Crônica do dia 15 de março: Ivete disse não!

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Ivete acordou na madrugada do dia 15 de março, como sempre faz todos os dias do ano, e até mesmo nos feriados, por hábito. E quatro da manhã estava devidamente trajada como cobradora de ônibus. Só que ontem ela sequer cogitou a chance de sair da garagem da empresa de ônibus onde trabalha, na Cidade Industrial de Curitiba.

Ivete nunca havia participado ou se sentido parte de uma paralisação, “quanto mais de uma greve geral”, surpreende-se.

Ivete estava com sorriso sereno, atenta aos informes de outras garagens que também foram trancadas. Também esperava a vinda do presidente do sindicato, figura que ela nunca havia conhecido a não ser em cartazes. Ivete se interessou até mesmo pela situação de outras empresas que aderiram. Ela e seus colegas de trabalho se misturaram com os metalúrgicos de uma unidade ao lado, pararam o viaduto que cruza o Contorno Sul, cinturão que rodeia Curitiba, onde outras histórias como a de Ivete emergiram.

Ela já tem 60 anos, mas sua vida de trabalho, essa sim, de um mundo que não é “linear”: dona de casa, informalizada, costureira, casada, desquitada, mãe, vendedora até chegar à carteira assinada: “Estou aqui na empresa só há 14 anos”, resume. Um colega próximo questiona se, pela transição, ela pode ficar ainda na regra antiga da aposentadoria. Ivete reafirma: vou aqui mesmo na greve, é um absurdo o que estão fazendo com os jovens, é um absurdo mexer desse jeito na previdência, sem ouvir nenhum trabalhador, diz.

Muitos analisam que há décadas não se reunia tantas categorias diversificadas de trabalhadores, no Paraná e no Brasil. No centro de Curitiba, foi possível ver também a cena invertida: jovens, bem jovens, estavam lá, lutando para ter garantido o seu direito a se aposentar ao menos com certo tempo antes da morte. Tudo isso aconteceu em 200 cidades do Brasil, mobilizando cerca de um milhão de pessoas, apesar de todo o esforço de invisibilidade na imprensa.

O representante do RH deu uma pressionada forte, ameaçou, tentou conversar com os colegas de Ivete, que davam de ombros. Para alguns naquela garagem era a primeira experiência na vida em cruzar os braços. Sentiam que agora de fato as coisas estavam tocando na vida deles.

De tarde, no centro da capital onde um ato de 40 mil pessoas havia se finalizado, fiz a cobertura da reunião da prefeitura com os sindicatos municipais. Professores e servidores municipais também possuíam, ao lado da pauta nacional, as questões da campanha salarial. Frente a um céu azul excelente para fotografias e, num momento de distração, o caminhão de som foi tomado por uma trabalhadora da única unidade de saúde que paralisou naquele dia. Ela pegou o microfone e soltou uma das melhores frases: “O governo quer fazer o desmanche do que é público e aumentar o que é privado! vocês estão entendendo isso?”. A resposta foi geral. Por ironia da História, mesmo nos momentos mais difíceis, o trabalho sempre acaba respondendo ao capital, sob os mais diferentes formatos.

Ivete provocava os colegas, não tinha essa de parar, de dispersar, de ir para casa, de dar conversa ao diretor de RH, animou-se quando eu falei de tirar uma foto, que alguns trabalhadores recusaram. Eu não insisti, porém, “Espera aí”, Ivete tratou de organizar todo mundo para aquele memorial da luta, o direito é nosso, a aposentadoria é nossa, não estamos fazendo nada de errado não, ela provocava. E se despediu de mim:

“- Como é boa a sensação quando a gente não aceita tudo né?”

 

Texto e foto: Pedro Carrano
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas

 

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