Artigo | Tião e a terceirização

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Esta história tem nomes fictícios, porém é real.

Tião menino bom, educado, pena que nasceu muito pobre numa comunidade rural e por isso seu futuro estaria no trabalho de boia fria numa das pequenas fazendas da região. Não conseguiu estudar além do primário à época, embora morasse a menos de 20 Km do colégio, por ser o quinto filho de uma família de 09 irmãos, como os mais velhos não tinham estudado além do primário, portanto Tião também não poderia estudar pois quebraria a tradição familiar.

O sonho de comprar uma bicicleta foi conquistado aos 14 anos fruto de trabalhos de diarista nas roças dos vizinhos da comunidades e portanto já era possível se deslocar nas domingueiras da região junto com outros adolescentes da comunidade. Ah, como parte dos sonhos a compra do rádio de pilha foi outra conquista e com a potência das ondas curtas foi possível começar a torcer pelo Vasco da Gama – Time do Rio de Janeiro, mas que era possível acompanhar o dia a dia do time, além de poder ouvir os programas sertanejos das rádios Record e Capital de São Paulo e os gauchescos da rádio Farroupilha de Porto Alegre no Rio Grande do Sul.

Vida de adolescente na roça durante a semana era de muito trabalho nas empreitadas contratadas e diárias ganhas na vizinhança para, nos finais de semana cumprir um roteiro de atividades que se repetiam. Culto na igrejinha da comunidade, catequese, jogo de futebol do time da comunitário que para a tristeza de Tião se chamava Flamengo, mas por ser da comunidade a torcida estava garantida. Cabe esclarecer que Tião não era extremamente dotado para a arte de jogar futebol, embora tentasse ser zagueiro, logo então nos campeonatos e festivais em que o Flamengo da comunidade participava sua principal tarefa era na torcida, o que era correspondido pela possibilidade da paquera com as meninas, que começava nas beiradas dos campos e depois continuava nas domingueiras das tardes de domingos. Segunda-feira voltava tudo como antes no cartel de Abrantes.

Tião completa 18 anos. 18 anos na roça significava rompimento entre a adolescência e a vida adulta, assim como a conquista da independência. Pois a partir desta daí, o jeito era buscar sua profissão, ou seja, o seu próprio salário. E lá se vai Tião, com uma mochila nas costas buscar emprego na região metropolitana da capital. Emprego? Como? Pois se não tinha profissão definida para o mundo urbano, logo era necessário pegar o que tivesse à disposição. Tião a partir dos bons contatos construídos na adolescência e por ser menino bom e educado logo apareceram as primeiras propostas de trabalho.

O grande choque para Tião, foi na área cultural, pois enquanto para a vida da comunidade na roça trabalhar na cidade era algo moderno, na cidade Tião era um peixe fora d’agua, as relações do mundo urbano eram totalmente diferentes e já individualizadas, cabendo a Tião buscar diversão nos bailões periféricos da Região Metropolitana da Capital do Estado, encontrando ali as meninas lá das comunidades rurais que vieram trabalhar de doméstica ou cuidadoras no mundo urbano. Eram os encontros dos caipiras no mundo urbano considerado “moderno”, mas que ao retornarem as comunidades nos finais de semana eram considerados modernos por virem do mundo urbano com novas modas de roupas, danças, linguajar, entre outros. Tião estava curtindo isto vivenciando as contradições de mundo moderno com a caipirice e a sinceridade da vida na roça. O rádio de pilha já não mais tão usado, sendo trocado pela TV (com imagens em preto e branco) em que era colocado um papel plástico colorido a frente para diminuir o chiado e de Bombril na ponta das antenas, com isto o Vasco da Gama deixou de ter o acompanhamento diário para apenas assistir quando passasse na TV e um dos clubes da Capital do Estado começar a ganhar espaço e torcida. As músicas sertanejas e gauchescas foram trocadas pelas novelas e programas de auditórios.

Nas idas e vindas de Tião ele conhece Teodora e se apaixona. Namora, casa e começa a constituir uma nova família. Continua durante a semana trabalhando no moderno mundo urbano e nos finais de semana na roça vivendo em família e em comunidade.

Tião vai ampliando seus conhecimentos até ter uma profissão de verdade que é de motorista de caminhão. Percorrendo as estradas vai ganhando seu salário, criando seus filhos que graças a um tempo novo consegue dar estudo, qualidade de vida e profissão para três dos seus quatro filhos, pois a quarta ainda garota somente estuda, mas já está além do que Tião conseguiu estudar.

Graças aos novos tempos em que viveu o Brasil seus filhos além de estudar, ter profissão, cursar faculdade, casaram e através do Programa Minha Casa Minha Vida, todos tem suas próprias moradias. Tião lamenta que a única coisa que falta neste processo familiar é um netinho.

Em todo este processo Tião se torna o empregado de confiança da empresa, arruma novos funcionários, inclusive um de seus filhos trabalha na empresa. Faz hora extra sem cobrança, cumpre o roteiro de entrega e, fielmente, está tudo bem com a vida e com a família totalmente estruturada, está tudo bem.

Vida social inserida na vida da comunidade e do Município estava tudo tranquilo até que Brasília com suas notícias golpistas altera consideravelmente a vida tranquila e pacata de Tião.

Tião e sua família tinham votado na Dilma como forma de reconhecimento pelas conquistas de sua família, pois em outros tempos, estas eram impossíveis e hoje tudo caminhava tranquilo, mas um forte golpe elitista alterou todo este cotidiano confortável e harmonioso duramente conquistado.

A primeira grande preocupação de Tião veio com a notícia e o projeto dos Golpistas com a Reforma da Previdência, pois estava com um pouco menos de 50 anos de idade e fora do corte de transição, embora estivesse próximo dos 30 anos de contribuição.

Saiu correndo em busca de advogados, busca de testemunhas para agregação do tempo de roça e no meio do caminho descobriu a maioria dos anos em que exerceu a profissão de motorista eram considerados “atividade de risco” o que diminuiria os anos de contribuição e seria possível conseguir uma aposentadoria com aproximadamente 70% do valor total do salário. Tião topou, pois era melhor um pássaro na mão do que alguns voando.

Antes de sair a decisão da sua aposentadoria, o que já estava tirando de Tião sua vida tranquila e socialmente integrada à vida comunitária, vem a notícia da aprovação pelo Governo golpista do projeto de terceirização que a princípio nada tinha a ver com ele. Tião não imaginava que ele seria logo logo afetado e ameaçado na sua profissão.

A empresa em que Tião era o funcionário modelo resolveu terceirizar suas entregas, para em vez de ter frota própria com sua manutenção, motoristas empregados com carteira assinada, seguros dos funcionários e frota de caminhões, estabeleceria uma proposta de pagamento por Km rodado, resolveu contratar terceirizados para prestar o serviço aumentando consideravelmente os lucros da empresa e precarizando a entrega de seus produtos.

E agora Tião?

Para os funcionários mais antigo foi oferecido em troca das indenizações das demissões o caminhão em que Tião trabalhava, pois sua rota era a mais lucrativa e o caminhão era o melhor da frota, haja vista, Tião ser o melhor funcionário. Mas Tião estava fora pois não era o funcionário mais antigo, além de fazendo as contas, pois Tião sempre foi bom de matemática, percebeu que mesmo se lhe fosse oferecido para ele o negócio acabaria ganhando menos da metade do seu salário, pois teria que arcar com a manutenção do caminhão, seguro de carga, ajudante de entrega, entre outros.

Com muita tristeza como nem isto foi lhe oferecido restou para Tião a demissão da empresa e a torcida para que consiga a aposentadoria com 70% do seu salário base e a vida pacata trocada pela instabilidade para celebrar sua idade mais avançada.

Num dos debates familiares disseram para Tião que ele por ter votado na Dilma também era responsável pelo Governo Golpista de Temer, pois ele era vice na Chapa.

Mas Tião com sua simplicidade e sabedoria respondeu no ato.

“Não. Votei e ajudei a eleger Dilma pelas conquistas dos Programas Minha Casa Minha Vida, Pro-Uni, FIES, Farmácia Popular, Mais Médicos, entre outros e não em Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, Terceirização, Privatização, entre outros”.

Portanto Tião elegeu Dilma com um Programa e para finalizar afirma que o Golpe não foi na Dilma, nem no Lula e nem no PT, mas sim, nos milhares de Tiões pelo Brasil.

Tião embora indignado ainda tem a esperança de uma possível aposentadoria, mas tem plena consciência de que os milhares de Tiões não terão sequer esta esperança, a não ser tirar estes golpistas rapidinho, fazer eleições diretas e eleger Lula novamente para recolocar o Brasil nos eixos e os milhares de Tião voltarem a conviver com o protagonismo e a esperança de seus destinos.

 

Por José Claudenor Vermohlen (Zeca), Consultor de Planejamento Estratégico, Mediação Social e Desenvolvimento Sustentável
Terra Sem Males

Foto: Camila Domingues/ Palácio Piratini

 

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