Capítulo IV – FUTEBOL SEM TEMPERO, MAS O PAÍS TEM GOSTO

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SEGUNDA PARTE

 ::Capítulo IV – Bigode chega e Cat Blake dá o ar da graça

 A Copa acabou e tudo está como antes. O Brasileirão continua chato e a disputa mais importante de 2018 (eleições) está incerteza.

Ano vai, ano vem e as discussões no meu boteco continuam resumidas a futebol e política.

Já tinha prometido que não passaria mais jogos no telão aqui. Abri uma exceção pra Copa do Mundo, mas acredito que no futuro nem isso…

Enchem muito meu saco com esse lance de transmissão de jogos. Prefiro deixar a música rolar e manter o varal de textos literários idealizado por Tim.

Lembra que eu tinha falado do lance da morte do Saramago e como isso mexeu com o Tim? Pois é, ele iniciou um projeto de varal literário aqui no bar naquele período. Parafraseando meu amigo: “quero deixar a vila ‘cult’”.

Para Tim, tem um monte de playboy universitário metido a intelectual que cola na vila atrás de ‘parada’. Aí o varal literário, com textos de artistas da periferia, faz com que esses clientes se aproximem.

No início eu disse que não daria em nada, mas até agora o resultado é surpreendente. Porém, mesmo com tanta poesia, nada se compara ao cotidiano de alguns fregueses que tenho.

Existem pessoas que são diferenciadas, que não conseguimos esquecer. Uma delas é o Bigode. Um senhor de aparentemente 70 anos, taxista e com saúde debilitada.

O que importa nisso tudo é que o Bigode não está muito preocupado com sua situação e sempre vem ao meu bar, após suas corridas, pra tomar sua branquinha e levar um papo.

O Tião e o Tim tem contato ‘íntimo’ com ele. Já cheguei a pensar que são parceiros de negócio, mas como não tenho certeza, acho melhor apenas ficar no campo das suposições.

Hoje Tião e Tim vieram jogar sinuca por aqui. Disseram que estão à espera do Bigode. Quando meu velho amigo chega, olha pra todo o bar, da sua famosa piscada pros dois e senta na minha frente. Pede uma dose de 51.

Enquanto os dois jogam, bola vai bola vem, Bigode faz sinal negativo com a cabeça, reclama da jogada e fala qual seria o melhor opção.

– Porra, Bigode, não fode, tá enchendo o saco! – diz Tim, o alvo principal das críticas.

– Má tumbém, se joga tudo errado, seu malacabado. Não sabe nem pega no taco! – e abre seu primeiro sorriso.

Sua boca tem uns dentes de ouro, volte e meia Tim zoa desse estilo peculiar.

– Vo arranca esses dentes aí e vender pros malandro. Deve tê uma dúzia de vagabundo querendo um ouro por aí – brinca Tim. E Tião dá uma olhada como se quisesse um dente.

– Aí Zaca, dá mais uma dose pro Bigode. Aproveita e bota uma pra mim também! – disse Tião, que antes tomava cerveja e agora vai acompanhar seu amigo na branquinha.

Bigode olha eu encher os copos:

– Pô Zaca, tá ‘icolomizando na dose ein?

– Qualé véio, vai querer apavorar comigo também? – brinco.

Bigode dá uma coçada na careca, coloca seu boné velho de volta e tira um palito pra mascar. Ele parece um malandro dos anos oitenta. Estilo bicheiro (camisa aberta até a metade, umas prata no pescoço, bermuda jeans e uma espécie de alpargata velha nos pés). O bigode tá branco como o resto dos cabelos que resta.

Mas o momento mais aguardado do dia não era a chegada do Bigode. Por isso, após um silencio no bar, vem entrando a Cat Blake. Mulher misteriosa.

Eu não sei, até hoje, sinceramente, o que ela faz. É íntima do Bigode, mas faz negócios do tipo ‘usuária em busca do tesouro perdido’, com Tim.

Ela senta e logo o Bigode solta:

– Como dizia aquele filousofo, o Bruno: ‘quem nunca saiu na mão com sua mulé’ – e olhou pra Cat Blake com um sorriso parecido com o do ‘Boca de Ouro’ (clássico filme nacional baseado na peça de teatro do Nelson Rodrigues).

Na hora Tião estava dando um trago na sua branquinha e cuspiu. Todos riram. Então Cat Blake foi em direção ao Bigode e disse:

– Bate gostoso seu velho safado! – com um sorriso malicioso, pega a mão do Bigode e coloca nos seus seios. Depois beija a boca do coroa e pede uma cerveja.

Então as coisas foram rolando. Papo sobre futebol, política e páginas policiais.

Após um bom tempo, fui dispersando os clientes até que ficamos só nós bar (eu, Bigode, Cat Blake, Tião e Tim).

Confesso que não estou confortável.

Nas minhas observações, ainda não posso definir quem é Cat Blake. Já desconfiei que fosse P2, mas não tenho como provar, então é melhor ficar de boca fechada.

A verdade é que todo mundo na vila queria dar ‘uns pega’ nela. Tim me disse que nunca, Tião eu não vi nem sequer trocar ideia e Bigode sempre desconversa.

Então eu a sirvo e só fico no olhar.

– Bigode, por que você só toma pinga?

– Olha Cats Brake, é uma história meio instranha, sabe! – disse Bigode.

Só a maneira como o velho chamou sua amiga – Cats Brake – já tirou Tim do sério.

– Porra véio, fala tudo zoado e ainda não toma cerveja? Tomá no cu.

– Num tomo cerveja purque me deixa meio viado.

– Qualé Bigode? – interrompeu Tião.

– Carma nego, vou expricar o negócio.

– ‘Exprica’ – disse Cat Blake.

– A última vez que bebi cerveja não foi bom não. Num sei se foi purque bebi pra caraio essa porra de cerveja, mas ela me deu uma mijadera, viiiixi! Aí eu, pra lá de doido, tinha que mijá… e mijá… e mijá… bom… mas aí, quando já tava mais pra lá do que pra cá, quando entrei no banheiro, aqui Zaca (apontando pro banheiro do bar), aqui no seu banheiro, olhei pra privada e ela fez assim… – e com as mãos e os braços mostrou que a privada encolheu.

Continuou:

– Aí eu fiz assim com o zóio pra ver se enxergava alguma coisa – fechou um olho e mirou com o outro. “Mas num adiantou. Aí fiz assim! – e dobrou um pouco os joelhos e deixou os dois olhos entreabertos. “Tumbém num adiantou. Aí eu pensei: Agora fudeu! Nintão me virei e fui indo de ré pra privada…

Todo mundo ria daquilo.

– Intão eu sentei e mijei – e caiu na risada. “Daí dispois que eu mijei, levantei e falei : porra… acoquei! Acoquei? (berrando) Foi essa porra de cerveja. Tá me deixando meio viado! Aí parei di beber essa merda! – de tão idiota que era a história (ou estória), todo mundo se mijou de rir.

Mas depois de um tempo bebendo, fiquei curioso pra saber o motivo da reunião. Até então esses fregueses não bebiam juntos por aqui.

E foi questão de tempo pro assunto entrar em pauta.

Tião tomou a palavra:

– Então, Bigode, tá na hora de resolver a parada que rolou no dia do jogo do Brasil, na Copa. E aí, como vai ser?

Ficou um silêncio. Eu não entendi a pergunta. Só percebi que Tim encarou Bigode e Cat Blake.

– Intão, o negócio é o seguinte: conversei com essa marvada aqui – e apontou pra Cat Blake – resorvemos tentar pagar vocês, mas num temos condições agora. Porra! A situação tá foda!

Tião e Tim não gostam de desculpas. Só quero ver onde isso vai dar…

 

Por Jornaldo

Leia Capítulo III. 

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