Ato em defesa de Lula sinaliza alerta sobre funcionamento das instituições democráticas

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Ato em Curitiba reuniu militância dos partidos políticos de esquerda, dos movimentos sociais, de trabalhadores e de defesa dos direitos humanos

Desde a noite de quinta-feira, 05 de abril, após decretação de prisão do presidente Lula, o país passa por intensa vigília formada por diversos atores sociais, em diversas regiões do país. Em Curitiba, cidade-sede da chamada operação Lava Jato, de onde também despacha o juiz federal de primeira instância Sergio Moro, uma intensa militância se reúne em mobilizações, inicialmente na sede do Partido dos Trabalhadores na quinta, um ato público na praça Santos Andrade na sexta e no Centro Cívico neste sábado, em defesa de muito mais do que a liberdade de Lula: dos direitos humanos, do direito de defesa de todos os cidadãos, do direito de ocupar o espaço público sem ser criminalizado ou atacado com violência.

Para o vice-presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Darci Frigo, também coordenador da entidade Terra de Direitos, a população não pode mais contar com as instituições públicas, como judiciário, parlamento ou poder executivo.

Darci Frigo, coordenador da Terra de Direitos e vice-presidente da CNDH. Curitiba-PR. 06/04/2018. Foto: Joka Madruga

“O processo que envolve o presidente Lula não respeita as garantias constitucionais, que são importantes para todas as pessoas. Você não ter o direito da presunção da inocência até o processo chegar ao final é violação dessa garantia e o Supremo está relativizando nesse momento”. Frigo afirma que houve manipulação da agenda do STF pela presidente do Supremo, ministra Carmen Lucia, no julgamento do presidente Lula, ao não colocar em votação ações que poderiam mudar o resultado.

Ele explica que a CDNH defende as garantias constitucionais como o princípio da presunção da inocência, o direito à ampla defesa e que a entidade entende que a prisão em segunda instância significa aumentar o encarceramento no país. “Se você faz isso com um homem como o presidente Lula, que é a maior figura que esse país já teve, reconhecida no mundo inteiro, o que o sistema de justiça não fará com os sem terra, com os sem teto, com uma professora, com qualquer trabalhador que está lutando no dia a dia? Isso vai criminalizar e piorar a situação de violência no nosso país, por isso o CNDH e a Terra de Direitos se manifestam pela garantia dos direitos humanos de todas as pessoas”, afirma Frigo.

Curitiba-PR. 06/04/2018. Foto: Joka Madruga

O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Paraná, Roberto Baggio, acredita que os atos em defesa da liberdade de Lula se transformaram em sementes de mobilizações por todo o Brasil e que as manifestações tendem a crescer, falando sobre todos os atos realizados na última sexta-feira, 06 de abril, que, para ele, representam a resistência popular, um aspecto positivo, em sua análise.

“O golpe e a tentativa de prender Lula, de criminalizar, de acabar com a democracia, de vender o patrimônio, destruir a política nacional está sendo percebido pelas massas do povo brasileiro, que começa a sentir que o desemprego está chegando, que o salário tá baixo, que o aluguel subiu, que o alimento subiu. Essa problemática social vai se agravar e isso tudo tem um responsável político, que são os agentes do golpe. Nesse cenário temos um processo de crescimento da luta social e da luta política”, afirmou a liderança.

Roberto Baggio é uma das lideranças do MST no Paraná. Curitiba-PR. 06/04/2018. Foto: Joka Madruga

Ele avalia que a expectativa é de crescimento da luta popular nas próximas semanas, “para a sociedade brasileira e o povo brasileiro conquistarem a liberdade de volta. Ninguém pode ser preso, ninguém pode ser perseguido e a garantia disso tudo é a luta popular”. Baggio finalizou dizendo que o judiciário, o parlamento, o capital financeiro, a mídia querem destruir a resistência popular. “O povo tem que entender que depende dele agora”.

Curitiba-PR. 06/04/2018. Foto: Joka Madruga

O jornalista e professor universitário Marcelo Lima participou do ato em Curitiba na última sexta-feira destacando que ir para a rua é demonstrar que existe uma grande quantidade de pessoas que não concordam com a decisão sobre a prisão de Lula.

“Essa decisão é anti-democrática, é arbitrária, foi feita às pressas, sem dar a liberdade para um indivíduo se defender de forma adequada, sem provas. Essa não é uma questão apenas relacionada ao Lula mas a todo cidadão. Está se criando um estado de exceção em que a lei está do lado somente de quem tem poder. É a lei do mais forte”, define.

Marcelo Lima acredita que estar nas ruas é demonstrar que uma grande quantidade de pessoas não concorda com o processo de prisão de Lula. Imagem de reprodução da entrevista.

Marcelo afirma que está se rompendo um contrato social com a sociedade brasileira, que foi fortalecido a partir da Constituição de 1988. “Todo esse processo foi por água abaixo, com uma parte significativa dos empresários, dos meios de comunicação, não querer que o Lula se candidate, porque eles sabem que o Lula vai ganhar”.

A vereadora em Curitiba Professora Josete (PT) afirma que as mobilizações são muito importantes, pois não significam apenas a defesa do Lula. “A defesa é por um país justo e soberano, pela democracia, porque infelizmente a nossa Constituição foi rasgada”. Josete afirma que quem rasgou a Constituição foi o Poder Judiciário, com decisões infundadas e sem nenhuma legalidade.

Curitiba-PR. 06/04/2018. Foto: Joka Madruga

“Nós temos que nos mobilizar, estar nas ruas e mostrar que grande parte da população não concorda com isso. Queremos eleições, queremos a volta da democracia e que o Lula tenha o direito de ser candidato”, disse Josete.

O movimento sindical também estava presente. Em entrevista ao Terra Sem Males, o metalúrgico Nelson Silva de Souza, diretor do Sindicato da categoria em Curitiba, lembrou que a democracia está sendo destruída e que é importante os trabalhadores ocuparem as ruas. No final do dia, na sexta-feira, os metalúrgicos trabalhadores da Renault bloquearam a rodovia de acesso ao litoral paranaense, em uma ação articulada pelo Sindicato.

Nelsão defendeu conscientização dos trabalhadores de que acabar com a esquerda no país tem o objetivo de retirada de direitos. Imagem de reprodução da entrevista.

“Defendemos que o Lula seja candidato mas a mobilização é principalmente pela falta de justiça, que não é para todos. Nós queremos a democracia deste país e por isso os metalúrgicos têm feito panfletagem nas fábricas, um material de conscientização da sociedade sobre o que está acontecendo. Eles querem acabar com a esquerda para retirar direitos do trabalhador”, resume o dirigente.

Curitiba-PR. 06/04/2018. Foto: Joka Madruga

O ato, na Praça Santos Andrade, reuniu a militância petista, mas também famílias, estudantes, integrantes de movimentos sociais, sindicalistas. Foi acompanhado por artistas, intelectuais, jornalistas, caravanas de outros estados, como as pessoas que vieram de Santa Catarina. Uma intervenção artística simbolizava uma cegueira que vendava os olhos de pessoas com a bandeira do Brasil e que tinham as mãos sujas de tinta vermelha.

Curitiba-PR. 06/04/2018. Foto: Joka Madruga

As entrevistas foram feitas antes da chegada do presidente Lula em Curitiba, em que a vigília popular em frente à sede da Polícia Federal, contra a prisão, foi reprimida de forma violenta pela PF. Saiba mais aqui.

Mesmo neste contexto de opressão às ocupações de rua, a resposta popular é de crescimento e fortalecimento da vigília em defesa do ex-presidente. Um acampamento começou a ser montado na manhã deste domingo, 08 de abril, nos arredores de onde Lula está preso, em Curitiba, com a chegada de caravanas de diversas regiões do Paraná e do Brasil.

Acampamento começa a ser formado neste domingo. Foto: Joka Madruga.

Por Paula Zarth Padilha
Fotos: Joka Madruga
Terra Sem Males

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