CRÔNICA | Política no ônibus – ou de como pessoas se transformam em seres babantes

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Por Pedro Carrano
Mate, café e letras
Terra Sem Males

Eu voltava do litoral, já no final das férias, e me deparei com uma cena comum – talvez cotidiana – nos dias de hoje. Dois passageiros, no ônibus de Paranaguá a Curitiba, conversavam e o assunto que tomava conta da prosa era a política, nacional e internacional.

Eles falavam alto em meio a um ônibus em silêncio, talvez resultado do cansaço de final de domingo no litoral. Um dos passageiros se reivindicava artista e estava a caminho de Maringá. O outro trabalhava em Curitiba numa empresa, era mais articulado e – como se definia – seguidor assíduo do noticiário da Globo.

É certo: há sempre o risco de cairmos no senso comum ao tentar descrever o senso comum. Mas, ao mesmo tempo, esse bicho bizarro nunca deixa de nos chocar. Fiquei impressionado com a variedade de assuntos que os dois novos amigos abordavam, como tudo estava conectado e, ao mesmo tempo, nada tinha consistência, dados e informações.

A conversa deles começou pelo governo Temer, que o trabalhador de Curitiba reafirmava: “É hora de arrumar a casa, depois vamos ver. Teve muita roubalheira do PT. O governo está muito endividado. E a aposentadoria tem que mudar de qualquer jeito, não tem mais condições”, emendava. Não havia qualquer referência aos cortes de investimentos de Temer em saúde e educação, a não ser a apreensão de que tudo era “inevitável”.

Me segurei para não intervir no debate, mas eu tinha prometido a mim mesmo que, nas férias, não iria entrar em polêmicas, por questões de saúde. Ao meu lado, um senhor também me olhava e se contorcia. Acho que estava respeitando o mesmo regulamento que o meu. Logo depois, o artista emendou: “E a Venezuela, que horror o que eles estão vivendo, né?”

E outra vez era possível rastrear de onde partia toda a informação e visão de mundo: “O problema é que o Chávez e depois o Maduro enganaram o povo. Eles também compraram um monte de armas dos russos e deram para a população”. De voz estridente, o discurso do curitibano se propagava em alto e bom som e confundia, assim que o tema passou para o cenário de violência no Brasil:

“A culpa é do PT que desarmou a população”. O artista, de quem se esperava no mínimo uma visão mais crítica e desconfiada, apenas concordava com tudo: “É, foi muita roubalheira”.

Outros temas iam e vinham, eram articulados numa cartilha que fazia sentido no seu conjunto: Fidel era o ditador sanguinário, em Cuba não há liberdade, Trump, por sua vez, está certo em não permitir a entrada dos imigrantes, o que seria para eles responsabilidade da Europa (como se os Estados Unidos não tivessem qualquer participação nas guerras no Oriente Médio e Norte da África).

Num livro de boa repercussão no final dos anos 1990, chamado “Showrnalismo”, o jornalista José Arbex Jr analisava que a quantidade de informação sem contexto transmitida pelos conglomerados de mídia produzia uma falta de memória coletiva. Ele analisava a cobertura da CNN da primeira guerra de Bush pai no Iraque, quando os bombardeios eram transmitidos em tempo real. Anos depois, ninguém sabia mais reproduzir um dado ou a história da guerra do Iraque, mesmo tendo tido acesso a tanta informação. O que vemos nas conversas também hoje é o predomínio da falta de memória, contexto, História.

Quando o ônibus varou a praça do pedágio – caríssimo – da BR 277, que custa R$18, o artista lembrou que o entorno de São Paulo está apinhado de praças de pedágio mas, curiosamente, esqueceu-se, numa estranha amnésia, de que o governador José Serra manteve por anos o pedágio naquele estado.

No fundo, eu já estava calejado de outras conversas que escutei ao longo das minhas andanças nas férias – muitas das quais bem intencionadas, revoltadas com a política – não sem motivo. Porém, prevalece a constatação de que “político é tudo igual” ao invés de emergir o debate: a saída é uma reforma política.

Quantos diálogos iguais a este assistimos impassíveis em todos os cantos desse país? O que leva a pensar que não temos um sistema de comunicações no Brasil, mas apenas um sistema de doutrinação e propagação de certezas prontas e ódio. A consequência disso está se dando em cada residência, em cada conversa de poltrona de ônibus.

E, marcado pela morte de Dona Marisa Letícia, esposa de Lula, ainda acrescento a esta crônica mais um episódio. Doeu escutar e acabei discutindo com um funcionário de um escritório no prédio onde trabalho. Ele veio com a ironia:

“- Que pena que ela foi morrer agora, o Lula não vai ter ninguém pra visitar ele na prisão”.

 

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