As barricadas de Oaxaca

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Esta experiência durou seis meses, com o povo controlando ruas, rádios e o destino de uma capital com mais de um milhão de habitantes.

Foto: Pedro Carrano.

Há nove anos, na noite de 14 de julho de 2006, explodia uma revolta popular em um dos estados mais pobres ao sul do México. Uma revolta e experiência de poder popular pouco conhecida e publicada no Brasil.

Os professores, os indígenas, os jovens do estado de Oaxaca reagiram contra a repressão do governador Ulises Ruiz Ortiz, que despejou com violência naquela noite um acampamento grevista de professores.

Em tempos quando também no Paraná ocorre um grave desrespeito contra a luta do magistério por parte do governo, é interessante extrair os ensinamentos dessa luta do povo mexicano. Indignados com a atitude do governador, trabalhadores saíram às ruas, montaram inúmeras barricadas e ocuparam meios de comunicação, em busca de uma voz que retratasse o que de fato ocorria no estado.

Esta rica experiência durou seis meses, com o povo controlando ruas, rádios e o destino de uma capital com mais de um milhão de habitantes. Depois da repressão do dia 14 de julho, já não era mais a luta do sindicato de professores e passou a ser a Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca, a APPO.

Foto: Pedro Carrano.

O trecho selecionado abaixo, escrito no acampamento appista na capital mexicana, revela o momento quando acompanhei o conflito, a partir de novembro de 2006, enviado como repórter do jornal Brasil de Fato. Com as barricadas já desmobilizadas, na repressão autorizada logo depois das eleições do país, o povo resistia à perseguição, lutava pela liberdade dos presos políticos, promovia marchas massivas em Oaxaca e no restante do México.

Todos os textos, matérias, apontamentos e crônicas de viagem estão organizados no livro “As barricadas de Oaxaca e outras histórias dos Andes ao sudeste mexicano”, que inclui capítulos sobre a América Central, vivência em comunidades indígenas de Chiapas, ascensão e queda do governo Lugo no Paraguai. Infelizmente, o trabalho ainda aguarda o interesse de alguma editora, na certeza da importância de registrar as lutas que abalaram o continente latinoamericano no começo dos anos 2000.

Foto: Pedro Carrano.

“O cerco à Comuna de Oaxaca”

“Caça às bruxas? Estado de sítio? Estado de exceção, nas palavras da lei mexicana? Estado democrático de direito? Nenhum desses termos faz sentido neste exato momento em Oaxaca. Sem um mecanismo legal, o presidente Vicente Fox encerrou qualquer direito individual no estado ao exigir que a polícia federal preventiva (PFP) desmantele a resistência da Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) e persiga qualquer pessoa minimamente envolvida nas megamarchas de protesto feitas ao longo de novembro. Certamente um novembro histórico para a assembleia popular e para a luta dos mexicanos.

Neste momento, mesmo os jornalistas de meios de comunicação empresariais não se arriscam a sair dos hotéis. Na rua está a polícia, que tem usado lança-granadas e disparado gases lacrimogêneos na direção dos corpos dos manifestantes. Nas ruas estão os paramilitares do Partido Revolucionário Institucional (PRI), estão os chamados porros, os infiltrados do partido no meio universitário para arrumar confusão e, finalmente, gente armada e mercenária. Tudo isto acontece às vésperas da entrega do mandato de Vicente Fox para Felipe Calderón, os dois do Partido de Ação Nacional (PAN), que passa a repartir o poder com o PRI, que sempre controlou o poder no país.

Na voz das pessoas refugiadas para a capital, o governo do PAN passou como num pulo da alcunha de liberal para a de extrema-direitista. Ativistas, membros ou simpatizantes da APPO estão encurralados. Os membros das comunidades do entorno e das montanhas de Oaxaca não descem para a capital. Se alguém suspeito sai às ruas, logo é preso. Neste momento, no Distrito Federal, membros dos meios de comunicação independentes se articulam, por meio de mensagens no celular, para saber a situação dos ativistas que seguem no estado, buscando ajudar na sua fuga e monitorar os desaparecidos. No miolo da cidade está a polícia preventiva, na serra o exército mexicano. Ontem a polícia saiu pelas ruas da capital com uma lista de apreensão de cem internacionalistas, como já havia feito com oaxaquenhos membros do movimento. E isto implica entrar nas casas das famílias sem autorização, bastando apenas uma denúncia dos priístas.

Foto: Pedro Carrano.

Desde a sétima megamarcha no sábado, dia 25 de novembro, a polícia resolveu partir para cima da população, com o pretexto de resposta ao incêndio de prédios públicos. Porém, a APPO declara que os atos violentos partiram justamente dos infiltrados na marcha. Assim como o assassinato do cinegrafista estadunidense Brad Will, no dia 27 de outubro de 2006, justificou a entrada da polícia federal na cidade, agora novamente logrou-se um segundo pretexto, quando houve a queima de prédios públicos e a polícia passou a confrontar os manifestantes. A postura da APPO segue sendo pelos atos pacíficos, o que até já foi motivo de discordâncias internas entre o Conselho Estadual do movimento e os que seguiam nas barricadas. A última barricada, a de Cinco Señores, nas imediações da universidade de Oaxaca, teve de ser abandonada ainda nesta semana. Os estudantes e as poucas cem pessoas que ainda aguentavam o tranco corriam risco sério de vida.

A resistência precisa se reinventar. Ontem, o último espaço ocupado pela APPO, a Rádio Universidad, considerada o coração da resistência, foi devolvida para a reitoria da universidade Benito Juárez, que a abrigava. A instituição está cercada pela polícia federal, mas ainda está imune à sua ação devido à autonomia deste espaço de ensino. Os militantes sentem muito, pois a rádio Universidad dava voz a uma população que, neste momento, está incomunicável. Restou a rádio Ciudadana, a serviço dos priístas, fazendo denúncias e incitando a queima de casas de membros do conselho estadual da APPO – entre eles Flávio Sosa.

Números não dizem tudo, mas são reveladores. Na verdade, eles não dão conta dos relatos de torturas sobre os presos transferidos para a prisão em outro estado, chamada Nayarit, uma prisão de alta segurança, 1300 quilômetros longe de Oaxaca. Até o momento, estamos falando de mais ou menos 400 detidos nos seis meses da Comuna – 179 deles transferidos para o norte – 100 feridos, 50 desaparecidos e 20 mortos nos seis meses de duração da também chamada Comuna de Oaxaca.

Os números ganham carne e desespero quando amigos contam a historia de Eliuth Amni Martinez Sanchez, de 21 anos. No dia 20 de novembro, quando simplesmente caminhava com a família por uma rua perto do centro da capital, foi detido pelos policiais que o golpearam em várias partes do corpo, causando hematomas e derrame nos olhos, perda de sensibilidade nos dedos. Ou então quando se ouve histórias de que os prisioneiros transferidos são ameaçados de ser jogados do alto dos helicópteros no mar.

“- A onda de terror vai a arrastar a todos nós“, exclama o conselheiro estadual da APPO, German Mendonza Nube, um dos 262 constituídos ainda neste mês, primeiro preso político oaxaquenho.

Pelo acampamento da APPO instalado em frente ao senado da República, no Distrito Federal, acompanhado por Izabel, professora responsável pelo contato com a imprensa, num certo momento ouso perguntar qual a possibilidade de acompanhar os acontecimentos em Oaxaca.

– “Se arrisca a tua vida“, é a sua resposta, quase distraída.”

Foto: Pedro Carrano.

 “Soledad”

 “O acampamento da APPO foi erguido ao lado do senado mexicano depois da chegada da marcha desde Oaxaca até a capital. Hoje, afora os refugiados do estado e militantes que chegam para manifestar-se contra a posse de Felipe Calderón, estão por ali pessoas de outras regiões para se solidarizar com a assembleia popular. Uma delas é Soledad, olhos e cabelos escuros, quem passaria despercebida nos metrôs lotados da capital. Descendente do povo nautleca, Soledad veio de Guerrero, dos estados mais pobres e reprimidos do México, vizinho a Oaxaca e semelhante na sua conjuntura. Um possível palco de nova rebeldia no México. A organização do povo em assembleias é um ponto em comum. A experiência da chamada polícia comunitária já completa mais de dez anos. Forma de defesa e aplicação da lei entre os povos originários, a polícia comunitária de Guerrero dá outro tipo de punição aos infratores e também oferece uma defesa das comunidades contra a repressão do exército. Pois as tropas oficiais entram nas casas das famílias associando-as à plantação de papoulas para o narcotráfico. Soledad é professora de história, filiada ao sindicato nacional dos trabalhadores da educação, de uma outra seção. Ela explica que a APPO foi um divisor de águas porque “a luta estava dispersa“. A história não começa aí. Lembramos juntos da guerrilha formada no fim dos anos 1960 pelo professor rural Lucio Cabañas, uma revolta que se alimentava de tortilhas. Uma revolta não reconhecida por um setor da esquerda, para quem faltava a presença da classe operária no conflito. Cabañas respondia que aos pesquisadores faltava saber andar nas montanhas e ser picado pelos mosquitos. “Ele dizia que a fome não era um conceito“, lembra a professora. “Guerra no Paraíso”, é o nome de livro do escritor mexicano Carlos Montemayor sobre a guerrilha. Sejam os povos indígenas ou rurais, eles tomam suas decisões por assembleias, cujos delegados reivindicam os direitos junto ao município. Os anciãos são os primeiros a ser consultados nas decisões, o que para ela vai contra a lógica do neoliberalismo. “São os mais velhos quem elegem o representante que vai levar adiante as propostas da comunidade”.

A classe política não representa os interesses do povo, nem da esquerda“, diz. Soledad concorda que uma pista da luta dos povos originários do México está em 2001, quando os três partidos todos juntos não reconheceram a autonomia e as propostas de leis indígenas. Ela não aparenta desânimo. Estávamos sentados debaixo de monumento onde amarram as tendas dos acampamentos. Soledad crê que Oaxaca abriu uma porta que não se vai a fechar. “Como que se abriram as brechas, como que Oaxaca é um baluarte da luta, não se vai a acabar, ao contrário do passado, quando nos reprimiam e nós dávamos um passo atrás. Ainda que com todos os mortos, eles demonstraram a fortaleza. É como a ponta de lança“, pensa.

Fica a foto do seu rosto, que não pode ser tirada.

A repressão nunca é normal, estamos na mesma posição de Oaxaca“, diz Soledad.”

Por Pedro Carrano
Terra Sem Males

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