Artigo || O meeiro

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Em várias regiões do Brasil onde não tem Movimentos Rurais organizados, o arrendatário ou o meeiro, são sujeitos constantes nas comunidades rurais destas regiões. Assim era na minha região. Quem não tinha terra, ou tinha pouca, procurava os mais bem abastados. Aqueles com maior quantidade de terra para negociar uma forma de plantio sob forma de arrendamento, ou na divisão da produção, que chamamos de meeiros.

O proprietário cede a terra e a estrutura necessária, já o Meeiro em contrapartida entrava com a força do seu trabalho, produz e ao final da safra faz a divisão dos lucros em metade para cada uma das partes. Em alguns casos, os donos das terras custeavam a alimentação e demais despesas aos seus arrendatários ou meeiros durante a safra e as descontavam quando da venda da colheita. Ao final, sobrava nada ou quase nada àqueles pobres que eram obrigados a se sujeitarem a estas condições quase escravizadoras. Ficava tudo ou quase tudo para os ditos “donos das terras”, obrigando-os a se sujeitarem á mais um ano nas mesmas condições. No final das contas a roda da fortuna e da pobreza giravam na mesma velocidade, porém, no sentido completamente oposto, em que os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres ainda mais miseráveis.

Na minha região grande parte dos meeiros e/ou arrendatários era formada por fumicultores, uma parcela menor na produção de cebola. Menor em quantidade, logicamente. Porém, tão explorados quanto àqueles plantadores de fumo. Eram jovens agricultores ou famílias, as quais não tinham terra, logo seus horizontes de esperanças limitava-se em pagar dívidas e sonhar com uma vida melhor nas grandes cidades. Pobres inocentes, sequer sabiam que na cidade a exploração se repetia da mesma forma. Apenas tinha horário e dia definidos pelos patrões.

Como eu já estava chegando aos dezoito anos e meus irmãos já estavam mais crescidos, a situação de vida da família já era melhor. Logo, era hora de pensar em ajudar a família construir um futuro melhor e mais consistente. Ou seja, chegara a hora enquanto família, de sermos protagonistas de nossa própria história.

Mais uma vez juntando as trouxas e junto com dois irmãos mais novos fomos para uma comunidade vizinha trabalhar como meeiros com a família Constante. Foi uma experiência de aprendizado no ramo da fumicultura, o qual à época, era produzido e manuseado de forma totalmente artesanal.

Durante a semana, era o trabalho na fumicultura, com moradia próxima a casa do dono da terra, com revezamento no preparo das refeições. As noites eram ou ouvindo música sertaneja nas rádios de São Paulo, esporte nas rádios do Rio de Janeiro, ou indo até a casa da dona Verônica, esposa do dono da terra para assistir uma novelinha.

Aos finais de semana, mas propriamente aos sábados ao meio dia embarcava na bicicleta e pedalava por quinze quilômetros até chegar à comunidade para dar a catequese e atuar nas demais organizações da minha comunidade. Sempre levava um mano de carona e o outro ia a pé.

No período da colheita, não tinha as folgas dos finais de semana. Pois estas emendavam e daí o Pai ou a Mãe vinham nos visitar trazendo a alimentação da semana seguinte. A safra foi boa, embora um temporal de granizo tenha acometido a plantação já na fase de colheita. Em quantidade, nada mudou, já a qualidade ficou bastante comprometida.

Nos dias de hoje principalmente o meeiro quase não existe mais e alguns poucos integrantes ainda trabalham de arrendatário devido a três fatores fundamentais: A primeira causa, é o esvaziamento do campo, onde um grande número de agricultores se deslocaram para o mundo urbano; o segundo fator se deve ao melhoramento tecnológico, que com uma quantidade menor de terra é possível produzir muito mais agregando valor à produção; e, terceiro e principal fator são o conjunto das políticas públicas das últimas décadas que melhoraram as condições e a qualidade de vida na roça.

Para fundamentar a análise destes três fatores, basta consultar o Atlas de Desenvolvimento Humano e verificar o crescimento do desenvolvimento humano do município de Angelina em Santa Catarina a partir do Censo de 1990, justamente no final do período relatado no início desta crônica.

Em 1990, o IDHM era de 0,433, puxado pelo Índice de Longevidade, cujo indicador marcava 0,710, o Índice de Renda igual a 0,546 e o Índice da Educação puxava todos os demais para baixo sendo de apenas 0,209. Ou seja, um dos piores Índices do Brasil.

No Censo do ano 2000 vimos mudanças significativas no Atlas de Desenvolvimento Humano dos Municípios quando no índice geral, Angelina saiu de 0,433 para 0,553. Nos desdobramentos, o Índice de Longevidade continuou crescendo, passando de 0,710 para 0,779; o Índice da Renda também cresceu de 0,546 para 0,599. No entanto, o que mais se destacou, foi o Índice da Educação, que saltou de 0,209 para 0,360, sendo destaque, a permanência escolar e isto se deve a consolidação da interiorização da educação, em que as duas escolas nos dois distritos do município passaram a ter o ensino fundamental integral.

Já no Censo do 2010, vimos novas e significativas mudanças estruturantes nos Índices de Desenvolvimento Humano do município. Quando fomos de 0,553 para 0,687, sendo que nos desdobramentos pode-se perceber mudanças estruturais fundamentais no desenvolvimento humano. Enquanto no Censo do ano 2000, os grandes avanços foram na Educação, neste, além da Educação outro crescimento importante foi no índice de Renda, bem como, a política do salário mínimo foi fundamental para o aumento do Índice de Longevidade que passou de 0,779 para 0,797; no Índice da Renda fomos de 0,599 para 0,699, quando a renda per capita quase dobrou neste período de 10 anos, passando de R$ 322,77 para R$ 618,55 e o Índice da Educação passou de 0,360 para 0,581. Este resultado pode ser atribuído na transformação da Escola do Distrito de Barra Clara de escola de ensino fundamental para ensino médio.

Um programa do Governo Federal importante que merece destaque na alteração desta realidade de meeiro e arrendatário no Município, assim como na Região, foi o Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar – PRONAF. O qual, na primeira década deste século, dos 1.136 empreendimentos rurais do Município, quase a metade tiveram acesso a este, tanto para custeio como para investimentos em suas respectivas propriedades. Dados coletados da monografia de conclusão de curso de pós-graduação de George Willians Caserta de Aguiar, da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Da mesma forma, contribuíram para este avanço o Programa Mais Alimento, que permitiu aos agricultores estruturarem com maquinários suas propriedades e ao mesmo tempo facilitar o escoamento da sua própria produção. A Assistência Técnica e a Extensão Rural, também foram fundamentais para qualificar os pequenos agricultores na sua produção.

Enfim, a vida melhorou muito na roça. Mas, a experiência e o sofrimento dos tempos de meeiros, nos fizeram valorizar ainda mais a agricultura familiar, com todas as suas contradições e cada vez mais contribuir com a sua luta para que todos os direitos conquistados não corram o risco de serem perdidos.

Por José Claudenor Vermohlen, consultor

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