CONTO: O pior inimigo, por Pedro Carrano

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Jeremias perdeu a memória com uma porrada na cabeça, que doía, mas ele não se lembrava de nada. Passava então as tardes na sinuca, a pontaria ainda era precisa. O que não acertava mesmo era o lugar onde ele morava, onde trabalhava, onde viveu.

À noite buscava uma marquise pra se proteger da chuva até que o bar do Seu João abrisse no outro dia. Entrava nos comentários sobre política e pensava: como a gente chegou nisso?

Os dias passavam, em meio à cerveja e à chuva de janeiro no aglomerado do boteco. Com o tempo, algo o incomodou: quem era o responsável pelas suas feridas? Desconfiou do dono do bar. Afinal, Seu João se assustou quando Jeremias apareceu ali. Terá sido ele?

Armou o plano. Plantou entre os amigos a notícia de que havia sido morto no bairro. Queria saber a reação. E, escondido atrás dos carros, pressentiu o momento quando Seu João brindou a morte dele.

Jeremias então arrebentou o velho, acertou as contas. Só que mais tarde, recuperando a memória, percebeu que o pior inimigo dele na verdade havia sido ele mesmo.

por Pedro Carrano
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas

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