Desconversar

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Crédito: Oswaldo Guayasamin Gallery Images

*Thiago Ferreira “Pará”, especial para o Crônicas de Sexta.

Carlos Alberto não disfarçou a desconfiança. Mesmo depois de toda aquela conversa no carro. Aquela cara, com olhos inquietos e uma espécie de tique nervoso no canto da boca, fazendo-o parecer estar rindo. Vanessa sabia e por isso se inquietava. Tão logo desceu do carro, foi procurar a mãe.

– Mãe, aconteceu alguma coisa com o papai? Ele está muito esquisito. Veio me questionar sobre muitas coisas na volta da escola para cá, mas cheio de rodeios.

– Sabe como é seu pai, fica encucado com qualquer coisa, liga não, é só jantar e passa, disse sua mãe.

Madalena sabia que não era por acaso que Carlos Alberto estava daquele jeito, todo preocupado. Sabia muito bem com quem havia se casado e mais: sabia muito bem o que afligia naquela noite seu marido. Mas procurava preservar a filha.

Vamos, o jantar está servido. Sem cara feia, nem corpo mole, hoje é dia sopa! Alertou Madalena.

Claro que ela não falou por acaso. Já previa Carlinhos e Vanessa chegando à cozinha com a “cara amarrada”. Dito e feito.

– Mas de novo sopa mãe!?, retrucou Carlinhos.

– É melhor agradecer, sopa faz bem.

Vanessa, entretanto, pareceu não perceber o cardápio, ainda estava pensativa, por causa do pai.

– Vamos jantar mocinha! Berrou o pai lá da cozinha, já servindo seu prato.

Todos à mesa. Antes que começassem a comer, Carlos Alberto fez questão de fazer o agradecimento. Não escondia sua preocupação, mistura de inquietude e insatisfação. Vanessa já não sabia se o que o zangava era a conversa no carro ou a sopa. Carlinhos permanecia com a “cara amarrada”. Madalena cortava o pão.

– Pai nosso que estás no céu. Viemos à tua presença agradecer, este alimento, esta casa e a dignidade de nossa família…

Carlos Alberto rezava diferente. Erguia a cabeça e gesticulava muito os braços, fechava e abria os olhos freneticamente. Carlinhos segurou o riso. Vanessa se assustava mais ainda. Madalena pensou intervir, resolveu esperar.

“E Ele criou homem e mulher”. O agradecimento, sempre muito rápido, já estava transformando-se numa pregação. Ao final, ele percebeu que todos o olhavam da mesma forma. Todos procuravam uma resposta. Ele preferiu calar, talvez fosse vergonha. O jantar seguiu, sem ninguém nada entender.

Vanessa não se deu por convencida. Na verdade, não suportou aquela angustia presa durante todo o jantar. Disparou:

– Pai, o que tá acontecendo? Por que você tá assim tão inquieto? Por que todas aquelas perguntas desconexas no carro?

Carlos Alberto, então, num ataque de cólera, bateu na mesa e gritou: “Você é lésbica, pecadora, imunda, não honra sua família!”.

Madalena baixou a cabeça e suspirou fundo. Vanessa soluçando, começou a chorar. Carlinhos, sem entender bem, deu-se a rir.

E Carlos Alberto, uma vez mais, calou. 

 

*Thiago Ferreira Pará é militante do Levante Popular da Juventude e diretor da atual gestão da União Nacional dos Estudantes (UNE)

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