CRÔNICA: Convoque seu Coach, por Pedro Carrano

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Sempre desconfiei do tal do “coaching”. Mesmo admitindo que conheço pouco ou quase nada seus conceitos e teorias, mas confesso que costumo ficar assustado quando você sacode uma poeira de códigos, nomenclaturas e termos e, ao final, parece não ter muito de realidade ali dentro.

Antes da polêmica da novela “O Outro Lado do Paraíso”, na qual uma jovem que sofreu abuso sexual na infância busca uma “Coach”, eu vivi um episódio que já havia sacramentado a minha desconfiança. Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa, diria Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa.

O episódio aconteceu durante uma pesquisa na comissão de fábrica de uma montadora de Curitiba. Tenho amizade com um dirigente, que me forneceu dados pra minha pesquisa de conclusão do curso de economia política, sobre jornada de trabalho.

Naquela manhã, eu entrei na salinha destinada à comissão. Um lugar agradável, de referência dos trabalhadores, com um toque típico de uma empresa que proclama sua boa relação com o operariado.

Zeca – assim vou chamar o coordenador da comissão de fábrica – entrou comigo na sala e me apresentou Lucia – não me lembro do nome real dela –, sentada à mesa de leitura, folheando a Gazeta. Ela era a responsável pelos cursos de coaching e também pelas visitadas orientadas no interior da fábrica.

Não recordo ao certo como, mas o assunto logo caiu na situação dos funcionários mais jovens e já fomos ali medindo nossas visões opostas. Se pra mim e pra Zeca a empresa recrutava os mais jovens pra evitar pessoas com experiência sindical, pra Lucia era uma forma de a empresa formar o cidadão; se pra nós os benefícios recebidos são resultado da mobilização, pra ela o indivíduo conquistava tudo na base do próprio objetivo individual. Assim fomos esgrimindo nossas distâncias. Se Zeca concordou comigo que havia um excedente de trabalho apropriado pela empresa (um operário de montadora cobre o seu salário na produção em menos de um dia de fábrica), pra ela quem de fato se arrisca é o empreendedor capitalista, pois pode perder tudo aquilo que juntou e apostou na vida. Um valente. 

Lucia então atacou:

– Posso te sugerir algo?

– Sim, pode – estranhei.

– Esse teu ombro.

– Oi?

– O esquerdo. Tenha mais postura e alinhamento, assim desse jeito não passa confiança e atitude.

Zeca só contemplava aquela cena. Eu, da minha parte, venderia a alma pra fugir da conversa. Um sorriso maroto apareceu no rosto de um integrante mais jovem da comissão, do outro lado da sala, refugiado a salvo na tela do computador.

E Lucia foi implacável comigo:

– E esse seu olhar de peixe morto, carrancudo, também não está legal. Corrija isso, deixe de timidez, olhe nos olhos do Zeca! Quero ver. Aponte um foco com esse teu olhar perdido! Demonstre certezas! 

– Lucia, bem… Zeca se constrangeu.

– É isso, menino, eu já enquadrei os peões aqui, estou te ajudando a também ter metas. Né mesmo, Zeca?

O operário sorriu, um sorriso murcho, e logo resvalamos no debate sobre a participação nos lucros e resultados. Na montadora, naquele ano glorioso, cada trabalhador do efetivo havia alcançado sonoros R$ 30 mil. Florete em punho, Lucia atacou novamente: 

– O que os cubanos nunca conseguiram matando pessoas, aqui a gente, nesse ambiente feliz, divide os lucros entre colaboradores e a empresa, ela concluiu, com ar de quem quer decretar um xeque-mate precipitado. 

Foi a deixa. A situação estava insustentável e Zeca derrubou o rei, entregou os pontos e então me puxou pra apresentar outro setor que eu não conhecia da empresa.

– Mais uma coisa.

– Fala, Lucia….

– Aperte a mão com firmeza. Respiração. Pulso firme!

Deixamos a sala, com quem deixa um templo confuso, em meio ao incenso de má qualidade, e isso que nem foi necessária técnica nenhuma de hipnose. 

Zeca andava a passos rápidos, com um silêncio carregado de ansiedade, mas logo eu percebi que, em poucos segundos, ele se explicaria:

– Eles falam bastante, o tempo todo.

– Pois é. 

– Apontam alguns objetivos e tudo. 

– Pois é.  

– É. Nós na comissão ouvimos alguma coisa, mas a maior parte vai pro descarte mesmo!

Por Pedro Carrano
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas
Terra Sem Males

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