Capítulo VI – FUTEBOL SEM TEMPERO, MAS O PAÍS TEM GOSTO

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TERCEIRA PARTE

::Capítulo VI –  Caí de boca   

 

Depois de aceitar o desafio, meu boteco mudou.

Não é mais uma espelunca. Tião e Tim investiram uma grana aqui. O futebol realmente atrai clientes.

Eu continuo no balcão, sempre ligado. O movimento aumentou significativamente, mas mantivemos meu sistema: nada de fiado e expulsamos os ‘chave de cadeia’.

Cat Blake começou a trabalhar na bar de graça, pra pagar sua dívida. Ninguém sabe de onde veio. Ela conta que foi abandonada pela família, cresceu num orfanato e foi salva das ruas por Bigode.

Tim diz estar tudo controlado, mas já vi eles se pegando. Transam no depósito. Meu medo é de uma recaída. Porque ele provavelmente sente o gosto do pó que ela cheira todo dia.

Os dias passam e as coisas estão quase 100%.

Tião mantém Bigode na rua e longe da cachaça. Tim trabalha bem e continua limpo.

Mas nosso problema chama-se Cat Blake. Não sei se isso é nome, só sei que esse é o único nome que sei. Ela se mostrou, com o tempo, uma jogadora poderosa.

Isso se confirmou após minha conversa com Tião:

– Aí Zaca, preciso levar um papo reto com alguém de confiança. Só conheço você de mais velho, então…

– Diz aí, o que tá pegando.

– Cara, olha só… esse papo tá me deixando agitado… preciso falar com alguém e você é o cara.

– Eita, faz tempo que você não começa um papo desse jeito. O que tá pegando?

– Porra, véio… se liga na fita… depois da briga da Cat, lá na rua com o Bigode e mais aquele playboy, levei ela embora.

– Sério? Nem sabia…

– Verdade. Levei primeiro o Tim, que tava todo sujo de sangue e depois ela.

– Sei. E aí…

– Então… a parada foi a seguinte:

Já era tarde e tínhamos fechado o bar. O sol dava as caras. Eu e Tião fazíamos alguns cálculos, todo mundo já tinha saído.

Tião continuou:

– Então, Zaca, eu tava levando ela pra casa, tá ligado… ela ficava me olhando, dava pra perceber. Sabe quando você sente…

– Tá e daí?

– E daí? E daí? Cara, do nada aquela gostosa chegou perto do meu ouvido e sussurrou algo… eu nem entendi o que ela falou… só senti um cheiro de álcool… aí ela desceu… e o resto é história…

Naquele dia a conversa foi longe. Vários detalhes. Mas o que importa é que Tião, pela primeira vez, demonstrou sentimento. Eles ficavam juntos sem ninguém saber.

Com o tempo a coisa foi ficando cada vez mais estranha.

Esses dias mesmo escutei a Cat Blake falar: “o Bigode vai lá? Então manda o Tim junto pra garantir!”.

“Cat Blake dando ordens? Que porra é essa” – pensei comigo.

Tim e Bigode saíram de táxi.

Pouco depois um menino da contenção veio perguntar do Tião. Eu disse que não tinha chegado, mas o moleque afirmou que viu ele entrando pelos fundos.

Olhei ao redor e não vi Cat Blake. Aí tudo fez sentido.

Fui, na espreita, ao depósito. Assisti a foda dos dois. Uma bela cena de sexo. Um momento tão grave e excitante…

Aquilo poderia acabar com nosso esquema.

Voltei pro balcão. Fiquei na minha. Depois ela voltou. Tião não.

Já no bar ela me lançou um olhar como se soubesse da minha ‘espionagem’.

Que mulher!

O problema é que esse lance deles ficou frequente e estava me incomodando.

Esses dias aproveitei que estava sozinho no balcão com ela e joguei um papo reto:

– Aí, menina, se liga: dá uma maneirada no seus ‘lance’ com o Tião aqui no bar. Ok?

– Hã? Que pira, Zaca? – e chegou mais perto de mim.

– Você sabe…

Antes de terminar a frase ela já estava bem perto. Fingiu conferir alguns lançamentos no computador, aí desceu uma das mãos e pegou no meu pau. Saiu de perto e foi em direção ao depósito.

Não resisti e a segui.

É como dizem, ‘pensei com a outra cabeça’.

Cheguei lá e pensei: “agora vou entrar no jogo”.

Minha certeza é uma só: sei fazer melhor que aqueles dois irmãos.

Então caí de boca na boceta dela.

 

Por Jornaldo.

Leia Capítulo V.

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