CONTO | Memorial do velho Jonas (ou última carta a Nínive)

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Por Pedro Carrano
Mate, café e letras
Terra Sem Males

Fui visitá-lo talvez num mau momento. Só que não contive o impulso, afinal fazia muito tempo que não encontrava o seu Jonas. Quando me dei conta, eu já estava vivendo há pelo menos um ano no mesmo bairro que ele. Como vivemos muito mais no trabalho do que com os pés no território, era natural que a correria jogasse esse compromisso pra frente. Ou então era eu que evitava encontrá-lo? Pode ser, até porque não ordenamos bem essas coisas. Mas quando percebi, caminhando pela vila e revendo velhos integrantes da associação de moradores, eu já estava em frente à casa de Jonas.

Mentira, não houve casualidade, eu já estava programando e adiando, há muito tempo, esse encontro. A sua casa de madeira verde trazia logo no portão da entrada o cartaz de um candidato a vereador, mostrando que o velho ainda era referência na política do bairro. Foi a esposa, dona Josefa, quem veio à porta, distraidamente abrindo alas pra mais um sujeito que visitaria o Jonas, o seu Jonas, o velho. Os cães e os gatos não se deram ao trabalho de me receber e em pouco tempo os cômodos minúsculos foram atravessados. Cheguei ao quarto onde ele estava na cama.

A imagem, filme que corre rápido na cabeça e não se encaixa no momento. Era ele mesmo, com quem participei da ocupação de vários terrenos, em 1991. Vinte cinco anos depois. Uma vida. Meus filhos. Os netos dele. Tudo cabia dentro daquele período. O tempo pesou. Sobretudo pra Jonas, com 89 anos, a respiração frágil, aquela mão direita carregada de dedos decepados, o corpo magro agora quase sumindo debaixo das cobertas. A luminosidade do cinza de Curitiba entrando pela janela e iluminando as rugas morenas.

Seu Jonas não me reconheceu. Ele estava quase cego. Meu envelhecimento e mudança também foram gritantes. A meu lado, eu trazia comigo um estudante de jornalismo que desejava narrar em livro a história das ocupações daquele período. Jonas, a principal referência. Ele sabia disso e recebia ainda o pedido de apoio de vários candidatos à prefeitura e à câmara de Curitiba. Cartas, panfletos, cartazes. A TV, das poucas conexões permanentes de Jonas com o mundo exterior, ficava girando rostos de candidatos a cada comercial. Alguns haviam abandonado Jonas com promessas. Nunca mais apareceram pra visitá-lo a não ser na telinha. Havia certo rancor e lágrima com isso, expresso num silêncio e numa tosse prolongada.

Apresentados como dois jornalistas a ele, o velho agradeceu a visita, tossiu um pouco, e logo engatou uma narrativa de memória falando subitamente sobre mim, ou a pessoa que eu era e que ele achava que estivesse longe daquele quarto. O estudante me olhou e, com a cabeça, sinalizei que ele continuasse dando corda pra narrativa de Jonas. O velho que hoje estava dentro do quarto com o seu nome trazia o mito do homem no estômago da baleia, incrustado dessa vez na sua última viagem, numa viagem mesmo que imóvel, numa viagem mesmo que sem ida ou mesmo que sem volta.

Que importa. Ele descreveu com detalhes coisas que vivemos juntos naquela série de ocupações, na condição de principais líderes: ameaças e madrugadas em claro, articulação com vereadores, todo o tipo de desventuras – lágrimas que escorreram de nós três e até de dona Josefa, que da cozinha preparava chimarrão e escutava todo aquele memorial.

Ao final, o velho Jonas ainda sugeriu uma imensa mágoa que carregava comigo, estendia a mim o rancor que guardava com outras pessoas que o abandonaram. Mas não era só o eclipse político. Ele ainda narrou a seu modo um episódio que, na minha memória de sexagenário, eu simplesmente não ordenava, e que na época foi passível de um processo judicial: um terreno em disputa e que eu teria roubado de Jonas. Mas não pude dizer nada. Fiquei triste também com nova opinião de Jonas de que eu havia abandonado tudo em troca de conforto e aceitado ser realocado pela prefeitura pra uma casa bem longe dali, onde ele estava agora, onde não teria recebido nada, e onde o chão fora conquistado pelo povo dali mesmo, com esgotos a céu aberto e nenhum papel de garantia.

Na hora, aproveitei e disse que me conhecia, o tal do seu José – falei com distância de mim mesmo – e aproveitei pra também revelar algumas mágoas profundas que eu guardava com aquele período, com algumas decisões de Jonas, seu modo autoritário, falei sobre coisas que eu nunca havia lhe dito na vida. Ele negou, disse que o José estava errado. O estudante ainda perguntou se ele não gostaria de me reencontrar, ao que ele respondeu que não. Nunca mais.

Mesmo assim, apesar das desavenças entre Jonas e aquele personagem distante que eu era agora, de todo modo aquela memória, aquele ponto em comum entre duas pessoas que já nem podiam se ver direito, aquele respeito por essa memória, eram o nosso único ponto de conexão, meu e de Jonas, tábua na qual Jonas se agarrava na esperança de mensagem de Deus nenhum. “Eu não vou converter ou mudar aquele cabeça dura do José e nem ninguém”, exclamou Jonas.

Encobertos por uma pessoa que eu não era, conseguimos ao menos dizer o quanto fomos amigos. Jonas cansou-se e cochilou de súbito. O estudante, enquanto ganhávamos as ruas e nos despedimos de dona Josefa, um tanto confuso, ainda quis conferir: “E o que eu faço com aquele processo que ele te responsabiliza? As pessoas perceberiam no vídeo se você der a sua versão. Não é certo com a dona Josefa se souber que a gente mentiu”.

De fato. Não havia espaço pro método comum na narrativa jornalística de expor os dois lados. A versão absurda de Jonas estava gravada. Eu decidi então:

– “Deixa como está. Não vou editar no vídeo o que a vida não apagou.”

“E por que você não pediu o apoio dele pra sua candidatura?”, me perguntou ainda o jovem.

Eu ia responder, mas percebi que o jovem na real estava tirando sarro. Fechei o assunto: “A real é que Jonas não vai pedir apoio nenhum e muito menos voltar a fazer política em Nínive”.

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