CONTO | Se eu conduzi o velho animal à morte

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Você sabe que ele já estava velho e incômodo.

E eu que já carregava essa espécie de touro nos ombros, os cascos arrastando em plena areia, aquele peso e ansiedade sobre o cotidiano e sobre o mundo.

Vontade de todos nós de dar fim aquilo tudo. Aquelas páginas dele preenchidas com tudo o que de pior fode a nossa vida. A gente sempre estampado em nossas misérias na página de capa dele, com nossas paredes repletas de jornais velhos, e sem qualquer chance de seguir suportando a situação. Mas, pelo contrário, às vezes até o agradecíamos, na súplica de um afago! 

Nós, que ficamos anos com aquela pelagem cobrindo o espaço da sala, tomando o conforto dos sofás e comprimindo nossos navios, nossos mastros e velas. Cachalote espaçoso, rinoceronte quase extinto, nós o queríamos no fundo bem longe, mas o aceitávamos em nossas telas e também nos livros das crianças.

Você sabe disso, não sei por que me repreende. Se eu sacrifiquei esse bicho sem nome, de tantos nomes? Com um tiro seco, encoberto pelo som das ondas e do vento que não parava? Agora você me vem com a cadência da cobrança. Da expectativa e da avaliação – moral – se eu de fato tive alguma forma de coragem. Não espere muito de um covarde no meio da vida, com algumas fichas ainda nos bolsos, mas já sabendo da plena consciência da própria morte.

Carreguei o bicho, o peso real menor que o peso de décadas nas costas. O bicho tinha uma história, pediu respeito por ela. Eu sabia da sua fragilidade e de que havia chegado o momento de assassiná-lo, dar cabo dele e enfim recomeçar a vida. Mas ele se humilhou, pediu clemência, ciente também de nossa síndrome de dependência.

Recomeçar a vida e acabar com aquele velhaco que nos ferrava e deixava nossos cobertores sempre mais curtos? Os pés gelados na noite de sonho quase nenhum. Eu sei bem da expectativa que foi depositada em mim, eu sei bem o que você esperava, o que nós, o que eu.

Tive a chance, talvez feito um frigorífico, com a faca afiada de ferrugem para fincá-la na nuca do bovino. 

Eu tive a chance de finalmente levar o velho animal à morte. Eu tive a chance. Eu tive a chance.

por Pedro Carrano
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas
Terra Sem Males

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