Crônica da cidade de Quiriguá (Guatemala)

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Por Pedro Carrano
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas
Terra Sem Males

 

O oceano de bananas se levanta à nossa frente. Onda sem medida. Não tem fim. Atravessa estradas, vilas, comarcas, o horizonte limitado do que vemos.

Toca o céu azul de Guatemala. A divisa com Honduras lhe é indiferente. Nem é fronteiriça sua sede de maré crescente.

Os caminhos poucos, estanques. Ferrovias e a infraestrutura oxidada. Trabalhadores surgem paridos da bananeira. Da “prisão verde”. Dos tentáculos do “octopus”.

1954 – velhos cortadores vêm falar conosco e recordam a greve bananeira, os tempos de grandes vitórias. Não comentam e deixam silêncio sobre as derrotas.

Uma placa, no estreito de terra entre dois mantos verdes, anuncia que é preciso esconder-se quando a extensão for pulverizada pelos aviões. Venenos pendurados nos cachos.

Dentro da fábrica, a esteira não aproveita milhares de cachos. Apenas aqueles de impecável talhe. No cemitério de bananas, e de braços, caminhonetes recolhem o que é possível comer, mas não exportar. Deixam vidas estiradas por ali.

No caminho, conversas com bananeiros, diversas denúncias de más condições de trabalho, desses homens enraizados na ponta do facão que decepa o caule.

Que dizem as estelas de Quiriguá, onde o rei maia imortalizou o nome? Que dizem as estrelas, as cadeias de montanhas, os vestidos originários deixados de lado neste terreno de sol marcial? Qual o nome, debaixo do azul, para as fendas que a mãe terra recebe? À sombra das árvores, em locais de moradia onde homens e mulheres nascem, trabalham e serão enterrados no quintal.

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