Crônica | Eu estou aqui dentro

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por Pedro Carrano

Sabíamos que ela estaria em casa para receber uma cesta de alimentos. Embora não tenha celular, nem TV, nem telefone fixo neste momento. Nem número e nem caixa de correio, nada.

Os cães da vizinhança se agitam com nossa chegada. Vivem de buscar água no seu bebedouro generoso. Aquele quarteirão é de Silvia, das suas latas e papelões, ela que vaga pelo centro, pelo bairro, e ao final organiza as cores do lixo.

Silvia mora numa garagem alugada, com direito a banheiro, perto da associação de moradores da Vila Formosa. Uma boa pessoa. Corpo alto e frágil, diz que o peso do carrinho de catar papel, com os anos, vergou sua coluna. O pouco de material que ainda é recolhido é guardado numa caixa d´água, bem organizada, onde o papelão passa por quarentena.

Adentramos a garagem exibida com orgulho. Ela vive é da memória, recortes de reportagens, “Tem essa de um jornal japonês!”, fotos do carnaval curitibano.

Antes de a gente seguir rumo à próxima casa, confesso que doeu um pouco no peito o pedido de Silvia:

“- Vai demorar pra acabar essa pandemia, vocês acham? Eu estou aqui dentro, o dia inteiro. Nunca mais saí desde que começou isso. Eu fico deitada nessa minha caminha. As outras pessoas também estão em casa, não é?”

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