Crônica | Vigilância, militância e resistência: uma luta de todas as bandeiras – de uma frente de esquerda

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Na manhã deste sábado, 19 de maio, eu havia programado resolver problemas pessoais da escrita, pois sou uma mestranda à beira da qualificação e todos os dias os dois lados do meu cérebro entram em conflito, primeiro me sinalizando que talvez eu não esteja me dedicando o suficiente e depois me tranquilizando com o pensamento focado em quais as formas de dar conta.

Mas eu também sou mãe de Carolina, 5 anos, que até mês passado desfrutava de suas tardes ao meu lado, em casa ou por aí, após as aulas, e que por bons motivos profissionais (e com meu cérebro também em conflito me pressionando entre ‘é bom pra ela’ ou ‘você está sendo relapsa’), em maio iniciou contraturno escolar. Portanto, estou passível de fazer planos responsáveis com o meu estudo para o fim de semana e ser interrompida por “mãe, quero ir no acampamento”.

Carolina ainda se refere à Vigília Lula Livre como acampamento porque levei ela até lá na primeira semana. Os motivos foram vários, não porque minha vida seja partidária (porque ela não é, eu penso muito na importância de uma frente de esquerda, que o ex-presidente Lula materializou ao falar sobre isso no encerramento da Caravana Lula pelo Brasil – Região Sul, que reuniu 15 mil pessoas no dia 28 de março, em Curitiba, pouco antes de ser preso, ao lado dos também pré-candidatos progressistas à presidência Boulos e Manuela, no que se tornou ato suprapartidário) mas o primeiro dos motivos é porque Carolina sempre quer estar num acampamento, desses com barracas de acampar.

Pois neste sábado, Carolina quis “dar bom dia ao presidente Lula” (essa licença poética é minha), ato político simbólico e de resistência que acontece todos os dias, a poucos metros da sede da Polícia Federal, em Curitiba, no bairro Santa Cândida, há mais de 40 dias. Então eu adiei meus planos e fui atender esse pedido.

Chegamos já com a multidão reunida na Praça Olga Benário, também simbolicamente batizada, já em coro dizendo bom dia. Ouvimos o ex-ministro Paulo Vanucci discursar de forma muito tranquila e num tom baixinho sobre o quanto a prisão política de Lula representa um ataque às lutas pela manutenção dos direitos humanos.

Vimos os militantes do Acampamento Marisa Leticia, estrutura instalada um pouco distante da vigília, subindo a rua lateral, cantando palavras de ordem em repúdio à burguesia e empunhando bandeiras de diversas mobilizações sociais, sendo recebidos com aplausos pelos manifestantes que lá já estavam.

Acompanhamos a ex-ministra Nilma Lino Gomes ocupar o megafone para falar da luta anti-racista e nos dizer que o caráter mais notório para ela do movimento de apoio ao ex-presidente Lula é a inclusão de todas as lutas sociais e de todas as bandeiras e que foi isso que o movimento negro sempre nos ensinou, da importância da inclusão. Foi um momento emocionante, porque Carolina já tinha conseguido a buzina que pediu para fazer coro com as pessoas que estavam lá e pediu câmera fotográfica do Joka e retratou Nilma no megafone.

Eu não estou diariamente na Vigília. Mas tenho ido com certa frequência. Enquanto jornalista, lá é notícia todos os dias. Enquanto jornalista que integra um projeto de narrativa contra-hegemônica, é somente nesses veículos de comunicação que essa notícia tem visibilidade diariamente. Enquanto militante pela função social do jornalismo, somente estando in loco é que consigo contar as histórias de vida de quem está lá, falar sobre os motivos dessas pessoas, sobre suas vidas que foram deixadas de lado. Enquanto ser político, a Vigília representa uma ágora, uma praça pública em que não podemos ignorar a programação cultural, de formação e de microfone aberto para todas as bandeiras de luta encampadas pelas diversas frentes progressistas: direitos dos trabalhadores, movimento negro, feminista, políticas sociais, reforma agrária, por moradia, pela diversidade, contra as injustiças. Enquanto ser humano, a Vigília também expressa minhas lutas pessoais em que militância e resistência vislumbram um objetivo maior, a longo prazo: por um outro projeto de país, Venceremos! Essa é a minha utopia, ao som de músicas de resistência latinoamericanas, é o que me move em todas as frentes que atuo, enquanto mãe, jornalista profissional, estudante, sindicalista, comunicadora voluntária.

Eu não sei a dimensão que participar de mobilizações e lutas populares ao meu lado terá na vida adulta de Carolina. Mas se esse temor de não vivermos mais uma democracia inclusiva se manter lá na frente (porque de fato, para mim, o que vivemos hoje é as instituições democráticas em pleno funcionamento, mas com objetivo específico de aparelhar privilégios para poucos em detrimento da imensa maioria da população), terei em meus registros afetivos que profissionalmente fiz tudo o que pude para honrar a defesa da função social como estruturante do jornalismo e que pessoalmente proporcionei à minha cria uma educação inclusiva, em todos os aspectos, ainda que ela tenha acesso a muitas divergências ideológicas e de compreensão de mundo sobre o respeito ao próximo, a importância dos direitos humanos e dos movimentos sociais de mobilização popular.

Acredito que somente quem se desloca reiteradas vezes à Vigília e ao Acampamento, desde o início da mobilização permanente, possa resenhar sobre esse movimento único, analisar os mais variados aspectos, e ainda assim, o todo nunca se esgota.

Encerro reafirmando que minha filha participou comigo de momentos importantes desse contexto, do bom dia ao boa noite, ocasionalmente, mas que mantive um recorte temático para levar ela até lá: era sempre em atos com mulheres. Nilma, Dilma, Eleonora, Benedita, Gleisi, Maria do Rosário. Para que ela saiba que esse espaço, o da representatividade, também é nosso, e nós devemos ocupá-lo, enquanto seres políticos.

Em tempo: ainda que eu deixe claro para a minha filha que, enquanto mulheres, devemos participar ativamente de espaços políticos, o mais provável que aconteça se você nos encontrar nas mobilizações, é você ver e escutar Carolina construindo a própria narrativa sobre a prisão do presidente Lula, sobre o golpe contra a presidenta Dilma e sobre o quanto ela quer um autógrafo num cartão postal quando Lula for solto. E ela também anda por aí um tanto afoita com o punho cerrado dizendo “Lula Livre” (e isso não fui eu que ensinei, porque sim, eu me restrinjo a observar, entrevistar e escrever. Essa é a minha resistência e minha atuação).

Acesse aqui as fotos desta manhã

Por Paula Zarth Padilha, repórter do Terra Sem Males, jornalista militante pela função social do jornalismo e pela democratização da comunicação, jornalista sindical, atua com entidades organizativas de mobilização popular pela reforma urbana, mestranda em estudos de linguagens na UTFPR e diretora de Ação Para a Cidadania no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR). Leva Carolina por onde for e permanece onde ela quiser ficar.
Foto: Ex-ministra Nilma Lino Gomes sob olhar fotográfico de Carolina, 5 anos e meio
Terra Sem Males

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