratados da mesma forma, inclusive nos confundiram com um “buenos días” por Joka ser Joaquín.

O trajeto pela Rio-Santos é sensacional. Muriqui, Mangaratiba, gente que lindo. A parte feia são os-piores-banheiros-de-toda-a-viagem. Não vá nunca no banheiro do barco nem da parada do bus. Mas tem que né. Angra tem águas marinhas verdes-cristalinas. O barco tem música alta que não curtimos e caipirinha ruim (aliás, não provei uma caipirinha boa no ridijaneiro). Mas nada, nada mesmo é motivo para um segundo de arrependimento.

Paramos em quatro ocasiões: duas para mergulho sem pé, duas em praias. Eu fiquei triste nas praias. Muito lixo na água. Dó de tanto barco atracado trazendo turistas deslumbrados. Mas é sim um deslumbramento só. Curti muito os mergulhos, eu que sou respeitosa (cabreira) com o mar. A gente não ia pular, ia esperar o banho de mar na praia. Mas Carolina-4 anos – insistiu. Melhor sensação.

Vá ao Rio, vá a Angra, vá a Paquetá, vá à Lagoa. Se der a sorte que a gente não teve, vá ao Jardim Botânico. E depois me conte. Além de Angra, oferecer passeios a Petrópolis, Cabo Frio, Arraial do Cabo. Para passar o dia. Vá. Escolha um desses locais. É muito bom.

Eu sempre gostei muito do Rio, eu tenho até vontade de morar lá. É um encantamento. E eu conheci também as áreas não tão prestigiadas pela high-society, dessa e das outras vezes que estive. Subi o morro, o do Cristo e o Santa Marta. Nas areias das praias, ninguém é rico, ninguém é pobre, somos todos relativamente iguais. A melhor sensação de todas, ocupar as areias e o mar. Passar o ano novo em Copacabana. Ali o direito, naquela hora, na virada do ano, foi de todos.

 

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