Contrastes: crônica sobre um dia em Brasília

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

Por: Paula Padilha

Foto: Paula Padilha

Para passar somente um dia em Brasília (a trabalho) e ainda conhecer a capital federal, é indispensável sair de casa na escuridão e observar o nascer do sol de Curitiba. Considerando que a vida se inicia depois das 10h, é uma boa motivação.

Acordei com uma trilha sonora no meu cérebro: qualquer música do Natiruts, grupo de reggae que exalta as belezas do planalto central. Eu já estava no clima: ansiedade, vontade, música na cabeça, sorriso bobo na cara. Tem muita coisa que me faz feliz. Conhecer, seja o que for, me deixa assim, com o sorriso bobo e o coração acelerado.

Na imaginação, veria as obras monumentais de Niemayer lá do céu. E ficaria extasiada com a visão. Acompanhei o voo da janela. Uma hora e 45 minutos aguardando chegar a Brasília com os olhos lá embaixo, para não perder nada. Mas as primeiras paisagens que vi quando o piloto anunciou o pouso foram rios imensos e muitas árvores. Depois vieram as casas, procura, procura, cadê? Pousou. Não vi nada.

Um pouco decepcionada, mas com a motivação renovada. Anda, anda, anda, somente para sair do aeroporto. Já no táxi, avenida imensa rumo à Câmara dos Deputados, onde teria um compromisso de trabalho. Avenida, carros, taxis, árvores, mini-prédios, árvores, árvores. Brasília é um imenso parque, com avenidas no meio.

Anda, anda, anda e depois da curva, eis que surge a imensa catedral diante dos meus olhos. Meu sorriso se abriu, meus olhos encheram de água. O primeiro contato com os monumentos de Brasília. Depois não vi mais nada, já estava dentro da Câmara. Prédio feio, por dentro e por fora.

Do lado de fora me senti sufocada pela quantidade de carros estacionados. Da linha horizontal em que eu estava, achei o Congresso Nacional sem graça, apenas mais um prédio. De perto tudo ficou minúsculo. Eu, a Câmara, o Congresso, uma ruazinha no meio. Milhões de carros. Árvores floridas destoavam desse pequeno momento de hostilidade.

Meu primeiro contato com comida foi o almoço. Fomos até a Vila Planalto. Parecia outro mundo, um bar de praia. Considerei o clima agradável, para relatos de calor insuportável. A comida estava ótima, traíra sem espinho. Na volta, fui presenteada com um tour de taxi por Brasília de verdade. A Brasília aos olhos do mundo.

Percorremos aquela avenida imensa, a da Marcha dos Trabalhadores, a projetada para não ser ocupada. E como é larga. Nesse momento, tudo ficou monumental diante dos meus olhos. Tudo bonito, diferente, extravagante. Esqueci os carros, os taxis, os engravatados e paralisei meus olhos naqueles prédios. Enxerguei o Congresso Nacional. E mais uma vez a felicidade tomou conta de mim.

Não conheci as cidades-satélites, não vi as pessoas da vida real. Mas Brasília, aos meus olhos, não é mais o Congresso Nacional. São as árvores. E para mim faltou o silêncio, o abandono, as ruas vazias. Vou voltar, mas quando puder ver as ruas vazias. Ou ocupadas por pessoas, essas da vida real.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *