CRÔNICA | A greve de futebol

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Por Pedro Carrano

De repente eu recebi, via grupo de zap de amigos de infância, um vídeo com os gols daquela dupla de ataque infernal do Atlético, Oséas e Paulo Rink, num jogo de 1996 contra o Palmeiras. Foi dois a zero para o Furacão e, se bem me lembro, a vitória sobre um time da capital paulista, naquele nível de futebol contagiante dos dois atacantes, era o começo de um processo de autoestima que levaria o clube a despontar nacionalmente.

Receber aquele VT era uma verdadeira máquina de transporte no tempo, com direito às sensações e tudo

O estádio da Baixada, daquele ângulo do vídeo, mais parecia um estádio de bairro, com o alambrado bem ao lado do gramado e uns poucos andares. A má qualidade do vídeo me fez comparar que, quando eu era criança, estranhava as imagens em preto e branco de programas da juventude dos meus pais; e agora era eu que teria vergonha de mostrar aquela qualidade de vídeo pré-histórica para minha filha. A tarde de garoa gélida curitibana me recordou que fomos ao estádio com capas de chuvas amareladas e ridículas que sobravam na casa de um dos nossos amigos.

Receber aquele VT era uma verdadeira máquina de transporte no tempo, com direito às sensações e tudo daqueles anos 90, quem éramos, em que país estávamos. O Furacão vinha com tudo, assim como a juventude e seus sonhos partia com a velocidade do futebol de Oséas dentro de nós. Eu era apenas um torcedor são paulino, mas deixei o contágio daquele jogo me levar.

Quem de nós não ama o futebol? Distraído e atarefado que sou, há muito tempo não o acompanho regularmente, apenas, no máximo, alguma matéria interessante, algum texto de perfil de jogador ou resultado que inevitavelmente ficamos sabendo.

Mas agora confesso que acompanho menos ainda. Ou melhor, não acompanho mais. Não, não estou condenando necessariamente quem, neste período difícil de quarentena, quer ter a sua catarse, distraindo-se com a goleada sobre o Barcelona.

O retorno ao futebol, que de alguma maneira coloca atletas e trabalhadores em exposição, me soa como um dos principais símbolos do descaso no momento em que vivemos. Como se o marketing e o espetáculo não pudessem parar de jeito nenhum. Sentimos uma revolta difusa, ao mesmo tempo em que não podemos nos culpar por tudo em dias complexos como esses, embora a sensação seja inevitável.

As recordações e histórias em torno daquele jogo logo fizeram um dos amigos puxar no grupo de amigos:

– Vamos nos ver, sair pra tomar uma cerveja no Largo.

Não respondi, na verdade.

Nosso grupo de seis amigos de infância incrivelmente sobreviveu a esses cinco anos de combate político nacional sem qualquer rachadura, com respeito aos momentos que tivemos e à memória de uma adolescência de futebol e liberdade pelas ruas de São Brás e Santa Felicidade. Um certo espírito de bom humor e ironia entre nós fez com que conseguíssemos manter um respeito mesmo com histórias de vida e profissões tão diferentes.

Ignorei o convite, embora Moleira, um dos nossos amigos, tenha perguntado onde estou morando no momento. Passei o novo local e apenas desconversei:

– Pra depois da pandemia.

– Todos nós já pegamos covid, respondeu ele.

Na sexta-feira à noite, ouço o interfone do apartamento, vacilo um pouco, penso nas várias possibilidades de interlocutores, mas a voz do outro lado do aparelho de interfone precário era ele mesmo. Moleira, animado, e com o restante da turma gritando nas ruas lá fora, como fazíamos, há vinte anos, atrás antes de sair nas noites do Largo.

– Pedrão, vamos aí tomar uma bera, cara.

Eu justificaria o frio como desculpa? Diria a verdade para eles? O cansaço desses dias ininterruptos de trabalho online e também presencial? Ou falaria do quanto tem me incomodado passar de carro pelo Largo da Ordem e ver o desleixo de todos com a situação do país? Devo dizer a eles que começo a desconfiar que não temos um país?

Ou perguntaria se ao menos traziam máscaras?

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