Curitiba ganha um novo espaço de formação e acolhimento das lutas coletivas

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Localizada no bairro Rebouças, nova sede do Instituto Democracia Popular possibilita atividades culturais e de formação


O Instituto Democracia Popular inaugurou sua nova sede, um espaço de formação, visando a pluralidade e coletividade das pautas de resistência na atual e difícil conjuntura política e econômica brasileira. 

Com a presença de apoiadores, parceiros, advogados populares e lideranças comunitárias entre os convidados, a solenidade contou com um emocionante resgate histórico sobre o surgimento da entidade, que completa seis anos de atuação em 2019.   

A presidenta do IDP, Libina Silva Rocha, relatou que o IDP surgiu junto à luta dos moradores do Ribeirão dos Padilhas, que resistiram a ações de remoção e despejo, promovidas pela prefeitura, via Cohab, no ano de 2011, de famílias que ali se estabeleceram no início da década de 1980. “Queriam demolir a casa dos meus pais. E a gente não era ouvido”, disse, lembrando que individualmente a resistência não seria possível, mas que o resultado demonstrou a importância da atuação comunitária (junto ao IDP e na formação de alianças com outras comunidades): “ninguém foi removido”, emocionou-se.

Conduzida pela advogada Mariana Auler, coordenadora do eixo Direito à Cidade, a solenidade também apresentou aos convidados algumas ações que o IDP atua com mais proximidade, como o trabalho desenvolvido junto à comunidade São Domingos, que, para além do apoio jurídico, são feitas ações coletivas como a constituição de uma horta comunitária. “A São Domingos é muito emblemática porque representa o tempo da luta. Essas pessoas vivem na insegurança jurídica desde a década de 1970”, explicou. 

Mariana também ressaltou a importância das parcerias, considerando a equipe pequena do IDP. “O que permite que o trabalho seja grande é a nossa rede, são nossas parcerias”, disse, citando as entidades, como a rede de advogados populares (Renap), o MST, o coletivo Mobiliza e outros escritórios de advocacia trabalhista. Para Nuredin Ahmad Allan, advogado parceiro, o Direito não transforma e o que possibilita a transformação é a militância, a luta, e por isso a importância da atuação do IDP. 

José Floriano da Silva, líder comunitário da São Domingos, relatou sobre a importância da aproximação do IDP junto à comunidade, num momento em que os moradores haviam sido procurados para assinar contratos em meio à ameaça de despejo. “O IDP trouxe alívio, segurança e esperança”, disse. A data da inauguração também coincidiu com o dia do padroeiro dos moradores, São Domingos, celebrado em 8 de agosto. Após a fala de Floriano, foi exibido um vídeo com depoimento do Frei Dominicano Vicente Micallef, que acompanhou a consolidação da Vila São Domingos, desde o início de sua formação.

O evento também teve a apresentação das ferramentas de comunicação do IDP, que entende a visibilidade das temáticas da luta por moradia como central para a atuação jurídica e política junto às populações que resistem e junto às instituições que deveriam ser responsáveis pelas políticas públicas reivindicadas. 

A jornalista da entidade, Paula Zarth Padilha, apresentou o site e as redes sociais do Instituto, que disponibiliza também os acervos em texto e vídeo dos diversos cursos de formação promovidos pelo IDP ao longo dos seis anos. Ela reafirmou a importância de realizar um trabalho informativo que visibiliza as ações da entidade, mas com enfoque nas temáticas relacionas à luta por moradia e subsidiando outros veículos de comunicação sobre ações de resistência, como atos, manifestações e denunciando reintegrações de posse contra as ocupações.

O encontro foi finalizado com o depoimento da advogada Denise Filippetto, idealizadora do Instituto Democracia Popular, que enalteceu a importância da nova sede como um “espaço de formação e de resistência contra o obscurantismo desse processo de golpe”, que teve início com o impeachment da presidenta Dilma em 2016 e se consolidou com a prisão política do ex-presidente Lula. 

Denise destacou que o IDP é uma instituição apartidária, mas que a defesa da campanha LULA LIVRE significa defender os princípios democráticos e constitucionais. “A libertação imediata de Lula simboliza o resgate da institucionalidade, sendo dever de todos os setores da sociedade fazer o debate”, afirmou, agradecendo a presença da Executiva Nacional da ABJD (Associação Brasileira de Juízes pela Democracia), nas pessoas dos advogados Tânia de Oliveira e Nuredin Allan, e de integrantes da AJD (Associação de Juízes pela Democracia) que, no mesmo dia, realizaram, em frente à Superintendência da Polícia Federa,  um ato de reconhecimento do caráter político da prisão de Lula. Denise também agradeceu a presença do CESIT (Instituto de Economia da Unicamp), representado no ato pela Professora Magda Biavaschi, ressaltando ter sido o primeiro parceiro do IDP, nos cursos de formação, antes mesmo da existência deste espaço próprio.

Lula enviou uma carta ao IDP, que está exposta na entrada do salão principal da casa. Foto: Kamila Portes

A festa de inauguração contou com uma exposição fotográfica sobre Lula e a Vigília Lula Livre, do repórter fotográfico Joka Madruga, que também expôs projetos autorais que registram a resistência dos atingidos por barragens na região norte do país, além de intervenções do ator paranaense de teatro Jeff Bastos, da artista plástica Gisele Filippetto, do cineasta Gustavo Castro, que realizou o documentário Ribeirão dos Padilhas e a série de vídeos “Cidade ao Redor”, produzidos pelo IDP, e do livreiro Maurício Rodrigues de Souza, organizador do acervo da casa.

O espaço de formação do IDP também conta com a exposição permanente da obra de arte “Entrelaços”, da artista Eunice Terres, que retratada, em suas faces bordadas, mulheres na resistência.

Foto de capa: Joka Madruga

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