“A Reforma da Previdência quer acabar com o principio da solidariedade no Brasil”

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“A Reforma da Previdência quer acabar com o princípio da solidariedade no Brasil”. A análise é da ex-vice-prefeita de Curitiba e diretora geral do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora (Declatra), Mirian Gonçalves. Ela participou nesta quarta-feira (20) do Seminário “A reforma da previdência e os impactos na classe trabalhadora” promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Curitiba (Sintracon).

Para Mirian, a solidariedade é um princípio que se tornou constitucional a partir de 1988, e é fundamental para a própria democracia. A proposta apresentada pelo governo (PEC06/19) fere diretamente a Constituição quando modifica o regime de contribuição, passando de repartição para capitalização.

“Estão apostando no individualismo das pessoas, induzindo-as a acreditar que por si só poderão garantir seu futuro e que o mercado oferecerá melhores oportunidades de investimento e gestão dos fundos previdenciários. É um discurso fácil e mentiroso. Se for instituído, não haverá mais contribuição do governo ou dos empregadores para o fundo previdenciário e o trabalhador e a trabalhadora passarão a depender exclusivamente dos recolhimentos que fizer. Não haverá mais conta única, apenas individualizada”, apontou a diretora geral do Instituto Declara.

Ainda de de acordo com ela, a experiência de muitos países que optaram por esse modelo e que agora estão procurando voltar ao antigo, foi de enorme empobrecimento da população idosa, com um número expressivo vivendo em condições de miserabilidade.

“As propagadas vantagens não aconteceram. Ao contrário do que se supunha, poucos foram os agentes financeiros que terminaram por administrar os fundos de previdência, a maioria ligada a bancos e seguradoras. A proposta atingirá de forma mais drástica a população de mais baixa renda e beneficiará o capital financeiro e seus agentes interessados nessa poupança da classe trabalhadora, sem garantias de seus benefícios”, completou.

Mulheres – A diretora geral do Instituto Declatra ainda fez a defesa da aposentadoria diferenciada quanto à idade para as mulheres. A dupla jornada é uma das razões para tanto. Ela citou dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) contínua, de 2018, atestando que as mulheres que têm atividade produtiva, dedicavam em média 17.3 horas para realização de afazeres domésticos enquanto homens 8.5 horas. “Mesmo ambos trabalhando fora, as mulheres trabalharam em casa o dobro do que os homens” argumentou.

Mirian também citou outros dados como a participação desigual no mercado de trabalho. Nessa mesma pesquisa constatou-se que 71,5% estavam incluídos no mercado de trabalho contra 52,7% de mulheres. As mulheres em atividade estavam em ocupações que se caracterizavam como a extensão do trabalho doméstico e menos valorizadas socialmente, com salários mais baixos. A remuneração dos homens era 28,8% superior a das mulheres, em média, podendo ser ampliada para 67,3% em áreas de educação, saúde e serviços sociais. Também entre as mulheres, as brancas recebiam 70,5% a mais do que as mulheres negras e 67,3% que as mulheres pardas.

A menor taxa de ocupação, a remuneração mais baixa e a desigualdade social, acabam por reduzir os valores de benefícios, ainda assim terão aumentada em dois anos a idade mínima para aposentadoria que passará de 60 para 62 anos.

Além de Mirian Gonçalves também participaram do seminário o professor e diretor científico-adjunto do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário, Marco Aurélio Serau Júnior e os advogados e professores Ludimar Rafanhim e Sandro Lunard Nicoladeli.

Regras de transição e transitórias – Serau Júnior explicou a diferença entre as regras de transição e regras transitórias. “A primeira diz respeito a quem está no meio do caminho enquanto a outra prepara terreno para uma nova previdência, o mesmo vale para a iniciativa privada quanto o setor público. Contudo, não vejo a PEC como um cheque em branco ao legislador. As regras do projeto valerão até que venha uma nova reforma, por meio de uma lei complementar, que é de iniciativa do executivo. Ou seja, uma vez aprovado, valerá até quando interessar ao Presidente da República”, explicou.

O professor também listou algumas retrocessos que estão no projeto de reforma da previdência. No caso da pensão por morte ela terá uma quota familiar que será de 50% para a família e 10% para cada dependente. “Em muitos casos é possível que esse valor seja inferior ao salário mínimo, uma crueldade muito grande”, afirmou. De acordo com ele, no caso de aposentadorias especiais, as regras também mudarão, tendo idade mínima para cada uma das faixas. “A aposentadoria especial com 25 anos de trabalho terá uma idade mínima de 60 anos”, exemplificou.

Projeto de estado – Ludimar Rafanhim bateu na tecla do exemplo chileno, País que adotou modelo semelhante ao brasileiro e hoje rediscute o seus sistema de previdência.

Rafanhim também disse que a Reforma da Previdência é um dos passos para a implementação do estado mínimo no Brasil. “É o desmonte do estado, como no consenso de Washington. Temos a Reforma da Previdência, o desmonte dos sindicatos por meio da MP 873, justamente, para dificultar a resistência e mais do que isso: esse conjunto faz parte do ajuste fiscal do governo a custa da retirada de direitos dos trabalhadores. Por que não discutem isenções de contribuição, a sonegação, a carga tributária de lucros e dividendos que não são tributados?”, questionou.

O advogado Sandro Lunard Nicoladeli avalia que a Reforma da Previdência, da forma como apresentada reflete um projeto de sociedade que o Brasil “tomou para si” durante as eleições. “Este projeto já está em crise porque a lógica econômica que orienta esse governo promove a desigualdade social e que por consequência aumentará a pobreza e não dignifica a vida dos trabalhadores e aqueles que constroem a riqueza desse país”, afirmou.

Ele também criticou a ausência de debates com a sociedade. ” A discussão ficará restrita ao parlamento, obedecendo requisitos formais. Não haverá qualquer espaço mais dinâmico, inclusivo, da sociedade no debate destas questões. Para mim o grande enigma que vai determinar o sucesso ou não do governo do Bolsonaro é se ele vai reunir condições políticas necessárias para ter base parlamentar que lhe dê a maioria constitucional”, completou.

Cobrança e mobilização – O diretor da CUT e do Sintracon, José de Oliveira Lima, cobrou participação das entidades sindicais na mobilização contra a Reforma da Previdência. Segundo ele, é preciso que os sindicatos mobilizem suas bases, visitem os locais de trabalho e discutam diretamente com os trabalhadores todos os retrocessos que a reforma representará.

A presidenta da CUT Paraná, Regina Cruz, falou sobre a mobilização nacional que acontece nesta sexta-feira (22) contra a Reforma da Previdência. Em Curitiba, a manifestação acontecerá às 9h com concentração na Boca Maldita. “Sabemos que para construir uma greve geral como construímos no dia 28 de abril e estancamos a reforma do Temer, não precisamos de grandes atos, mas sim ir nas bases. Nossos sindicatos precisam dialogar com os trabalhadores. Neste dia 22 nossos sindicatos farão algum tipo de paralisação, mas tudo vai depender da base social. Por isso é importante o diálogo, fazer o debater para que as pessoas tenham conhecimento do que significa essa reforma”, analisou.

Fonte: Instituto Declatra

Foto: Gibran Mendes

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