CIMI atua em defesa dos povos indígenas em Rondônia

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Cimi Regional Rondônia vem realizando ações de enfrentamento à covid-19 juntos aos povos, com cestas básicas, kits de higiene e denúncia das invasões aos territórios

Por Adi Spezia, com informações do CIMI Rondônia

Se de um lado o avanço do novo coronavírus tem deixado as comunidades indígenas em pé de alerta, por outro, as invasões dos territórios tradicionais têm preocupado as lideranças e organizações indígenas e indigenistas em Rondônia. Com um largo histórico de invasões nos territórios por posseiros, grileiros, pescadores, garimpeiros e madeireiros, a pandemia torna essa ameaça à vida ainda mais grave, pois estes invasores se tornaram também agentes disseminadores da covid-19 entre os povos.

Não raro, os indígenas presenciam os invasores circulando em torno e dentro dos territórios, como tem sido com os Karipuna e Uru-Eu-Wau-Wau. “As próprias lideranças fazem o monitoramento e fiscalização, pois o governo se nega a proteger os territórios e, assim, os indígenas ficam à mercê dos invasores”, relata Cyntia Regina Marques da Silva, coordenadora do Conselho Indigenista Missionário – Cimi Regional Rondônia.

“O governo se nega a proteger os territórios e, assim, os indígenas ficam à mercê dos invasores”

Registro da barreira sanitária na Aldeia Lage Novo, organizada pelos indígenas para barrar a entrada do vírus. Foto: Cimi Regional Rondônia

A falta de fiscalização por parte do Estado agrava a situação de invasões e práticas predatórias nos territórios indígenas em Rondônia. Em abril, o professor e liderança indígena Ari Uru-Eu-Wau-Wau foi assassinado. Ele fazia parte de uma equipe constituída pelo próprio povo para fazer a vigilância de suas terras. No início deste mês, o Cimi Regional Rondônia publicou uma manifestação sobre a situação preocupante dos indígenas no estado, em especial os que se encontram em isolamento voluntário.

Os povos indígenas em contexto urbano, além de terem sido expulsos de seus territórios tradicionais, enfrentam o descaso e a falta de assistência à saúde. “Nós não estamos tendo atendimento básico no que se trata da covid-19. Muitos dos nossos parentes já foram a óbito e nós nem sequer aparecemos na lista de registro dos casos de indígenas de covid-19”, denuncia Rosa Maria Guarasugwe, que mora na capital, Porto Velho.

A negligência do governo federal tem levado à morte muitos indígenas por falta de recursos e materiais apropriados para o combate do novo coronavírus, tanto em contexto urbano como nas aldeias.

“Nós não estamos tendo atendimento básico no que se trata da covid-19. Nem sequer aparecemos na lista de registro dos casos de indígenas de covid-19”

As máscaras que compõe o kit de higiene foram confeccionadas pelas mulheres nas aldeias com tecidos doados. Foto: Cimi Regional Rondônia

A liderança Guarasugwe quer saber por que o Estado brasileiro se nega a dar atendimento a esses povos indígenas que estão fora do seu território tradicional. “Se nós estamos fora do nosso território tradicional, não é culpa dos indígenas. A maioria desses indígenas tem território sim, mas se encontra na mão de invasores”, lamenta a liderança.

De Guajará Mirim, o segundo maior município de Rondônia, Eva Canoé conta que, para os povos indígenas, os óbitos inseridos no cálculo da estatística da covid-19 não são simplesmente números. “São vidas humanas. Vidas que estão sendo ceifadas pelo descaso, pela falta de estrutura, por falta de políticas públicas que realmente atendam à demanda da população indígena”. A liderança do povo Canoé, crítica como tem sido em todas suas intervenções, faz um lembrete: “esse mísero atendimento à saúde indígena não é nenhum favor. É um direito”.

“São vidas humanas. Vidas que estão sendo ceifadas pelo descaso, pela falta de estrutura, por falta de políticas públicas”

Registro da entrega das cestas básicas e kits de higiene ao Povo Uru-Eu-Wau-Wau. Foto: Cimi Regional Rondônia

Direito este que tem sido historicamente negado aos povos indígenas em todo país. Para Rosa Maria, há uma diferenciação para o Estado brasileiro de quem é mais índio e quem é menos índio. “Estamos cansados, foram muitas mortes, muitas vidas que os indígenas perderam e nós não temos nenhuma política de básica para esse atendimento, quando se trata desses indígenas que vivem em contexto urbano. A esperança vai se acabando, junto com nossas histórias que estão sendo enterradas”.

Essa tem sido uma dupla morte, os povos sofrem com a morte de seus parentes pelo vírus e sofrem mais ainda, porque com eles está se indo o legado e a cultura de seus antepassados, lamenta Vera Lucia Gabriel, do Cimi Rondônia. “Resta a luta contra os invasores e o avanço da covid-19, na esperança de que dias melhores virão e que o governo possa garantir aos povos indígenas seus direitos descritos na Constituição de 1988, estejam eles em seus territórios ou em contexto urbano”, esclarece Vera.

“Estamos cansados, foram muitas mortes. A esperança vai se acabando, junto com nossas histórias que estão sendo enterradas”

As ações organizadas pelos Cimi Rondônia buscam amenizar os impactos da pandemia junto aos povos. No registro a entrega de cestas básicas em Guajara-Mirim. Foto: Cimi Regional Rondônia

Ações de enfretamento à covid-19

Com o apoio de organizações, entidades e colaboradores, o Cimi Regional Rondônia tem organizado uma série de ações de enfretamento à covid-19 juntos às comunidades indígenas que vivem nas aldeias e em contexto urbano. Foram entregues cestas básicas completas com frutas, legumes e verduras, kits de higiene e máscaras de proteção pessoal.

A partilha tem sido possível pela solidariedade de organizações como a Arquidiocese de Porto Velho, Dioceses, Caritas, Instituto Madeira Vivo, CLAR, Greenpeace, Enterculturas, Misereor, Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (AGIR).

“Resta a luta contra os invasores, o avanço da covid-19 e para que Governo garanta aos povos indígenas seus direitos constitucionais”

Registro da entrega das cestas básicas e kits de higiene na aldeia Ribeirão, do Povo Oro Wari. Foto: Cimi Regional Rondônia

As ações organizadas pelo Regional buscam também fortalecer as práticas realizadas pelos indígenas, como as barreiras sanitárias, instaladas na entrada dos territórios para conter o avanço do vírus nas aldeias.

Na Terra Indígena (TI) Igarapé Lage, ainda em março, todas as visitas de não-indígenas foram suspensas nas aldeias devido ao avanço e interiorização do novo coronavírus. “Para nossa prevenção, nós construímos um portão na entrada da aldeia”, conta Arão Oro Waram Xijein, liderança da aldeia Lage Novo. Já na TI Pacaas Novos, a faixa alerta os desavisados: “Proibido a entrada de pessoas que não sejam moradores”. “Queremos impedir a entrada de não-indígenas e pescadores, para preservar nossas vidas”, afirma Milton Oro Nao, liderança da aldeia Capoeirinha.

“Queremos impedir a entrada de não-indígenas e pescadores, para preservar nossas vidas”

Registro da entrega das cestas básicas e kits de higiene ao Povo Cassupa. Foto: Cimi Regional Rondônia

Outra frente de atuação tem sido a comunicação, intensificada com o isolamento e aplicativos de trocas de mensagens. As lideranças gravaram vídeos alertando sobre a covid-19 e orientando como se proteger da doença. Eles têm sido uma ferramenta fundamental na disseminação das informações nas aldeias e no contexto urbano, conta Cyntia. Ela ainda completa: “com o isolamento, a prevenção e o uso tradicional dos remédios foram intensificados pelos próprios indígenas, resgatando suas práticas tradicionais de prevenção e cura”.

Campanhas de doações

Em todo país, o Cimi tem organizado ações de enfrentamento à covid-19 com o apoio de organizações parceiras, simpatizantes da causa e agências de cooperação nacionais e internacionais. A entidade busca fortalecer as medidas adotadas pelas próprias comunidades, respeitando sua autonomia e organicidade de cada uma delas.

“Temos três desafios: pandemia, conjuntura política do atual governo e as invasões em terras indígenas”

Os pedidos de apoio e solidariedade têm vindo de todas as regiões do país. José Luis Cassupá, que vive em Vilhena (RO), aponta três grandes desafios dos povos indígenas, no enfrentamento dos quais contam com o apoio e solidariedade de organizações como o Cimi. “O primeiro é a pandemia que afeta os povos indígenas em todo o Brasil. O segundo é essa conjuntura política do atual governo e o descaso com os povos indígenas e nosso direito constitucional. E o terceiro são as invasões em terras indígenas, seguidas do garimpo ilegal, roubo de madeira, desmatamento e loteamento ilegal dessas terras”.

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