Capítulo VIII – FUTEBOL SEM TEMPERO, MAS O PAÍS TEM GOSTO

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TERCEIRA PARTE

::Capítulo VIII – Aos 45 do segundo tempo

Naquela pasta tinha um pouco de tudo. A vida dele em detalhes, escrita num caderno antigo, com páginas emendadas e sujas de sangue. Apesar dos relatos, o que mais me chamou a atenção foram os documentos que, imagino eu, ele roubou de Tião.

Da parte pessoal, coisas como sua luta pra se livrar das drogas, seu respeito por Tião e as declarações de amor a Cat Blake provavelmente não condizem com o que ele sente agora, mas, uma coisa é certa, ele voltará pra buscar esses documentos.

Lembro-me de Tim com carinho, mesmo quando tinha suas bad trip e aparecia aqui na minha casa pela manhã, virado de noites sem dormir, arrependido de algo que tinha feito. Batia na minha janela, eu o recebia e dava um remédio pra ele dormir.

Depois, quando acordava, minha mulher preparava um rango. Dificilmente ele comia o prato feito, sempre estava com pouca fome naquela época. Mas nunca deixou de agradecer o alimento e pedir benção pra minha ‘nega’, que o protegia em suas orações.  Aí saía em direção ao incerto.

Agora lembro que ele era tão apaixonado por Cat Blake que me dá um arrependimento…

Mas só de lembrar ‘aquele dia’, já fico de pau duro. Que merda. Sei que traí minha nega e meu menino. Me sinto um lixo.

Passaram-se horas. Minha ‘nega’ está com o almoço quase pronto. Esses papéis roubaram meu sono. Os coloco de volta numa pasta e, antes de fechar o diário, vejo o nome do Tião e da Cat Blake escritos com o que parece ser sangue.

Então, subitamente, batidas forte na porta de casa.

– É Tim! – diz minha ‘nega’.

Ele chega acelerado e diz:

– Zaca, você leu aquela papelada? – fiquei sem saber o que dizer, pois não havia dormido, fiquei lendo tudo aquilo.

– Li – disse.

Aí ele ajoelhou e chorou. Disse que as coisas vão piorar e que não era mais pra eu aparecer no bar. Eu o contrariei e disse que iria lá.

Ele me pegou pelo pescoço e disse:

– Vou matar todo mundo lá! Esses documentos vão servir pra você foder com o Tião, caso alguma coisa dê errado. Guarde isso. Você viu que tem coisa até do tríplex do Guarujá, então já sabe…  – virou as costas e saiu.

Tim resolveu caçar os dois. Tião me ligou, perguntou como estava Tim e o quê ele tinha dito pra mim.

– Como você sabe que ele veio aqui?

– Botei gente pra seguir ele, já to sabendo que ele recaiu, está fora de controle, tenho que ver o que vou fazer. Logo vou aí!

Tião chegou dizendo:

– Bigode e Cat acham que eu devo matar Tim. O que você acha?

– Como é que é? Ele é seu irmão, porra!

– Mas vai foder com nosso negócio. O que você quer que eu faça? Vá pra cadeia com ele?

– Só acho que ele iria por você… ou por mim.

– Não sei… ele voltou a cheirar, fumar pedra… eu não posso deixar mais nada na mão dele. É como Cat disse ontem, ‘ou eu mando ele pro inferno ou quem vai sou eu’, não tenho escolha.

– Você tem uma conselheira agora, Tião?

Ele me olhou e disse que estava resolvido.

– Vá ao bar normalmente – abriu a porta e saiu.

Olhei pela janela, o vi pegar o celular, provavelmente foi dar a ordem de execução do seu irmão. “Ele ainda não sabe dos documentos” – deduzi que Tim roubou toda papelada.

Porém agora Tião enfrenta uma situação inédita, achar outra pessoa competente pra fazer o serviço sujo, já que quem sempre fez isso foi Tim.

Passado um bom tempo, tomei coragem e fui ao bar. Cheguei lá e vi um Tião nervoso, dizendo que nem seu mensageiro nem o pessoal da contenção respondiam suas ligações.

“Provavelmente só Tim ainda estava vivo”, pensei comigo sem poder festejar.

Bom… apesar de todo nervosismo do momento, a festa não pode parar. Então o bar funcionou normalmente.

Nesse jogo ninguém é insubstituível. Aqui não tem Pelé e nem Neymar, mas tem Adriano Imperador. Quem não lembra o gol inesperado que ele fez contra a Argentina, no finalzinho do jogo, na Copa América. Foi bem assim, de surpresa, fulminante, aos quarenta e cinco do segundo tempo, já na hora de fechar o bar, que apareceu Tim.

Quem estava ligado no que acontecia resolveu ficar por aqui por questões óbvias: medo de morrer. Na escuridão da Vila, somos todos alvos fáceis.

Agora estamos eu, Tião e Cat Blake.

Tim chega alucinado, com arma em punho, rendendo todo mundo.

– Não tem mais ninguém Tião.

E antes dele responder ou ao menos tentar qualquer tipo de comunicação, leva um tiro na cabeça.

Foi uma morte sem tempero pra uma pessoa como Tião. Sempre imaginei que ele fosse mais longe, devido ao seu potencial, mas Tim resolveu mudar o destino do irmão.

Após o disparo, Cat Blake lacrimeja. Obviamente que isso não comove Tim. Espero que ele não saiba o que aconteceu comigo e com ela, mas imagino que não escaparei dessa chacina.

Foi quando, num piscar de olhos, Tim levou um tiro pelas costas. Isso mesmo! Eis que surge Bigode…

Ele estava escondido no seu táxi. Outra morte sem tempero, um tiro pelas costas, certeiro, na cabeça.

Tinha esquecido completamente de Bigode, mas sei que ele joga no time da Cat Blake.

“Será que tudo isso tá armado?” – penso comigo. Se sim, “estou fodido”.

Só digo uma coisa: antes de sair de casa pra vir ao bar, preparei minha mulher pro pior. Logo que Tião saiu, ela veio perguntar o que estava acontecendo.

Tinha que saber exatamente o que dizer, pois, sem dúvida, ela joga no meu time.

 

Por Jornaldo.

Leia Capítulo VII.

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