Aumenta o Tom, Zé!

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por Regis Luís Cardoso
LP Crônicas Musicais, Terra Sem Males

 

Subjugam-me. Só por que vim com defeito de fabricação.

O contemporâneo está como a arte de Tom Zé: um quebra cabeça.

“A gente já mente no gene

A mente do gene da gente” – Tom Zé.

A manivela continua a rodar. E vai continuar. Já acenderam a “dinamite na cabeça do século”.

Não temos mais controle, já descentralizaram a informação, ainda bem! Agora ela tem um valor incalculável. Todos os olhos estão voltados ao que aparentemente parece ser sério. A gestão do nosso dinheiro!

Porém, os velhos barcos voltaram a ancorar naquele obscuro cais. Os coelhos voltaram a ser os guardiões das cenouras.

Só de raiva, saí por aí a caçar borboletas e montar esse quebra cabeça que acabei de me enfiar… e, pelo jeito, enfiei vocês também.

“A galope

De

Laptop” – Tom Zé.

Já somos o “pós humano”. Resultado de vários pedaços desconexos no espaço. Fragmentos da indústria da mídia, da indústria da justiça.

A verdade é que, ‘de fato’, não é mais possível se animar com o que, ‘de fato’, acontece ao nosso redor. Ninguém sabe mais se é verdade o que dizem ser verdade.

Se o filme vespertino é mais ou menos ficção que o Jornal Nacional. E apesar de todos enxergarem todos, ninguém mais pergunta: “agora eu quero saber, a quantas anda você?”.

Hoje, com a espetacularização de tudo, até Orwell ficaria paranoico. É a era do protagonismo do medo. PM nas ruas = medo. Manifestação nas ruas = medo.

Medo econômico, medo político e social. Medo da violência, do fogo nas ruas! Pânico, angústia, vômito, prisão, coleira, medo…

Tudo isso sendo vigiado. E se não é você que acaba mostrando o ouro pro bandido, o sistema tem ferramentas pra pegar o seu ouro.

Eu te dou um beijo esquerdista na ponta do pé

você se irrita e diz que essa servidão capitalista não lhe conquista

Eu te peço a boquinha molhada de saliva

minha diva, você diz que essa liberdade é excessiva

 

E diante dessa contradição ideológica

te ofereço a rosa comemorativa

Desta tua democracia relativa

Então aumenta o Tom, Zé… já não acredito naquela arte de Chico, pois ir ao Senado, Buarque, é uma grande bosta. Foi o papagaio de pirata no dia do “adeus”.

Esses símbolos causam aflição. Ainda mais hoje, em que vivemos um momento em que nem o povo fala pelo povo.

Essas figuras de sempre… “heróis”… remetem a uma falsa esperança, pois eles também são culpados.

As pedras ainda são jogadas nas “Genis” todos os dias; e elas também jogam. Afinal: “quem nunca pecou que atire a primeira pedra!”.

 

Não existe governo corrupto, numa nação ética. E não existe nação corrupta, com governo transparente e democrático” – Leandro Karnal.

Todos esses fragmentos que estão voando sob nossas cabeças, volto a dizer, tem um valor incalculável. Chegam até a representar o que, na verdade, não representam. São superestimados.

Por isso, carregados de tanto valor, dignos de celebridades, punem sem ter convicção e usam da injustiça para promover justiça. Cidadãos punidos, punindo. Vingança!

Quando se vê tudo acontecer dessa forma, deslocado do que é democrático, lembro dessa música do Tom Zé: Classe Operária.

Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,

que vai defender a classe operária,

salvar a classe operária

e cantar o que é bom para a classe operária.

 

Nenhum operário foi consultado

não há nenhum operário no palco

talvez nem mesmo na plateia,

mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

 

Os operários que se calem,

que procurem seu lugar, com sua ignorância,

porque Tom Zé e seus amigos

estão falando do dia que virá

e na felicidade dos operários.

 

Se continuarem assim,

todos os operários vão ser demitidos,

talvez até presos,

porque ficam atrapalhando

Tom Zé e o seu público, que estão cuidando

do paraíso da classe operária.

 

Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas,

mesmo que elas não entendam seus desígnios.

E assim, depois de determinar

qual é a política conveniente para a classe operária,

Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes

e com o sentimento de culpa aliviado.

Voltei da caça as borboletas e percebi que, para a realidade fragmentada, não existo.

 

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