Desconexões e retrocessos: México, Inglaterra e Temer

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Por Venâncio de Oliveira,
economista e doutorando na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM)

Terra Sem Males

O mundo é pequeno e violento. Como fala o intelectual holandês, Wim Dierckxsens, o mundo se liga e desconecta. Para mim, também dá passos atrás no tempo. As conexões são várias e estamos a cada instante sabendo do que passa ali na esquina do outro país. Temos a ideia de que estamos no cume da civilização e então:

Por que não temos fronteiras livres e os mesmos direitos e tranquilidade que nos oferece este turbilhão de oportunidades tecnológicas supranacionais?

No entanto, o que vemos: espaços se fragmentam e os tempos se atrasam.

A mundialização do dinheiro prometeu paz e cultura universal. Mas fica curta na promessa. Por um lado, no velho continente, a fragmentação pauta a política europeia, Atenas ameaçou, mas não teve capacidade. Surpresa: É a Inglaterra que rompe com a União Europeia. No México, os professores e o Estado entram em verdadeira guerra campal, pois as fatídicas reformas trabalhistas prometem uma vida mais difícil, professores sem estabilidade, sem direitos e sujeitos a instável vida mexicana.

Quando falo em desconexão e conexão, penso na promessa, chamada globalização, na ideologia de que somos uma aldeia global. A internet e as redes sociais são a expressão mais acabada desta ideia: você é amigo de algum japonês que nem sabe português. Não há Estado Nacional. Por meio desta promessa, veio à realidade e a chantagem do poder do dinheiro que se fez mundial: Quem quer ter uma nação que regula este dinheiro, que diz o que o “grande investidor tem de fazer”, que ele não pode vir aqui, enfiar dinheiro e depois ir embora, ganhando com a nossa queda, está fadado ao fracasso da mundialização e a pobreza, ruim com ele, pior sem ele. Não há fronteiras, não há regulação universal, teremos Estados supranacionais.

O fenômeno inglês nos pegou de surpresa. Mas a vitória é menos da esquerda, que sempre criticou o cinismo dos tratados de livre comércio, como tratados estruturais de desestruturação das regulações dos países pobres, que na verdade sempre significou uma forma de junção dos Estados, com alguém mandando, os Estados Unidos como o dono da bola e os Alemães como chefes regionais da Europa. A Inglaterra nunca aceitou ser menos rei que os prussianos, tanto que mantiveram a libra. Agora com um discurso xenófobo, os ingleses jogam pá de cal na promessa de uma Europa unida. O sonho do pós-guerra, de um continente-país que crie paz eterna entre espaços antes bélicos, ficou curto, pelo menos nas disputas comerciais, esta separação pode significar uma desconexão que vai mais além do que pensamos.

Não é só na questão geográfica que temos uma desconexão. A ideia de uma modernidade extrema na ideologia pós-moderna, promete uma sociedade em que a história está resolvida, estamos bem e nos viramos no capitalismo. Só temos de nos preocupar em postar bonitas fotos desta bonança. Mas o mundo dá passos atrás.

Rebelião dos Professores

É assim com as novas ondas de reformas trabalhistas no mundo e os ataques violentos do Estado. No México, os professores fazem quase uma rebelião generalizada, controlando territorialmente cidades do sul do país. E o Estado persegue, criminaliza e reprime violentamente o sindicato. Como sempre, se torna uma batalha campal, o México tão adepto das guerras de movimento. No fundo, é uma reforma trabalhista que precariza os trabalhos dos professores. Vários movimentos num ato só: você não tem férias, não tem estabilidade e é um professor massa de uma educação ruim. Voltamos ao século XIX nas formas de trabalho com tecnologias do futuro.

E, infelizmente, o que gerou uma revolta popular legítima em 2013, foi o seu contrário: um retrocesso social brutal, pois foi capitaneado pela ideologia da tradicional classe média, setor minoritário, rancorosa dos tempos que tinham privilégios na República dos Bacharéis, que teve apoio nos pobres do sul – um pouco mais bem alimentado, mas sempre ali no limiar para serem tão pobres como todos os pobres do Brasil. Apenas o ódio deste setor, dá base para o projeto que pretende mexicanizar o Brasil: um Brasil pobre e sem direitos, e se brincar, com alguma guerra do narcotráfico para girar grana.

Assim caminhamos ou descaminhamos. As verdades oficiais não são tão simples. A minha pergunta: se há desconexão, por que não nos desconectamos e propomos novas conexões, novas políticas coordenadas de resistência à chantagem do dinheiro? A desvalorização do cambio foi tão ruim ao México como ao Brasil, pois era a especulação da grana que tinha medo e queria ganhar com a nossa pobreza. Tanto aqui no México os trabalhadores estão perdendo ainda mais direitos e no Brasil ameaça a generalização de subempregos e da instabilidade permanente. Mas será que tem de ser assim para sempre?

 

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