Debate sobre barragens mostrou que somos todos atingidos

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Os impactos das privatizações do setor elétrico na vida dos trabalhadores e das famílias; retratos da luta contra a desvalorização das mulheres atingidas por barragens; imagens e relatos de quem viu de perto as consequências do rompimento da barragem de rejeitos na Bacia do Rio Doce; as atividades do Fórum de Lutas 29 de abril; e a constante mobilização das mulheres, que norteiam todas essas temáticas.

Na noite da última quarta-feira, 09 de dezembro, a APP Sindicato sediou, em Curitiba, o evento “Modelo Energético, Violação de Direitos, Meio ambiente e a Luta das mulheres”, que contou na plateia com a presença de militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) de diversas regiões do interior do Paraná e de outras localidades do país; do Levante Popular da Juventude; da Marcha Mundial das Mulheres do Paraná; estudantes e militantes de movimentos sindicais e sociais.

Os rastros das privatizações

O militante do MAB de São Paulo Luis Dalacosta iniciou sua exposição trazendo os reflexos das privatizações do setor energético, especialmente das hidrelétricas, afirmando que o modelo implantado é o mesmo (portanto com os mesmos reflexos) do que está sendo preparado para o setor do petróleo: a energia, um direito de todos, começou a ser vendida como mercadoria, considerando o preço mais alto de produção, trazendo lucros extraordinários em determinados lugares. Lucros que são ano após ano enviados como remessa ao exterior, que não são utilizados para investimento. “Mais de 100% do lucro líquido vai como remessa para fora do país. As empresas chegam a emprestar dinheiro do BNDES para enviar valores acima do lucro líquido”.

As consequências foram a redução no número de trabalhadores e todos os reflexos das terceirizações, como maior número de acidentes, perda de direitos, enfraquecimento da luta de classes com as negociações sendo divididas em até 60 dissídios por empresa.

Protagonismo das mulheres

Lunéia de Souza é jornalista e militante do MAB em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná. Ela apresentou um compilado de relatos de mulheres atingidas por barragens de todo o país. Os depoimentos são parte do documentário “Arpilleras: bordando a resistência”, que está em fase de produção pelo MAB via financiamento coletivo.

As mulheres têm seus direitos de atingidas negados de muitas formas: aparecem como submissas e ingênuas, consideradas pelas empresas proprietárias das hidrelétricas como ferramenta de convencimento de seus maridos em acordos. Têm seu trabalho informal perdido pelas remoções e desvalorizado na reconstrução de suas vidas; perdem a companhia de amigas que dão suporte e apoio na criação de filhos; carregam na barriga os chamados “filhos das barragens”, quando são iludidas com promessas de trabalhadores das construções que vão embora e as deixam para trás. Não têm respeitada sua posição de dona de casa, não participam das reuniões e processos de negociações.

Lunéia encerrou sua exposição tocando violão e cantando o Hino das mulheres atingidas por barragens.

Crime social e ambiental na Bacia do Rio Doce

O repórter fotográfico Joka Madruga, editor do Terra Sem Males, trouxe ao debate o que viu e registrou na região da cidade de Mariana (MG). Ele começou afirmando que o rompimento da barragem não foi acidente e não pode ser visto como tragédia. “O que acontece lá é um crime social e ambiental de responsabilidade da Samarco e da Vale e da BHP Billinton, multinacionais da mineração”.

Joka contou sobre todos os distritos em que esteve para atuar junto ao MAB na documentação e divulgação das consequências do rompimento da barragem de Fundão. Ele mostrou em fotos de satélites a localização aérea das barragens e das cidades atingidas, para que todos pudessem entender o caminho que a lama de minérios percorreu. As fotos mostram como a vida das pessoas foi destruída, como elas não tiveram acesso à informação, como perderam tudo.

Joka convocou a militância a atuar em defesa do MAB, que organiza a luta da população local para a reconstrução das vidas, acesso à moradia digna, infraestrutura e até mesmo ao emprego. A cidade é dependente da mineração, que é responsável por 80% da arrecadação. As pessoas estão se influenciando pelo temor da Samarco fechar e chegam a acusar o MAB de ser o responsável pelo futuro fechamento da empresa, se houver as indenizações necessárias. Joka desmistificou a informação afirmando que a Samarco vai continuar lucrando bilhões que já lucra a cada ano, mesmo que pague todas as indenizações necessárias, porque é a responsável pelo que ocorreu.

Além de convocar a militância para apoiar o MAB, Joka afirmou que a divulgação de notícias sobre o rompimento da barragem deve ser com o compartilhamento de entidades como o MAB, o Terra Sem Males e o Brasil de Fato, que fazem o contraponto às notícias divulgadas pelos grandes jornais.

A mesa de debates também teve a presença de Nádia Brixner e Marilda Ribeiro, da APP Sindicato, do deputado estadual Professor Lemos, e de Naiara Bittencourt, militante da Marcha de Mulheres e das Promotoras Legais Populares.

Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

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