Capítulo III – FUTEBOL SEM TEMPERO, MAS O PAÍS TEM GOSTO

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

PRIMEIRA PARTE: Tião, Tim e Zaca

::Capítulo III – “Quebrando o cabresto”

 

Após quarenta minutos de atraso Tim chega:

– Trago um presente pro meu querido irmão!
– Aí que eu dou valor. Espero que isso não seja pra justificar o atraso…
– Segura aí! – e joga uma bola enrolada em papel presente.

Tião abriu e deu risada. Era uma bola oficial da Copa da África (2010).

– Olha só… uma relíquia! Essa Jabulani é original?
– ‘O loko’ Tião, aí não né! Claro, porra.
– É, parece ser original – disse, intrometendo-me na conversa.

Depois do atraso e do presente, Tim abraçou Tião e depois me abraçou. Nós três somos amigos. Olho pros dois e lembro-me de tantas barras que passamos juntos.

“Pô… já segurei tantas broncas desses dois que muitas vezes me sinto um paizão pra esses malucos! E sei que eles fariam e farão o mesmo, até mais, por mim!” – pensei comigo.

Mas, apesar dessa enrolação toda, nós tínhamos motivo para o encontro. Então fui direto:

– E aí, Tião, passou mais uma Copa, e agora? – demos umas risadas.
– Acho que as próximas eu vou ver em casa, sossegado.
– E você, Tim? – perguntei.
– Vixi, mano, depois dessa última decidi que só vou ver jogo da Copa no AA ou no NA.

Apesar das risadas, Tião olhou pra mim sério e disse:

– E você, Zaca, vai abrir o bar pros jogos novamente?
– O único lugar possível pra eu voltar a assistir Copa do Mundo é em casa com minha nega véia.

Então Tião retomou a pauta da reunião e perguntou pro Tim:

– E então, mano, como foi nosso trabalho durante a Copa da Rússia?
– Bom, Tião, não só durante, mas depois da Copa, nosso trabalho continua a todo vapor, o bicho tá pegando. Tem muita gente doida, cara, muita gente bebendo pra caralho e chapando.
– Isso eu sei, porra. Mas quero saber da contabilidade. Trouxe a papelada?
– Sim.
– Ótimo.

As prestações de contas são sempre feitas no meu bar. Já as entregas de mercadorias, chegada de cargas, saída de produtos e distribuição, são feitas em pontos diferentes.

Também refinamos nosso pó, mas é fora da vila. Escolhemos um bairro mais ‘refinado’ pra fazer isso, se é que você me entende.

Enquanto trabalhamos, sirvo conhaque pro Tião e água tônica pro Tim. Eu fico na água ardente. Vamos brindando e aos poucos o papo sobre trabalho vai acabando e inevitavelmente o futebol toma conta da conversa.

Então Tião, que adora teoria da conspiração, começa:

– Olha só Tim, assisti a um programa de TV esses dias que os caras falavam de uns esquemas de patrocinadores da seleção brasileira e tal.
– Pode crer.
– Disseram que essas marcas, tipo Guaraná Antártica, Brahma, Ambev, sei lá mais o que, mandam na porra toda! Patrocinam até as Copas do Mundo! Dizem que são eles que manipulam os resultados.
– Aé? Mesmo agora com o árbitro de vídeo? – questionei.
– Ah, Zaca, qualé, até parece que precisa de cinco retardados olhando a porra de uma TV pra saber se foi pênalti ou não, né? Pare, são ‘tudo’ um bando de cuzão, burro pra caralho…
– Orra, Tião, você ainda não absorveu mais uma Copa fracassada? – começamos a ‘tiração de onda’.
– Ah, véio, ninguém tira da minha cabeça que tem vários esquemas por trás do futebol. Não é possível…
– Cara, que programa você assistiu? – pergunta Tim.
– Porra, agora não lembro o nome…
– Vixi, deve ser uma merda, foi na Globo?
– Não, porra, eu lá assisto Globo? Até parece que não me conhece? Mas então, o programa que eu vi era meio antigo, falava de umas paradas de outras Copas. Tipo em 2006, na Alemanha, que tinha cerveja patrocinando a FIFA – eu e Tim ficamos só ouvindo. É melhor concordar com Tião, quando se empolga é melhor não discutir.

Ele continua:

– A propaganda manda. Antes tinha o cigarro nas corridas de carros, hoje quem manda são as bebidas. Não só no futebol, mas no esporte. Pode escrever, se eu pagar o preço, faço propaganda de nóia durante jogo de futebol e em horário nobre…
– É, pode até ser. E essa merda não vai mudar tão cedo – disse.
– Claro que não vai. É igual aquela música do Falcão… “Quanto mais eles mentia / mais a gente aplaudia / quanto mais eles falava / mais a gente acreditava” – cantou Tião.

Aí, pra agradar a “freguesia”, achei essa música aqui no meu computador, botei no som do bar e cantamos! Afinal, sabemos o que significa a merda da CBF e tudo que envolve o futebol, mas também é verdade que não somos anjinhos.

 

Por Jornaldo (Arte: Duke).

Leia Capítulo II.

Um comentário em “Capítulo III – FUTEBOL SEM TEMPERO, MAS O PAÍS TEM GOSTO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *