CONTO | A céu aberto

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Por Pedro Carrano, do livro Meninos sem Matilha, a ser publicado em breve.
Terra Sem Males

A água nunca tinha sido ouvida. Ela transbordava da lagoa no alto da chácara do velho Fran, escoava por uma tubulação, contornava toda a vizinhança, as casas dos meus amigos, e passava bem debaixo do quintal de casa.

O mês era de muita chuva.

O muro que separava nossa casa do terreno do velho começava a se inclinar. Não entendíamos como ainda ficava de pé. O muro não tombou, mas em pouco tempo o problema ficou descoberto: a manilha dentro do quintal estava fora do lugar, as águas da enxurrada se espalhavam e comiam a terra, o piso e tudo o mais, destruídos fácil como paçoca. Foi preciso que abrissem um buraco no quintal e outro no muro pra escoar o aguaceiro.

A partir daí não pudemos mais usar a porta dos fundos. A mãe tem horror a qualquer tipo de sujeira, ainda mais pó de construção. Os pedreiros começaram as obras martelando o piso que ainda restava. Quando o buraco já era maior que uma pessoa, uma poça foi crescendo. Não parou mais. Desviaram a enxurrada terreno abaixo, o líquido serpenteava pela grama, procurando caminhos, trovejando de um jeito que os vizinhos se assustaram e vieram ver o que era aquilo.

Quando chegou do trabalho, meu irmão fez pouco caso da novidade do dia, nem foi até o quintal saber do buraco. Ele precisava ler as pilhas de xerox, escrever a tese de doutorado deixada pros quarenta e cinco do segundo tempo. “Estou o dia inteiro sem comer”. Aquele barulho não o deixou nem um pouco curioso.

Nos outros dias a obra continuou e pra gente era a glória, como se um pedaço da lagoa passasse dentro do nosso quintal, carregando folhas peixes galhos. Às vezes um filete de água, às vezes uma enxurrada. Eu e a piazada tivemos a ideia de jogar uma garrafa onde a tubulação começava, com uma perereca viva dentro, lá da lagoa na chácara do velho Fran, e esperar a sua chegada em casa. A navegação que ela faria por dentro da terra e da tubulação cutucava a nossa mente só de imaginar.

A manilha ficava perto da terceira margem da lagoa, era preciso remar até lá. Remamos na chuva. Na chuva não tinha perigo, o Velho Fran não se aproximava e só atirava com a espingarda de chumbo da sacada da sua casa, encoberto pelas árvores.

Depois de horas de espera, quase de noite, só o fundo da garrafa apareceu em casa. A perereca, nosso capitão Jim, não foi feliz. No dia seguinte, empolgados, tentamos de novo, com uma garrafa de plástico e uma perereca menor. A garrafa chegou suja e amassada. A perereca não suportou. Com dois gravetos, nós a crucificamos às margens do buraco de casa, os dois bracinhos pregados com grampo, até que a próxima enxurrada levasse embora o nosso “jesus”. Foi assim que o batizamos.

Eu chamava o meu irmão pra ver, narrava tudo o que acontecia, mas ele não tinha tempo, ainda nem tinha dormido naquela semana, empolgado com os novos capítulos da tese. Eu perguntava se dormir não era bom, “Praquê? Já li oito livros só essa semana, brodinho”. Mas eu guardava um segredo, só dormindo ele iria descobrir.

A correnteza daquela água não devia nada pra força musical dos grandes rios. Eu insistia pro meu irmão relaxar um pouco e fechar os olhos, pra daí sonhar com o que eu vinha sonhando a semana inteira. Não queria dizer o segredo, mas não teve jeito: eu atravessava a cidade em um trem, a toda a velocidade. Ele riu e disse que eu estava em fase de crescimento, era por isso, uma hora os sonhos iam se acabar. “Meu trem é outro”, e mostrou o calhamaço do seu projeto. Fiquei desconfiado do aviso do meu irmão. Pra tirar a dúvida, medi a minha altura. Continuava a mesma. Não podia ser isso. Por vingança, recortei uma reportagem sobre os males do café, do guaraná em pó e do chimarrão em exagero. Mas ele retrucou: “Não tomo mais nada desde o começo da semana, estou num ritmo alucinante, só no fôlego, brodinho.”

Outras coisas aconteceram naqueles dezessete dias de obras: o nosso cão e alguns vira-latas andaram se pegando através da abertura do muro. A mãe ficava neurótica com medo de assaltos. O Velho Fran começou com uma história de que a água das chuvas que transbordava da lagoa também era propriedade sua e não iria mais passar pelo nosso quintal. O velho planejava construir uma piscina e um tanque de pesca, quem sabe até um pesque e pague. Ameaçava fechar a entrada da manilha. Outros vizinhos apareciam pra uma conversa sobre a possibilidade de desviar o córrego pro quintal deles. Mas nada daquilo tocava o meu irmão, ele sempre pensava em algo diferente do exigido.

Eu queria saber apenas do ritmo dos meus passeios de trem. Só que uma noite fui jogado à força pra fora do vagão onde era levado. O trem silenciou e sumiu no trânsito da cidade, sem nem apitar uma última vez, como se fosse um carro comum, obedecendo às leis de trânsito e sumindo rapidamente no horizonte. Tentei correr atrás, mas quem disse que a gente consegue correr nos sonhos? Acordei, com medo de estar com alguma ferida. Fui ao banheiro e achei estranho: pela primeira vez tudo estava em silêncio, nada do barulho das águas, nada dos golpes do meu irmão nas teclas do computador. Passei pela escrivaninha dele e não havia ninguém.

Então fui até o quintal, seguindo um método oposto ao dos cegos: eu caminhava tateando um barulho ausente.

Dei a volta pelos fundos, o cachorro já me esperava no portão, com o jeito de quem quer ser o primeiro a contar uma notícia. O buraco finalmente estava tapado, o muro reforçado, e as propriedades bem demarcadas novamente. Tudo seria como antes, só faltavam os azulejos novos. O estranho foi ver meu irmão ali, encostado no muro, com um cigarro apagado na boca. Nós dois estávamos juntos, olhando o céu daqui deste chão batido. O cigarro apagado. As estrelas também.

Finalmente ele bocejou.

(pra Raquel Carrano, aqueles dias fantásticos)

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