CRÔNICA | Havia manhãs naquele bairro

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Crônica de Pedro Carrano para a coluna Mate, café e letras

Eu e minha filha gostamos de empreender pequenas incursões pelo bairro Novo Mundo, na região sul de
Curitiba. São viagens de baixa quilometragem, que não rendem nenhuma epopeia e mal cabem dentro de uma crônica.

Esse on the road improvisado, de fôlego curto, pode até ser feito de carro, mas o melhor é de bicicleta ou a pé. Às vezes o passeio pode ganhar um tom científico, com o caderno de desenhos levado junto na bolsa, para registrar alguma planta que rompe o asfalto e abre caminho pelos muros – uma experiência que aprendemos numa reportagem sobre um grupo de biólogos de São Paulo.

Essas caminhadas despretensiosas, flanando num sábado vago de manhã, nos mostram um pouco do perfil e da psicologia das pessoas que vivem nesse perímetro urbano, marcado por casas térreas, áreas de ocupação que se tornaram vilas, horizonte quase plano e sem prédios, pequenas ruas sem saída.

Saímos para registrar na cabeça, em busca dessas imagens cotidianas, sem câmeras na mão e com milhões
de ideias fervilhando. Das famosas cidades invisíveis de Calvino, talvez o desafio seja agora encontrar as pessoas invisíveis que constroem o cotidiano daqui.

Cada casa, se alguém prestar bem atenção, revela a sempre criatividade do povo. Pode ser uma planta, um
enfeite, um cartaz improvisado avisando que naquela casa também há espaço para um terreiro de umbanda. Outros cartazes anunciam um jogo de tarô ou uma simpatia para amarrar o amor. Ou ainda podemos encontrar uma quase floresta agroecológica cobrindo casas de madeira, mantendo aquele último laço do velho trabalhador urbano
com o passado rural.

A rua preferida é quando nossa nau desemboca no final da rua Affife Mansur, passada a faculdade Santa Cruz, quando a via se estreita e até desaparece do mapa. Descobrimos um vizinho de extremo bom senso. Seu Artur, metalúrgico, pintor e defensor inconsciente da economia solidária. O jardim da casa dele é repleto de couve, babosas, cebolinhas e outras ervas medicinais que Artur resolveu não guardar para si e declarou num cartaz, que é quase um libelo em defesa da coisa pública:

“Seja educado, não leve os pés, tire folha por folha. Você vai voltar”.

Esse nortenho de Londrina, coração e porta de casa abertos, declina de qualquer rótulo de aposentadoria: “Na fábrica não compensa mais, faço meus servicinhos de pintura aqui na região. Agora, com essas reformas (trabalhista e previdência) sabe lá como vai ficar”.

Não importa se parece ficção, porém ainda nessa mesma rua maluca há um terreno inteiro reservado para um cavalo
cinzento (há uns 10 km do marco zero da capital) e, na casa em frente a de Artur, uma senhora ucraniana e sua filha nos são eternamente gratas por termos salvo a tartaruga de estimação que certa vez atravessava a rua, em plena rota fuga, depois de ter varado a cerca da casa, de uns dois palmos de altura. Por um segundo, cogitamos levar o bichinho com a gente, até descobrir que ele já pertencia à família há uns dez anos.

Manhã de sábado sem nenhuma nuvem não é coisa habitual em Curitiba. Com isso, saudamos o final de semana que começava, ainda querendo apostar que – talvez – não tenhamos chegado à barbárie anunciada por Drummond em meio à segunda guerra mundial, quando o poeta cantou, saudoso: “Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!”.

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