Belo Monte: ribeirinhos não precisavam ter saído das áreas de onde foram desalojados

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Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

A procuradora do Ministério Público Federal de Altamira (PA), Thaís Santi, participou na noite de segunda-feira, 27 de junho, em Curitiba, do X Seminário de Direito Socioambiental com o tema “Barragens da Amazônia – a perversidade do modelo energético para os povos e comunidades tradicionais”.

Thaís Santi trouxe uma pilha de documentos sobre os processos que envolvem os atingidos pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte para acompanhar seus relatos. Entre as informações mais impressionantes que ela trouxe foi esclarecer que, atualmente, com a barragem constituída e alagada, algumas famílias estão retornando aos seus locais de origem, de onde foram desalojados e de onde nem precisavam ter saído.

São os ribeirinhos que, de acordo com a procuradora, passaram por reuniões com a empresa Norte Energia, para tentar provar que moravam à beira do Rio Xingu para suas subsistências com a pesca ou o garimpo artesanal, mas que também tinham a dupla moradia em Altamira, para que seus filhos pudessem estudar e eles tivessem acesso a tratamento médico e outras estruturas fornecidas pelo Estado. “O reconhecimento da dupla moradia durante o processo foi um avanço”, confirmou Taís, mas releva que as famílias, que queriam ser indenizadas com moradia, acabaram aceitando dinheiro, em valores insuficientes.

Promovido pela Escola de Direito da universidade PUC Paraná, o Seminário contou com relatos diversos de ativistas ambientais e de povos originários, que explanaram com mais detalhes os dramas vividos pelos atingidos, direta ou indiretamente, pela construção de Belo Monte. A cidade de Altamira, por exemplo, conta com uma mega infraestrutura de saneamento que foi construída pela empreiteira como condicionante para a instalação da usina mas, de acordo com a procuradora, o município não tem a menor condição de viabilizar seu funcionamento. Atualmente, o que era o rio Xingu na cidade virou um lago e todo o esgoto desemboca nesse lago, que não tem mais a correnteza do rio. E as pessoas estariam frequentando as praias que se formaram, sem se dar conta do risco à saúde.

Os relatos também deram conta da falta de identificação de povos indígenas com sua nova realidade quando deslocados. Com o acesso a bens de consumo, alteração de rotina, até mesmo do tipo de peixe que antes eles tinham acesso e agora não têm mais. Ou dos pescadores, que com o rio cheio ou em épocas de seca, viram sua subsistência pela pesca não ser mais possível.

Das pessoas de Altamira que conseguiram realocação em moradias prontas, a vida ficou mais difícil, por estarem distantes 10, 15 quilômetros do centro da cidade. Demoram duas horas para fazer seus trajetos a pé.

Thais Santi e Bruna Balbi. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Thais Santi e Bruna Balbi. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Tudo pela mineração

O repórter fotográfico Joka Madruga, editor do Terra Sem Males, que esteve em Altamira para retratar os atingidos de Belo Monte pelo seu projeto autoral Águas Para Vida, pediu à procuradora para falar sobre a presença da mineradora canadense Belo Sun, instalada, ainda sem autorização ambiental, em Volta Grande do Xingu. “Eu nem sei o que dizer”. Taís concordou que todo o processo de construção de Belo Monte seria para viabilizar Belo Sun. Esse aspecto da construção da usina já foi abordado pelo Terra Sem Males.

Acesse aqui a versão online da edição 1 do Terra Sem Males impresso, sobre os atingidos de Belo Monte.

Nicinha, presente!

O Seminário começou com homenagens a ambientalista Teresa Urban e para Nicinha, militante do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) em Porto Velho, que desapareceu em janeiro de 2016 e seu corpo foi encontrado semana passada no fundo do Rio Madeira, a 800 metros de onde morava.

O evento continua nesta terça, às 18h30, no auditório 2 do bloco vermelho da PUC, com exibição do documentário “Jirau e Santo Antônio: relatos de uma guerra amazônica”, que conta com depoimentos de ribeirinhos do Rio Madeira, em Rondônia, atingidos pela construção destas hidrelétricas. Joka Madruga também acompanhou essa expedição pelo seu projeto fotográfico Águas Para Vida e Nicinha foi uma das entrevistadas. Acesse aqui a entrevista com  Nicinha publicada pelo Terra Sem Males.

Assista na íntegra o documentário:

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Um comentário em “Belo Monte: ribeirinhos não precisavam ter saído das áreas de onde foram desalojados

  • 28 de junho de 2016 em 16:41
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    Vi este filme antes, quando fizeram Sobradinho. Nunca vou esquecer a camponesa que me disse, “Quando soube que teria de sair da minha cidade que iria ser inundada, fui ao cemitério contar aos meus mortos que não os eestava abandonando, que era obrigada a sair”… Foi quando percebi o que é perder as raízes.

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