Águas Para Vida: Em Altamira, para cada cabeça, uma sentença

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

Promessas que envolvem a construção de Belo Monte não cumprem seu papel.

Barragem de Belo Monte sendo construída. Visão a partir do rio Xingu. Foto: Joka Madruga

A população de Altamira, município considerado o maior do mundo em extensão territorial, com mais de 600 mil hectares de área, teve um súbito crescimento populacional de 89 mil para 140 mil pessoas, de acordo com estimativas extra oficiais da Prefeitura.

E a miscigenação de povos, com ribeirinhos, pescadores, indígenas, mineradores, extrativistas, camponeses e população urbana é caracterizada por mais um fardo para os atingidos pela barragem: para cada cabeça, uma sentença por parte da Norte Energia, empresa que administra a construção da Usina de Belo Monte.

Enquanto falta infraestrutura básica para a área da educação, saneamento, urbanização, acesso a serviços públicos, sobra verba para afastar as comunidades indígenas de suas raízes. Enquanto esteve em Altamira e comunidades arredores à construção de Belo Monte, o repórter fotográfico Joka Madruga entrevistou diversas lideranças para apurar, entre os atingidos, mais essa face: o que pensam essas pessoas?

Juventude de Altamira está abandonada

Jéssica, uma das lideranças juvenis de Altamira. Foto: Joka Madruga

O município de Altamira (PA) tem diversos problemas de infraestrutura, que foram acentuados com o aumento expressivo da população pela construção da Usina de Belo Monte. Mas possui uma característica bem específica com relação à juventude: a falta de investimentos – pior – o abandono na área da educação.

De acordo com Jessica Feiteiro Portugal, uma jovem militante da coordenação da Pastoral da Juventude da Prelazia do Xingu, além da falta de vagas nas escolas de Altamira, na universidade estadual (UEPA) não tem infraestrutura de laboratórios nem professores, o ensino médio está abandonado (as escolas estão em prédios cedidos), o ensino técnico não promove a capacitação. “Faltam oportunidades para a juventude nos municípios vizinhos, a juventude vem para Altamira e é uma disputa porque as escolas estão fechando”, contextualiza.

Jovens pedem um plebiscito da Constituinte oficial em Altamira.

Jessica é muito próxima desse descaso: recém formada em Biologia, já atua como professora. Por lá não existem concursos, são feitos contratos de trabalho na área da educação. Ela relaciona o abandono na educação com os casos de violência. “Como jovem e como professora, esse é um problema social para nós. Eu tive alunos que deixaram de estudar pela questão da violência porque eles não têm como voltar para casa à noite depois das 21h, porque têm medo de serem assaltados. A falta de segurança afeta na educação, no nível de desistência de alunos das escolas de ensino médio, durante o dia e a noite”, resume.

Para Jessica, o investimento na educação, nas escolas de Altamira, é o primeiro passo para o combate à violência. “É vergonhosa uma situação dessas num município que tem todo o projeto de desenvolvimento sustentável na região”.

Indígenas foram superestimulados

Cleanton, do Conselho Indigenista Missionário. Foto: Joka Madruga

Em contrapartida, as comunidades indígenas foram “bem tratadas” pela Norte Energia. De acordo com José Cleanton Ribeiro, da coordenação local do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em Altamira, cada aldeia indígena recebeu, da Norte Energia, nos anos de 2010 e 2011, R$ 30 mil mensais em produtos alimentícios.

Isso teve uma repercussão bem característica: os índios deixaram de produzir o que já recebiam pronto, se aproximaram mais das áreas urbanas e aumentou a presença de não índios nas aldeias. Mesmo que a primeira vista você pense que isso foi bom para os índios, aumentaram os casos de violência, de alcoolismo e consumo de drogas dentro das aldeias.

“Belo Monte vai deixar uma herança de destruição material e imaterial. Faço referência à cultura. Com o assédio dessas empresas contratadas pela Norte Energia para atuarem junto aos indígenas, limitou eles nas práticas culturais. Isso a gente atribui a essa facilidade de deslocamentos dos índios”, explica o missionário indigenista.

Após o fim das cestas básicas, surgiram as manifestações indígenas. “E ai foi quando surgiram outras negociações, compraram caminhonetes e voadeiras (barcos) potentes, coisas que eles nunca pensaram em ter. Esses presentes da Norte Energia minaram a entrada das entidades (MAB, CIMI, Xingu Vivo) dentro das comunidades indígenas. A gente chegava para dizer contra o empreendimento mas eles tinham essa leitura que era Belo Monte quem davam as coisas”, explica José Cleanton.

“Eu costumo dizer que hoje o cenário apresentado para os grupos indígenas da nossa região está como a cereja do bolo para a Norte Energia. A sociedade tem uma visão deturpada dos grupos indígenas por conta dos presentes. Índio andando de camionete? Mas se você for numa aldeia vai ver uma miséria muito grande. Tem gente passando fome, mesmo com todos os recursos que entram. A sociedade tem que ter a consciência que esse povo é vítima da situação e o empreendedor, ao dar os presentes, faz com que eles sejam vistos como preguiçosas, bandidos, como sempre foram vistos pela sociedade”, finaliza.

Organização Xingu Vivo contabiliza desigualdades

Energia para quem? Foto: Joka Madruga

“Para nós do movimento Xingu Vivo, somos todos atingidos. Os que já estavam em Altamira e os que chegam. Tem famílias como a minha, expulsa da minha própria casa, como tantas outras famílias, para dar lugar a uma construção dessa que apodrece nosso rio, destruindo os nossos igarapés. Então para nós do Xingu vivo, toda a população é atingida”, conta Antonia Melo, coordenadora da ONG Xingu Vivo.

Para a organização, Belo Monte é uma obra inviável. Ela não tem viabilidade econômica e nem ambiental. É um desastre. “Uma monstruosidade dessas e eles chamam de grande obra, de modelo de desenvolvimento sustentável. Mas uma grande obra é que traz o bem viver para a sociedade, que traz benefícios nas áreas ambiental, social, econômica. Isso pra nós configura uma grande obra, que faz a população mudar de vida, ter perspectiva, que inclui a juventude dessa país, isso é uma grande obra. Para nós do Xingu Vivo não há nada para dizer que Belo Monte trouxe de bom”, relata a moradora de Altamira.

Belo Monte oferece as chamadas condicionantes para a construção da usina, que para moradores chega em forma de aluguel social temporário, reassentamentos distantes da orla do rio, indenizações para poucos como forma de cooptação de lideranças. E o rastro vai ficar é de aumento da violência contra a mulher, do aumento de assassinatos, da criminalidade, das drogas entre jovens, a prostituição infantil e dos povos indígenas.

O arco-íris trás a esperança na luta dos atingidos de Belo Monte. Foto: Joka Madruga

Para Antonia, a construção de Belo Monte foi feita goela abaixo. “É um crime sem precedentes contra a humanidade”.

Reportagem: Joka Madruga
Edição: Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males 


Um comentário em “Águas Para Vida: Em Altamira, para cada cabeça, uma sentença

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *