Brasil: Um ano para se lamentar

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Há um ano, 367 parlamentares protagonizaram o que entrou para a história do Brasil como um dos dias mais vergonhosos do parlamento. A dantesca cena repercutiu na imprensa internacional, menos pelo duvidoso conteúdo do processo do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, e muito mais pelo revelador circo de horrores do nível de politização das deputadas e dos deputados.

Ao proferir o voto, não houve um/a única/o parlamentar que o fez em nome da justiça e da probidade. Suprimiram a democracia e a Constituição Federal de 1988 em nome de filhos, netos, avós, esposos, cidades, religiões, da paz em Jerusalém e, pasmem, até mesmo em nome de um torturador assassino. A História será implacável, e o lugar para traidora/es que debocham da população está reservado à caricatura e referência de modelo falido de se fazer política.

O autoritarismo e a despolitização expressos no maldito 17 de abril de 2016 são a cara do eleitorado brasileiro. Afinal, quem a/os elegeu? Não é ingenuidade pensar que a maioria da/os parlamentares de um ano atrás não sabia do plano de desmonte voraz colocado em curso. Haja vista o atual desaparecimento de mais de 270 parlamentares durante as discussões destinadas às votações das reformas da Previdência e trabalhista.

O grupo mostra a que veio. Suprimida a democracia, o primeiro passo de quem não quer ser investigado foi o de extinguir a Controladoria Geral da União (CGU), um dos mais importantes órgãos de fiscalização e controle criado pelo primeiro governo do Partido dos Trabalhadores (PT). Segue-se a este ato, outros que revelam para quem governa o grupo que tomou o poder de assalto.

Foi extinto o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Uma importante ferramenta voltada para atender o segmento produtivo da sociedade responsável por mais de 75% dos alimentos que vão à mesa de todos os brasileiros. De bancários a banqueiros, de ministro do Supremo Tribunal Federal a gari, de professor a policial.

Contando com a ignorância política da população, a/os parlamentares não se intimidaram em aprovar a famigerada PEC 241, atual 55. Eles sabem que a maior parte da população não consegue dimensionar para sua vida os efeitos de um congelamento de investimentos do governo, por 20 anos. Sabem também que a imprensa tornará confuso o entendimento do que seja a asfixia do Estado e a privatização de ferramentas estratégicas, como empresas de energia elétrica e de águas.

Não satisfeitos com a lambança, esses parlamentares apoiaram o desmonte do Ensino Médio, o fim das farmácias populares, do Mais Médicos e o corte de mais de R$ 150 milhões do programa Bolsa Atleta. Legislam para si mesmos e regozijam em entregar o pré-sal às petroleiras estrangeiras, a preço de bananas, destruir a indústria nacional, entre outras medidas tomadas por um governo sem qualquer ligação com a democracia, sem apoio popular e a serviço das elites financeiras nacional e mundial.

O presidente da Shell, Ben van Beurden, cobrou de Temer, no início de abril, uma clara demonstração de que a entrega do pré-sal está segura e não haverá alterações contratuais em uma eventual mudança de governo. O golpista foi convocado a Washington para explicar como vai garantir o butim com a sua subterrânea aprovação popular e a instabilidade de um governo quase todo ele envolvido em corrupção.

Um ano depois, em entrevista a uma grande rede de televisão, Temer confessa o golpe. A presidenta e a democracia estariam em seus lugares caso o PT tivesse livrado a cara do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que respondia no Conselho de Ética acusação de mentir em depoimento. Temer contou como se fosse algo simples, sem a menor importância, que o motivo do impeachment foi uma chantagem.

Essa confissão seria a oportunidade perfeita para o Judiciário dar a mão à democracia e erguê-la de seu tropeço, não fosse seu acovardamento, senão participação no processo do golpe. A traição de parte do Legislativo aliada a uma imprensa irresponsável, criminosa e mantida pelo mercado financeiro para sustentar o sucesso do golpe, são os motivos de lamentarmos um ano de atrasos seculares.

Guilherme Silva
Terra Sem Males, Brasília-DF
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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