Da sala de emergência, com o filho nos braços

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Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

Na madrugada de sábado para domingo senti um pouco (bem pouco, imaginei muito) das dificuldades de se morar numa cidade pequena quando seu filho fica doente, no meio da noite, durante um temporal. Eu tinha transporte, tinha ajuda, tinha dinheiro, e uma filha nos braços aos prantos. Ela dizia “tá doendo muito mãe, me leva no médico”.

Quando passou um pouco a chuva, colocamos ela no carro, atravessamos a cidade para ir ao único hospital de lá. Estava escrito na parede do pronto socorro que só havia um médico de plantão e que quem decidia a prioridade entre crianças, idosos e emergência era a enfermeira que fazia a triagem inicial.

Ao contrário do que sempre acontece numa emergência hospitalar em Curitiba, que está sempre lotada de crianças, lá estava vazio. Chegamos e não havia ninguém. Senti 5 minutos de esperança e alívio. “A dor vai passar logo”. Mas descobri logo que nem o médico estava lá.

Registrado na ficha de entrada o horário de 6h12. Não sei quanto tempo fiquei chorando com a minha filha nos braços na sala de espera, mas quando o médico finalmente atendeu, deu o diagnóstico e receitou medicação imediata no hospital, não havia em estoque o IBUPROFENO receitado. Saímos de lá com o endereço da farmácia de plantão (sim, cidade pequena, domingo, sabe como é).

Chegamos em frente à farmácia 7h30. Estava escrito na parede que o plantão começava às 7h45. Carolina alternava entre dormir com a carinha de dor e se contorcer entre choros.  8h ela foi medicada e dormiu até 12h, acordou sorridente dizendo que a “orelha” não doía mais. Vida normal a partir desse momento.

E eu só pensava no meu azar com essa sequência de fatos. Mas não é azar meu. É o que deve acontecer a todo momento em todo lugar que não é capital. Eu estava no interior, mas numa cidade nem tão pequena assim. UM HOSPITAL. UMA FARMÁCIA NO PLANTÃO. Não há transporte público, somente táxi, mototáxi, bicicleta, carro particular.

Na recepção do hospital havia um vômito. Na sala de espera o chão estava molhado com algo parecido. Logo que chegamos, ou bem depois, perdi a noção do tempo, uma senhora com pressão alta queria conversar comigo mas ela estava em situação talvez mais delicada que minha filha e parecia que a qualquer momento ela cairia ali ao meu lado.

Amanheceu e começou a movimentação, a troca de plantão, as pessoas doentes a aparecerem. Normalidade?

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Andirá aplicou 21,22% do orçamento em Saúde Pública neste quadrimestre; mais do que os 15% exigidos em Lei
“Ao todo, foram R$ 3.103.721,56 de receita e R$ 3.619.123,44 de despesas.”
“o cumprimento obrigatório é de 15% do orçamento a ser direcionado à Saúde. Mas, o índice apontado neste quadrimestre já é de 21,22%.”

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A população estimada de Andirá pelo IBGE é de 20.876 habitantes (2015)
De acordo com levantamento do Ipardes, o município possui 43 unidades de atendimento de saúde, mas somente 1 hospital e 1 emergência.

 

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