Brasileiros de origem palestina querem reconhecimento de estado independente e pedido de desculpas da Grã Bretanha

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Documento entregue na embaixada britânica marca os 100 anos do aval do governo daquele país para criar um território apenas para o povo judeu, o que causou a expulsão dos palestinos

A diretoria da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL) protocolou na tarde desta quarta-feira (1), na Embaixada da Grã Bretanha, em Brasília, uma carta oficial para lembrar os  100 anos da Declaração Balfour, documento do governo britânico que deu sinal verde para a criação do Estado de Israel.

Balfour gerou os problemas que culminaram com a expulsão em massa do povo palestino de suas terras. Em forma de carta, a comunidade palestina pede ao governo britânico o reconhecimento do Estado Palestino independente, a exemplo do que já fizeram outros países, como o Brasil, além da formalização de desculpas públicas por causa do êxodo e os conflitos que se seguiram, tendo os palestinos como as maiores vítimas.

A carta da FEPAL é assinada pelo presidente nacional da entidade, Elayyan Taher Aladin, e foi endereçada ao embaixador do Reino Unido da Grã Bretanha no Brasil, Alan Charlon. Na carta, a FEPAL afirma que a Declaração Balfour “marcou o início de um longo processo de desapropriação, de opressão e de morte e expulsão massiva da população palestina nativa, que durante séculos viveu em paz com os crentes de qualquer religião no território sob mandato britânico, habitantes estes que viviam sob seu controle e responsabilidade e com os quais vosso governo central à época se havia comprometido em dar independência, considerando que eram a população originária.”

Elayyan lembra que foi o povo palestino que acabou tendo que se sacrificar para dar ao povo judeu um país após a Segunda Guerra Mundial. Com isso, nações européias que promoveram perseguições a judeus e outras minorias durante o conflito não foram responsabilizadas. “A rigor, a Grã Bretanha dá a europeus de fé judaica uma terra que não é sua e que é habitada desde tempos imemoriais. E, mais, para que outro povo, o palestino, pague pelas perseguições que os judeus sofrem não entre os palestinos ou os árabes, mas entre os europeus.

“Diante dos crimes que são praticados na Palestina desde a Declaração Balfour, entre eles a monumental limpeza étnica levada a cabo por Israel, podemos tranquilamente equiparar a Inglaterra à Alemanha ou à Itália, ou a outras nações que cometem crimes de guerra, crimes de lesa humanidade. E, como sabemos, muitos destes países pagam até hoje compensações às suas vítimas, ou pagaram vultosas somas em dinheiro aos países quer sofreram com suas ações. Assim, o mínimo que se deve exigir da Inglaterra é o mesmo em relação aos palestinos. Se, por exemplo, a Alemanha paga indenizações aos judeus pelos crimes que lhe são imputados na 2ª Guerra mundial, é mais do que lógico que tanto Inglaterra quanto Israel devem compensar aos palestinos por todos os crimes que contra eles cometeram”, completa o diretor de Relações Institucionais da Fepal, Ualid Rabah.

Limpeza étnica e traição
Rafael Araya Masry, presidente da Confederação Palestina da América Latina e do Caribe, afirma que a Declaração Balfour representa “o começo de todo um processo de limpeza étnica, possessão das terras e expulsão da população palestina que dura até os dias de hoje”. O líder palestino lembra que o império britânico decidiu sem qualquer critério autorizar “um povo de muito longe a se apropriar de uma terra que não era deles”.

“Lá havia um povo originário que já tinha o direito de permanecer em suas terras”, afirma Rafael. O ativista palestino lembra ainda que, à época da Primeira Guerra Mundial, a Grã Bretanha pediu ajuda para os povos árabes e palestinos para derrotar os otomanos. Em troca, dariam aval para criar de uma nação palestina, entre outras que surgiram após a saída do império britânico do Oriente Médio. Mas na prática, esse acordo não foi cumprido e os povos que ajudaram a derrotar os otomanos na região sentiram-se traídos, afirma Rafael.

Exclusão
A Declaração Balfour é o nome dado à carta assinada pelo então ministro britânico de Negócios Estrangeiros, Arthur James Balfour. Datado de 2 de novembro de 1917, o documento foi apresentado ao banqueiro Lord Lionel Walter de Rotschild, líder da comunidade judaica nas ilhas britânicas, para oficializar o apoio do governo britânico à criação de um território judaico na Palestina.

Essa declaração não levava em consideração os interesses do povo palestino, que são os habitantes nativos daquele local. Balfour tinha o perfil de um líder político conservador. Seu mandato como representante do governo britânico, com a Inglaterra à frente do comando, sofria grande influência de representantes sionistas, partidários de um projeto que via na Palestina o local de restabelecimento de uma nação própria, apenas para o povo judeu.

Na época da oficialização da carta de Balfour, a Palestina estava passando do controle do Império Otomano (derrotado e extinto com o fim da Primeira Guerra Mundial) para o Império Britânico. O território palestino tem cerca de 28 mil quilômetros quadrados. Na região, ao final da Primeira Grande Guerra, em 1918, havia uma população de aproximadamente 700 mil pessoas, sendo cerca de 90% compostas por palestinos cristãos e muçulmanos e 10% de judeus, porém palestinos também, apenas que professantes do judaísmo. Com a declaração de Balfour, oficializou-se o início de uma imigração em massa de estrangeiros de fé judaica, basicamente europeus, para o território palestino, o que culminaria com a autoproclamação do Estado de Israel quatro décadas depois. A fundação foi marcada por violenta repressão contra famílias palestinas para que deixassem suas terras.

Sem direitos políticos e o apartheid
A questão central da Declaração Balfour é que o documento não se refere à Palestina como um território onde estavam presentes populações de culturas e origens diversas. O documento registra que a Palestina é um território nacional para o povo judeu, implicando que só essa parcela populacional tivesse acesso a direitos políticos. As outras populações já presentes na região antes da chegada em massa dos judeus europeus são classificadas como meramente “comunidades não-judaicas”, cabendo a elas apenas direitos civis e religiosos, ou seja,  sem representatividade e poder para participar das decisões governamentais.

“A tragédia palestina que se perpetua é indissociável da Declaração Balfour, encampada pelo mandato britânico, que por sua vez viabilizou o projeto sionista e a limpeza étnica da Palestina, com o Estado de Israel mantendo a mesma perspectiva racista e colonialista”, analisa o historiador paranaense e professor da UEPG (universidade Estadual de Ponta Grossa) Fabio Bacila.

“Al-nakba”, a catástrofe palestina
A Declaração Balfour desrespeita o direito inalienável de um povo a promover sua autodeterminação. Como resultado prático do apoio do governo britânico, milhares de palestinos foram mortos ou expulsos das terras de seus ancestrais.

Em 1948, com o surgimento do Estado de Israel, cerca de 800 mil palestinos eram forçados a deixar suas terras históricas, época que ficou conhecida como “al-nakba”, a catástrofe do povo palestino, uma questão pendente a ser solucionada ainda nos dias de hoje. Muitas famílias tiveram de sair à força para campos de refugiados criados às pressas na própria palestina e nos países da região, ou para outros continentes, como as Américas (do Sul e Central), que possuem grandes colônias de árabes e palestinos que perderam suas terras na época da expulsão para a formação do Estado Judeu.

“O apartheid palestino é mantido pela etnocracia israelense, por sua vez viabilizada pelo Mandato Britânico e Declaração Balfour. Sem estes, não haveria apartheid hoje”, afirma o historiador Fábio Bacila.

Por Gibran Mendes, texto e foto

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