A um juiz desconhecido

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Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

A medida chegou pra todo mundo, mas a primeira a saber foi a Dora. Ainda na dúvida, ela bateu lá em casa e me entregou o documento que chegou pelo correio. Era um documento emitido por um juiz de uma cidade desconhecida, no estado em outra parte do país. Ao que parece, era longe. Depois percebemos que eu também recebi o documento na minha caixa de correio, assim como todo mundo na nossa cidade.

O texto foi claro. Mas não entendemos totalmente. De acordo com o que lemos, todas as casas do bairro passariam por um mandado de busca e apreensão. O objetivo do tal juiz era encontrar algum sinal do envolvimento de cada um de nós no entesouramento de moedas. Moedas novas para o ônibus. Moedas antigas que restaram de antigos planos cruzados. Moedas de economia do final do mês. Moedas de coleção. Ele não especificou. Algo assim. Não sabemos ao certo. Tudo se tornara suspeito de alguma coisa, que tampouco sabemos bem o quê.

Durante a busca, realizada já dentro de algumas casas, quem pronunciasse a palavra “desrespeito!” sobre o caso receberia um pequeno choque elétrico, seguido de exposição vexatória.

Nós nos apavoramos com a situação. Chegou o boato de que alguns chefes de família, antes mesmo da entrada dos agentes da justiça, já trataram de se delatar a si mesmos, confessar a culpa e até se castigar. Muitos se entregaram antes de a ordem do juiz chegar até a casa deles.

Revoltados com a situação, debatemos no bairro a chance de enviar uma carta ao juiz autor dos tais mandados. Redigimos o documento, falamos de nossas vidas e nossos filhos, do nosso orgulho e do nosso trabalho correto. Coisas assim. O problema não foi esse. O problema na real foi: mas, pra onde exatamente a gente deveria remeter essa carta? E pra quem, necessariamente, a gente deveria se reportar?

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