Dentes à mostra

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“Fonte ligada à funerária Paz Eterna, que contratou os serviços da terceirizada, afirma que os dois funcionários envolvidos no vazamento prestaram depoimento à polícia na madrugada desta sexta-feira (26). Ambos poderão responder pelo crime de vilipêndio a cadáver, que prevê de um a três anos de prisão mais pagamento de multa” (Reprodução: R7 notícias).

O doutor me desculpe por favor.

Desculpe. Ah, é senhor, né?

Então, o senhor me desculpe.

Me desculpe mesmo. Desculpe-me, é o jeito correto de dizer.

Desculpe, desculpas, desculpa.

Me Deusculpe, como disse um humorista.

Falo sério.

Perdão e súplicas de minha parte.

Sou trabalhador. Sou trabalhadora. O senhor sabe disso.

Não pude resistir, não foi por mal, minha senhoria.

Sou evangélica, e isso não teve nada de ritual com o diabo, não. Deus me livre!

Nem gosto de morto.

Acho essa funerária na verdade uma grande merda, mas quero continuar trabalhando aqui. Porque preciso.

Não. Não sou não.

Como é que diz mesmo? Essa turma aí que gosta de trepar com cadáveres? Não sou desses.

Nem sou fotógrafo.

Nem sou ninguém, não.

Não precisava ter me demitido não.

Ele estava morto já. Estava com os dentes arrebentados. Eu o consertei e deixei bonito para o velório.

Mas o senhor entende? Era o morto na televisão o dia inteiro.

Eu entrava na padaria e ele estava lá, todo mundo se emocionando com ele. Chorando por ele.

Eu também sou humano. Sou humana. Eu também chorei sim.

Não sei se cometi um crime. É roubo, é furto, como é que se chama o que eu fiz?

O senhor entende a tentação? Eu queria mostrar para os amigos, pros grupos do face.

Eu queria bombar e ter o meu momento também.

Eu fiz a foto do cadáver e divulguei no facebook para todo o mundo curtir e compartilhar. Foi só tirar o celular do bolso rapidinho e nem precisei buscar o melhor ângulo.

Se ele estava sorrindo? Se as costelas? Se eu mostrei aquele montão de vísceras, sangue e merda?

Pois é.

Mas não me demita, não senhor. Afinal, o senhor também curtiu a foto do cadáver na hora que eu postei.

Não?

 

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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