Bahia 6×2 CAP, um atropelo ignorado pela grande mídia

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Neste domingo, 14/05, em uma tarde amena na capital baiana, o Bahia marcou seu retorno a elite do futebol brasileiro com uma histórica goleada sobre o Atlético Paranaense. 6×2, de virada, com 4 gols feitos em apenas 7 minutos. Um jogo com um ritmo alucinante, especialmente no 1º tempo, onde as duas equipes buscaram o gol a todo momento. Para além do placar elástico, quem assistiu à partida e se informou sobre os demais jogos do certame, não teve dúvidas: foi o melhor jogo desta rodada inaugural do Brasileirão 2017.

Como seria natural, esperei que a partida tivesse um grande destaque na mídia especializada. Afinal, além da qualidade vista em campo, não é todo dia que vemos uma goleada dessas na estreia do campeonato mais importante do país. Aliás, o Bahia quebrou um tabu: havia 15 anos que não vencia em estreias na Série A. A última vez foi em 2002, quando bateu o Gama, na antiga Fonte Nova, por 1×0.

Diante dessas expectativas, sintonizei nos canais esportivos que disponho em minha casa: ESPN, SporTV, Fox Sports, Band Sports e Esporte Interativo. Permaneci um longo tempo migrando entre esses canais, na esperança de estar equivocado, mas a conclusão foi inevitável: nenhum destaque para o jogo entre o tricolor baiano e o furacão paranaense, silêncio quase total. Quando muito, apenas comentavam rapidamente sobre o placar, sempre afirmando que foi um resultado surpreendente, afinal, um time nordestino goleando um time sulista, onde já se viu? O destaque quase total ficou por conta dos jogos Palmeiras 4×0 Vasco e Cruzeiro 1×0 São Paulo, com direito a longos minutos transmitindo as coletivas pós jogos dos técnicos Cuca e Rogério Ceni.

Não precisa ser nenhum gênio para constatar que o comportamento da mídia seria completamente distinto se qualquer time do eixo RJ/SP tivesse aplicado uma goleada de 6 gols, especialmente se fosse a dupla Flamengo e Corinthians. Mas como foi um time baiano, nordestino, que goleou um time paranaense, duas praças historicamente marginalizadas no futebol e na cobertura midiática, trataram como se um fosse um jogo qualquer, de placar inexpressivo. Em um famoso site esportivo, estava lá para quem quisesse ver: na manchete sobre o jogo do Palmeiras, que fez 4 gols, a palavra goleada aparecia em destaque. Logo abaixo, na manchete sobre o jogo do Bahia, falavam apenas em vitória surpreendente.

Para não ser injusto, de todos os canais esportivos que citei, o Esporte Interativo era o único, naquele horário, que não passava alguma mesa redonda ou programa de noticiais, transmitia um VT de algum jogo europeu. Ademais, o EI tem sido um grande apoiador do futebol nordestino, com a transmissão integral da Copa do Nordeste e de alguns estaduais da região, como o potiguar e o cearense. Todos os outros falavam sobre a rodada do Brasileirão e ignoraram deliberadamente a goleada do Esquadrão.

Para o bem da verdade, o comportamento da grande mídia esportiva a este respeito não me surpreende. Sempre foi assim, não haveria porque mudar agora. Embora não seja surpresa, tal opção continua a me incomodar. A mim e a todos os torcedores nordestinos.

O Bahia possui a maior torcida das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em algumas pesquisas aparece na frente até mesmo de times do eixo, como Fluminense e Botafogo, figurando na 11ª posição entre as maiores torcidas do Brasil. Quando comparamos com a região Sul, só ficamos atrás da dupla gaúcha GRENAL. Temos mais torcida que todos os times catarinenses e paranaenses. Em recente matéria publicada pelo Nexo, o Bahia aparece em 4º lugar entre os times que mais levaram torcedores aos estádios na HISTÓRIA do Brasileirão Série A, ficando atrás somente do Flamengo, Corinthians e Atlético Mineiro.

Todos os dados acima exemplificam que, mesmo do ponto de vista comercial/financeiro, não há razões plausíveis para os canais esportivos não darem amplo destaque para o jogo do Bahia. Temos uma massa, milhões de torcedores que se transformariam em pontos de audiência caso esses canais tivessem um mínimo de respeito pelo Esporte Clube Bahia, por sua torcida e pelo futebol nordestino.

Não há outro motivo que explique tamanha exclusão se não o histórico preconceito regional que o Bahia e os demais times nordestinos sofrem. Não há nada que justifique um jogo de 8 gols, com direito a virada e 4 gols em apenas 7 minutos, ser ignorado e merecer apenas notas de rodapé nos noticiários especializados. Preconceito puro e escancarado.

Ser torcedor nordestino, ser tricolor, significa enfrentar batalhas diárias. Batalhas internas com diretorias muitas vezes corruptas e incompetentes (felizmente não é o caso do Bahia, que tem uma ótima gestão atualmente). Batalhas em campo com times fracos, mal treinados e descompromissados com a nossa história, com o peso da nossa camisa. Batalhas com os altos preços dos ingressos que afastam a torcida popular do estádio. Batalhas contra o preconceito, contra a falta de destaque midiático, contra os orçamentos de cotas de TV irrisórias se comparados aos dos times do eixo. Batalhas diárias e históricas.

Mas, como bem salientou Euclides da Cunha no clássico livro “Os Sertões”: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E assim somos, tricolores, nordestinos, apaixonados por futebol. Com ou sem mídia, o Bahia é a nossa vida. Seguiremos na batalha, contra tudo e todos, porque agora que voltamos para a Série A, voltamos para ficar!! #BBMP

Por Pedro Del Mar, tricolor, 26 anos, repórter, radialista e colunista.
Coluna A Voz do Esquadrão, Terra Sem Males

Foto: Felipe Oliveira/Site Oficial do EC Bahia

3 comentários em “Bahia 6×2 CAP, um atropelo ignorado pela grande mídia

  • 16 de maio de 2017 em 11:11
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    Aqui na Bahia chamamos esse comentário de Estuprio Duplo rsrs

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