Arcebispo de Curitiba abençoa alimentos e gás que serão doados pelo MST e Sindipetro

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28 toneladas de alimentos e 400 cargas de gás de cozinha serão doados neste sábado (1) em Curitiba e Araucária.

Fotos: Joka Madruga / Terra Sem Males

“Enquanto houver gestos assim, apesar de tantos problemas no mundo, na sociedade e na história, há maravilhas que sustentam bons motivos para termos esperança”. As palavras foram de Dom José Antônio Peruzzo, Arcebispo Metropolitano de Curitiba, ao abençoar as 28 toneladas de alimentos e 400 cargas de gás de cozinha que serão doados neste sábado (1) em Curitiba e Araucária.

A ação é organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro-PR/SC). O representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi até Centro de Distribuição da Economia Solidária e Reforma Agrária de Curitiba, no Xaxim, onde foram montadas as mais de 2 mil cestas que serão distribuídas.

“Hoje há gente que sofre, porque está faltando gás, comida e quem olha para o futuro se inquieta e se assusta”, afirmou Dom Peruzzo, dizendo, no entanto que ação de solidariedade como esta possibilitam “cultivar a esperança. A doação “fará um bem imenso às famílias que precisam de toda essa generosidade dos petroleiros, dos agricultores. As famílias vão se experimentar agraciadas”, completou.

As doações vão chegar a comunidades em que a maior parte dos moradores enfrentam dificuldades para garantir as três refeições diárias. Em Curitiba, as entregas serão a partir das 9h no Jardim Santos Andrade, no bairro Campo Comprido, e na Vila Formosa, no Novo Mundo, onde cinco associações de moradores atuam de forma conjunta para criar cozinhas comunitárias. Em Araucária, as distribuições terão início às 14h nas Vilas Santa Cruz e Portelinha, no bairro Vila Nova.

Antes de propor a oração do “Pai Nosso”, Dom Peruzzo enfatizou todo o trabalho e dedicação para a produção do pão que segurava nas mãos. “Vamos juntos rezar um Pai Nosso…É a linguagem do pão. Olha quanto pão aqui. A vontade do Pai é que os filhos façam a partilha. Vamos olhar para esse pão: O trigo foi plantado, foi colhido, foi triturado, tornou-se farinha, foi amassado, foi trazido até aqui. Quantas pessoas participaram até aqui. Que bela história a pronúncia dessa partilha”.

Os 1.100 pães que farão parte das cestas partilhadas neste sábado foram produzido por mulheres do acampamento Maila Sabrina, de Ortigueira. A diversidade de alimentos veio de sete municípios, de centenas de famílias da reforma agrária e da agricultura familiar: assentamento Contestado e agricultores sócios da cooperativa Terra Livre, criada pelo assentamento, e famílias sócias do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da (STR) da Lapa; assentamentos São Joaquim, Rio da Areia e Carvorite, de Teixeira Soares; assentamento Dom José Gomes e Avencal, de Fernandes Pinheiro; e assentamento Mário Lago, de Irati; acampamento Maila Sabrina, do município de Ortigueira; o acampamento José Lutzenberger, de Antonina; e de produtores da agricultura familiar da Colônia Marcelino, de São José dos Pinhais.

Dom Peruzzo está entre os 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos brasileiros que assinaram a Carta ao Povo de Deus, um documento denominado no qual fazem duras críticas o governo Bolsonaro, especialmente diante da pandemia de Covid-19, e ao bolsonarismo. O documento critica a “incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises”.

“Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo das milhares de mortes pela Covid-19 (…) e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja”, diz a ala progressista da CNBB.

Foto: Joka Madruga | Arte: Davi Macedo

A carta enviada pelo cardeal Michael Czerny, secretário do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, em nome do Papa Francisco, também foi lida durante a bênção. O documento foi enviado ao MST no Dia Internacional da Agricultora e do Agricultor Familiar, 25 de julho.

“A Quando Jesus viu as multidões famintas encheu-se de compaixão e multiplicou os pães para saciar a fome do povo. Todos se alimentaram e ainda houve sobras (Mc 6,34-44). A partilha produz vida, cria laços fraternos, transforma a sociedade. Desejamos que este gesto de vocês se multiplique e anime outras pessoas e grupos a fazerem o mesmo, pois “Deus ama a quem dá com alegria” (2 Cor 9,7)”, diz um trecho da carta.

Para religiosa, só relações sadias e humanizadoras podem “salvar o mundo”
Irmã Anete Giordani, que desenvolve inúmeros trabalhos sociais na região da Cidade Industrial de Curitiba, também esteve no ato e enfatizou a importância da solidariedade. “Ninguém pede pra nascer, e não escolhe onde nasce, por isso não tem méritos e nem culpas. E se nós olhássemos pro mundo assim com essa irmandade, com essa mentalidade aberta, olhando pro outro como alguém que comigo partilha por um tempo nesse planeta, nós seríamos pessoas muito mais simples, despojadas e abertas a essa partilha”, disse a religiosa.

Filha de agricultores, Anete valorizou o desprendimento das famílias camponesas por doarem sua produção. “Eu sei o que custa isso e eu vim aqui trazer o muito obrigada, o muito obrigado de todos que vão receber […]. Só as nossas relações sadias e humanizadoras é que vão salvar o país e o mundo”.

A religiosa, que é gestora do Centro de Assistência Social Divina Misericórdia, sediado na comunidade do Sabará, questionou a forma como os movimentos e as ações sociais são vistas por parcelas da sociedade. “Sabemos que existe, com relação ao trabalho do MST e até a nós mesmo que fazemos trabalho social, algumas pessoas que olham atravessado, achando que a gente não faz nada, que somos um bando de baderneiros. E não é assim. Nós precisamos também falar pra este mundo sobre isso”.

Na visão de Irmã Anete, as ações de solidariedade se somam a uma “grande rede da misericórdia”, que atua a partir das comunidades e das bases, e que melhora as condições de vida das pessoas mais empobrecidas. “Eu quero agradecer a vocês todos por essas atitudes concretas de solidariedade e de partilha. É isso que Jesus veio ensinar que é o reino. O reino só vai ter paz não quando faltar guerra, mas quando nós soubermos partilhar. É aí que vamos salvar o mundo”, finalizou.

Assista a benção na íntegra:

Balanço das ações das famílias da Reforma Agrária

A ação realizada neste sábado busca contribuir de forma imediata para o enfrentamento à fome, que tem se tornado uma dura realidade para a parcela da população brasileira que já vivia em condições mais precárias, mesmo antes da pandemia da Covid-19. Também tem como objetivo cobrar preços justos para o gás de cozinha e o direito à alimentação para toda a população.É a segunda vez que as duas organizações se juntam para garantir estes dois itens essenciais para a alimentação – a primeira ocorreu no dia 13 de junho.

O MST está em campanha de doação de alimento produzidos em assentamentos e acampamentos desde o início da pandemia, em todo o Brasil. No Paraná, as partilhas chegaram a 360 toneladas de alimentos nesta sexta-feira (31). Além da doação dos alimentos in natura, cerca de 9.500 marmitas foram produzidas e distribuídas pelo Movimento em parceria com outras organizações, em Curitiba. Aproximadamente 600 máscaras de tecido produzidas e doadas por mulheres do MST.

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