CRÔNICAS DE SEXTA: UMA SINDICALISTA

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“Os olhos azuis de ucraniana brilhavam recontando algumas histórias”

Ainda faltava o nome de Maria para a minha coluna “Perfil do servidor público”, no jornal do sindicato, onde há pelo menos seis meses contávamos a história de algum funcionário aposentado da prefeitura.

Com mais de 80 anos, era notável a presença diária de Maria no lugar que ela ainda considerava a sua casa. Conversava conosco, na redação, e com todos os funcionários, querendo se inteirar do que estava acontecendo. E, assim, Maria se sentia participando dos rumos do sindicato que já não dirigia mais há pelo menos uns dez anos.

Ela narrava também, com autoridade, as greves que encabeçou, as outras tantas que ajudou, os interditos proibitórios, os processos que levou nas costas, as perdas e reposições forçadas, a década de 1980 como o ápice para quem participou das lutas sociais neste país. Expressava preocupação com o que acontecia desde junho de 2013, “muito diferente da nossa época”. Era uma perspectiva distinta da nossa. Filhos que somos do descenso de lutas sociais, enxergávamos as mobilizações que estavam acontecendo agora como um grande desafio.

Isso tudo ressurgiu quando sentamos frente a frente para a entrevista. Os olhos azuis de ucraniana brilhavam recontando algumas histórias, que nós até já conhecíamos, mas com outras tonalidades. Porém, o que mais surpreendeu não foi isso. Na verdade, o que nos desconcertou foi a viagem de regresso que Maria empreendeu rumo à década de 50, quando tinha talvez vinte e poucos anos, ainda uma nortista desse Paraná imenso, ganhando a estrada na condição de esposa de um trabalhador de corte de madeira, instalados nas áreas da reflorestadora Araupel, então chamada Giacomet Marodin.

Mesmo na realidade de dona de casa do terreno onde vivia com os filhos pequenos, Maria me contou que não estava contente com as perseguições, com as más condições de trabalho, com a dispersão daqueles cortadores no meio de um “deserto verde e sem fim”. Ela resolveu então incentivar a criação de um sindicato. Isso, como eu já disse, muito antes de se tornar servidora pública. Fez as passadas de casa em casa, caminhou léguas a chinelo de dedo, aglutinou o povo, fundou o sindicato que alcançou a mesma abrangência da madeireira, na região central do Paraná. Enfrentaram uma grande paralisação e a espingarda dos jagunços.

Deixei a redação impressionado com a conversa e julgava que tinha material suficiente para um livro, não só para a minha coluna no jornalzinho do sindicato.

Mas a questão central começou a acontecer justamente numa curva da memória de Maria, quando ela confundiu, na mesma frase, o ano de 1934 e o de 1954, “quando mataram o nosso velho Getúlio”. E justamente na época do suicídio de Vargas ela depositou boa parte da sua memória afetiva e parecia fazer mais sentido que houvesse fundado a agremiação ali mesmo. Porém, nos arquivos públicos e num único site, constava apenas a fundação de um sindicato na década de 1930. E não há registro algum do nome de Maria. Até aí é algo compreensível, dada a exclusão forçada das mulheres nas narrativas da História e, também, a condição de Maria não ter sido trabalhadora do corte de madeira, tarefa que coube ao marido que, pouco tempo depois, ainda desapareceria na estrada.

Na minha busca automática pelo rigor jornalístico, tentei conferir a questão com ela, mas já não havia fotos, fatos, jornais ou qualquer coisa que o valha. Todo o material que tínhamos estava depositado na memória de Maria, que inclusive deveria ser uma adolescente nos anos 1930. Então, um debate interminável foi aberto na imprensa do sindicato: Como publicar isso com essas provas contrárias? Ou: por que não valorizar a memória de uma pessoa? Ou: Qual fato não passa pelo filtro da memória de alguém, algo profundamente afetivo? Não fica valendo aquilo que a pessoa vivenciou? Se ela defende a fundação na década de 1950, por que não publicar a sua versão? A história, afinal, não é sempre contada do mesmo modo – chatíssimo – pelos vencedores? E nós, ao contrário, não devíamos contar a História dos que sequer a tem, como disse certa vez Camus?

Muito bem. Nosso editor, mais pragmático, era contrário à referência ao sindicato dos trabalhadores da madeira e às histórias daquele período. Achava que devíamos nos ater aos fatos da década de 1980, quando tínhamos a precisão necessária. De propósito, eu ainda deixei um parágrafo genérico sobre o episódio da greve dos trabalhadores da Araupel, mas já sabendo que o trecho seria suprimido da matéria.

Na semana seguinte, com o jornal já saído do forno e circulando pela cidade, escutei o vozeirão de Maria ecoando dentro do sindicato e imaginei a reclamação que pudesse receber, devido à coluna com a sua história de vida incompleta. Na informalidade e distração de sempre, Maria apenas sentou do meu lado, bateu a mão no meu joelho, e iniciou uma nova narrativa:

– Preciso lhe falar dos assassinatos da região. E de como eu escapei de um deles.

Frente ao meu silêncio, Maria ainda piscou:

– É para o nosso livro, combinado?

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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2 comentários em “CRÔNICAS DE SEXTA: UMA SINDICALISTA

  • 28 de agosto de 2015 em 17:54
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    A memória viva de quem viveu a história é o que deve ser registrado.

    Bela crônica Pedro.

    Quando sai o livro da Maria a Sindicalista?

    Resposta
    • 29 de agosto de 2015 em 13:08
      Permalink

      Obrigado, Rui! Pretendo no final do ano publicar um livro de contos. Com dois capítulos: os que escrevi até 2004 e os que estou escrevendo agora. forte abraço

      Resposta

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