Crônica de cidade nenhuma

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Por Pedro Carrano
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas
Terra Sem Males

Ele regressou àquela praça qualquer, no país onde se amaram.

Passados dez anos, ele havia conformado família no Brasil, com filhos, duas casas, um cachorro e um aquário.

A viagem ao país que ele conhecia, e a esposa não, era a tentativa de impulsionar o casamento uma vez mais.

Já ela nunca abandonou nem por um dia a lembrança, o ódio das promessas mentirosas dele, a passagem caríssima no único voo que fez ao Rio de Janeiro, na única tentativa desastrosa de reencontro que haviam tido.

Mesmo assim, a estrangeira sempre esperou, nunca se conformou e seguia mirando as fotos dele via redes sociais.

Na multidão que se concentrava agora na praça, eles ficaram lado a lado e ele numa fagulha de susto a reconheceu, agulha no palheiro que se encontra apenas quando não se busca.

Deu então dois ou três passos para o lado, puxando as mãos da esposa antes que se notasse. A mulher local deve tê-lo olhado, mas não o viu, talvez por jamais esperá-lo na praça central do país, justamente naquele dia turbulento.

Ela seguiu então mirando suas fotos, suas promessas e imaginando se haveria um reencontro.

Dez dias depois estourou uma revolta popular. O resultado naqueles dias era imprevisto e ensurdecedor. Os sinais já vinham aparecendo na movimentação na praça. Mas seria muita coisa para se prever. Já bastava aquela visão momentânea dela.

As agências brasileiras nem chegaram a traduzir a notícia, fatos menores em meio a uma crise política. Mas dias depois a mulher local foi uma das desaparecidas no meio da revolta da multidão.

E foi a vez dele seguir por anos pensando nela e naquela praça e num possível novo reencontro.

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