Brasileiros em Buenos Aires organizam há dois anos coletivo de resistência que denuncia o golpe

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Desde o processo que antecedeu o golpe no Brasil contra a Presidenta Dilma, em 2016, brasileiros e brasileiras que moram na Argentina começaram a se comunicar para de alguma forma debater o que acontecia em seu país. Atualmente organizam atos que reúnem centenas de brasileiros que sentem-se responsáveis em denunciar no país vizinho o estado exceção e a luta pela democracia aqui no Brasil.

O Site Terra Sem Males entrevistou o Coletivo Passarinho, formado por brasileiros em Buenos Aires, que responderam de forma coletiva. Confira:

Como o Coletivo se formou? A partir de que fato?

O Coletivo Passarinho foi formado em março de 2016, quando começavam as mobilizações brasileiras contra a iminência do golpe de Estado. Éramos um grupo de brasileiros e brasileiras desesperados com a situação no Brasil e com a ideia de não poder fazer nada estando longe. Nos conhecemos em frente à Embaixada, durante um ato autoconvocado no mesmo dia e horário das mobilizações no Brasil.

Aos poucos, fomos nos articulando interna e externamente. Foi criada uma Frente Argentina pela Democracia no Brasil com diversas organizações políticas e instituições argentinas que juntas fizeram atos massivos e eventos informativos sobre o que acontecia no país. E também criou-se a Rede de Brasileiros no Exterior Contra o Golpe, formada por outros coletivos como o nosso em dezenas de cidades no mundo.

De que forma vocês têm se organizado?

Os espaços de decisões e práticas do Coletivo são horizontais. Temos reuniões quinzenais e uma “assembleia permanente” virtual, digamos, no Whatsapp e no Facebook.

Qual é o objetivo do Coletivo e o que ele representa para vocês que estão longe do Brasil?

Desde o primeiro momento entendemos que nossa união seria não só política, como também afetiva. Conforme o coletivo se organizava, nos tornávamos também uma rede de amizade e apoio que tornou a residência no exterior muito mais fácil e prazerosa. Isso provavelmente ajudou e ajuda a sustentar a diversidade política dentro do coletivo e entendê-la como uma qualidade. Acreditamos que somos uma experiência micro de algo fundamental neste momento crítico para a América Latina: a união das correntes progressistas e das esquerdas para frear o avanço do ultraconservadorismo e do neoliberalismo, e lutar por igualdade de direitos e oportunidades, justiça social e democracia.

Por que o nome Passarinho?

O nome do Coletivo surge de uma associação entre o “Poeminho do Contra”, do Mário Quintana, com a máxima antifascista “Não passarão”. É um nome que reflete o contexto em que o Coletivo foi formado, em que uma nova ascensão do fascismo, favorecida por um golpe institucional, foi por outro lado capaz de conformar um “nós” contundente e diverso, disposto a lutar para reverter essa guinada à direita. Mas o nome também fala de nossa condição de imigrantes, do nosso desejo de liberdade e do trabalho que nos propusemos a fazer: levar sementes de revolução de um lado a outro, de um país ao outro.

Sobre a execução de Marielle, quais os eventos que foram organizados e de que forma estes assuntos chegam na Argentina?

No dia seguinte ao assassinato da Marielle, ainda em estado de choque organizamos um ato no Obelisco, no centro da cidade de Buenos Aires. Mais de cem pessoas compareceram. Ali se falou sobre a violência policial e das milícias do Rio de Janeiro, mas principalmente discutiu-se o racismo. Essa é uma pauta muito secundarizada na Argentina. E ali foi a chance de falar sobre o que significa ser uma pessoa negra no Brasil e na Argentina. Falou-se também sobre a “política com afeto” que a Marielle fazia e defendia, e sua importância como símbolo da tão necessária interseccionalidade de lutas.

No dia 24 de março, foram feitas em Buenos Aires as tradicionais marchas multitudinárias pelo Dia Nacional da Verdade, Memória e Justiça. Por desavenças políticas, as organizações convocantes se dividem em dois grupos e fazem duas marchas diferentes. Dessa vez, um pouco mais unidas pela luta contra o macrismo, as marchas culminaram juntas na Praça de Maio. Lá cada grupo leu suas pautas, mas todas aderiram ao pedido de justiça por Marielle.

Isso nos inspirou a fazer um novo ato quando se completou um mês da execução da vereadora. Mais de 50 organismos de direitos humanos, movimentos afro, LGBTQIA+ e villero (de moradores de favelas) participaram da convocatória e outros 100 aderiram à “Declaração de Buenos Aires”, um documento em que se exigia justiça por Marielle e se reivindicava suas lutas. O ato foi feito no Parque de la Memoria, e isso é muito significativo.

Sobre fazer política nos dias de hoje, por vocês que não moram no Brasil, mas que militam a favor do país, qual o sentimento que os une e o que desejam para o Brasil?

O Coletivo Passarinho tem um proposta que vem a endossar diversos movimentos que estão surgindo nas últimas lutas da esquerda latino-americana e mundial. Uma tentativa de fazer algo diferente das tradicionais organizações partidárias sem deixar de reivindicar sua importância. Temos como tarefa não nos distanciar da nossa horizontalidade, de abrir caminhos e incentivar as divergências e o debate, tendo sempre como pensamento básico que nossa atuação quer uma transformação real e profunda da sociedade e desse modelo de sociedade. Nosso Coletivo precisa não somente apontar uma saída popular, inclusiva, participativa (o que invariavelmente nos leva ao campo da esquerda) como também defender nossa condição de combate permanente ao capitalismo. O que muitas vezes parece velho e desgastado precisa recobrar força para denunciar que esse sistema não somente não é nossa escolha, ou preferência, como também é o responsável pelas desigualdades, violências, fome, injustiça, crimes de ódio, etc, que existem nesse mundo independentemente dos países.

Por isso, acreditamos que o Coletivo pode ser a base também para a articulação, junto a outros movimentos e Coletivos similares, para a criação de um projeto político novo para o Brasil e para a América Latina. Um projeto político que entenda e assuma os desafios de construir uma nova cultura política, entendendo que essa etapa é fundamental para a transformação que queremos. Sendo formado por imigrantes, o Coletivo tem a seu favor a sua diversidade de ideias, de lugares, de trajetórias.

Quantos integravam no início o Coletivo e quantos são hoje?

Começamos com cerca de 30 pessoas. Logo depois do golpe de 2016, o desânimo nos desarticulou e chegamos a sustentar o Coletivo com um núcleo de 10 pessoas. Aos poucos, muitos voltaram para o Brasil e novos membros chegaram. Hoje somos 27 membros ativos e outros 13 que participam em ações pontuais ou mantêm uma relação afetiva à distância com o grupo. Esta nova etapa do golpe, marcada pela prisão do ex-presidente Lula, fez com que outras pessoas se interessassem pela mobilização. Na semana que vem faremos uma reunião para receber novos membros.

Por Ana Carolina Caldas
Fotos: Coletivo Passarinho
Terra Sem Males

Coletivo Passarinho se reúne em Buenos Aires em manifestações para denunciar o golpe no Brasil

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