Conheça o projeto Poetas da América

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Textos e imagens de escritores que fizeram História e não constam no mercado editorial brasileiro

Por Pedro Carrano
Mate, café e letras

Quem conhece a poesia do boliviano Oscar Cerruto, ou do poeta negro jamaicano Claude Mackay, ou da nicaraguense Arlen Siu? O projeto Poetas da América foi feito em 2009, quando o mosaicista Javier Guerrero selecionou um escritor e uma escritora de cada país do continente, do Canadá à Patagônia, abrangendo também o Caribe. Selecionamos uma poesia de cada, Fátima Caballero fez as traduções e eu fiz um texto de perfil dos autores. Javier produziu 44 quadros em mosaico, que já foram expostos na Biblioteca Pública do Paraná.

Estou voltando a publicar os textos na fanpage Vértebras, crônicas e poesias

São autores dificilmente conhecidos do público, ausentes do mercado editorial brasileiro, o que é uma pena: precisamos conhecer a poesia nicaraguense produzida de forma massiva e de qualidade durante a revolução sandinista, a poesia do gigante Roque Dalton, de El Salvador, menor país do continente, a diversidade da poesia caribenha e de seus autores que a levaram aos EUA. Precisamos conhecer as escritoras deste continente, rompendo um histórico geralmente construído para os homens.

Temos poemas no pequeno continente da América Central que são a síntese do fazer poético somado à preocupação social:

Poema de amor
Roque Dalton

Os que ampliaram o Canal do Panamá
(e foram classificados como “silver roll” e não como “golden roll”)
os que prepararam a frota do Pacífico nas bases da Califórnia,
os que apodreceram nos cárceres da Guatemala, México, Honduras, Nicarágua por ladrões, por contrabandistas,
por vigaristas, por famintos
os de sempre suspeitos de tudo
(“me permito remeter-lhe ao assassinado por malandro suspeito, com o agravante de ser salvadorenho”)
os que encheram os bares e os bordéis de todos os portos e as capitais da zona
(“La gruta azul”, “El Calzoncito”, “Happyland”),
os semeadores de milho em plena selva estrangeira,
os réis da crônica policial,
os que nunca sabem de onde são
os melhores artesãos do mundo
os que foram cozidos a balaços ao cruzar a fronteira,
os que morreram de malária ou de picadas do escorpião ou a febre amarela no inferno
das bananeiras,
os que choraram embriagados pelo hino nacional sob o ciclone do Pacífico ou a neve do norte,
os arrimados, os mendigos, os maconheiros,
os guanácos filhos de uma grande puta,
os que penosamente puderam regressar,
os que tiveram um pouco mais de sorte,
os eternos indocumentados,
os fazemdetudo, os vendedetudo, os comedetudo,
os primeiros em tirar a faca,
os tristes mais tristes do mundo,
meus compatriotas,
meus irmãos
Arte em mosaico de Javier Guerrero

PERFIL. O quanto a palavra baleia, golpeia, incendeia? Esta é a inquietação que nos deixas. Tua palavra, guerrilheira, atravessou a história de El Salvador: as migrações, as picadas de cobra nos roçados, a insurreição de 1932, a guerra do futebol contra Honduras. Tua palavra mapeia? Onde ficava o pequeno país antes do teu canto? Já advertias que em El Salvador “Todos nacemos medio muertos, medio vivos” na grande rebelião de 1932. O poema político. Maior que Brecht foi Roque Dalton, meus amigos.

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